A diplomata norte-americana Wendy Sherman viajou para a China e estará reunida com o ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, em Tianjin.

Tendo em atenção as últimas declarações feitas por ambos os países, poderemos assumir que se trata de uma excelente notícia.

Ao longo da sua ascensão, temos vindo a perceber que é fundamental para a RPC moldar um ambiente político que favoreça o seu crescimento ao mesmo tempo que restringe a influência ocidental na comunidade internacional. Neste sentido, os últimos acontecimentos nos EUA têm facilitado a vida a Pequim. A invasão ao capitólio, a má gestão da pandemia (600 mil mortes), as divisões raciais e os contrastes socioeconómicos são situações que na perspetiva chinesa podem ser sinais do declínio de Washington. E é natural que Pequim pretenda fazer frente a Washington de modo a impor o seu poder e influência a nível mundial. Aliás, segundo Yan Xuetong (2021; Becoming Strong), no decorrer do mês de março, o diplomata chinês Yang Jiechi ao dar a entender que os EUA não têm qualificações para falar com a RPC, como sendo uma potência superior, demonstrou o quão comprometida está a China em designar-se como uma superpotência. Assim sendo, não deixa de ser legítimo que os EUA respondam ao crescimento e posicionamento chinês no sistema internacional.

Como resposta, Joe Biden voltou a colocar os EUA no centro da ordem mundial, afirmando que “a América voltou”. Nesse seguimento, ao crer que a situação vivida em Xinjiang se trata de um genocídio, ao apoiar publicamente Taiwan e ao considerar a China um adversário estratégico, Biden passou uma mensagem de descontentamento em relação ao comportamento da RPC.

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Acresce ainda que, no decorrer do encontro da NATO em Bruxelas, no passado dia 14 de junho, o líder norte-americano fez questão de deixar uma mensagem de incentivo aos restantes líderes, manifestando o compromisso norte-americano com a NATO, sublinhando a importância em confrontar o autoritarismo e crescimento do poder militar chinês. Já Angela Merkel como o Secretário-Geral da NATO, Jens Stoltenberg, também se mostraram preocupados com esta nova realidade, abordando as ameaças cibernéticas e híbridas provenientes da China.

Dias antes, durante a Cimeira do G7 em Inglaterra, foi discutido o respeito pelos direitos humanos em Xinjiang, a preservação da liberdade em Hong Kong, as origens da Covid-19, a situação no Mar do Sul da China e a paz no estreito de Taiwan. Como contestação a estas afirmações, o porta-voz da Embaixada da China em Londres referiu que: “(…) Sempre acreditámos que os países grandes ou pequenos, fortes ou fracos, pobres ou ricos, são iguais e os assuntos mundiais devem ser geridos consultando todos os países (…)”, reforçando a ideia de que as decisões ditadas por um pequeno grupo como o G7 acabaram.

No entanto, no período conturbado em que a comunidade internacional se encontra, é necessário equacionar o valor que o multilateralismo representa para ambos os países. No caso da China, desde a dependência do mercado ocidental aos propósitos da Nova Rota da Seda, a RPC terá como desafio fazer com que seja respeitada da mesma forma que os EUA são. Já Washington, para além de necessitar da manufatura chinesa, terá de corrigir a sua política externa dos últimos anos de forma a tranquilizar os seus aliados e parceiros ,como também terá de se antecipar às iniciativas de Pequim. Segundo Andrye Wong (2021; How not to win allies and influence geopolitics), o PCC continua a ter como prioridade defender mais os seus interesses do que “moldar” outros países à sua imagem. E, se repararmos, é notável a forma como a China tem procurado uma mudança no status quo do sistema internacional, mas não de um modo radical. Como Yan Xuetong refere (2021; Becoming strong), o objetivo de Pequim será apostar e fortalecer o seu mercado interno e criar uma cadeia de abastecimentos coesa com o intuito de diminuir a dependência comercial relativamente ao mercado estrangeiro. A aposta na área da inovação tecnológica, o investimento na Nova Rota da Seda e a aproximação a países vulneráveis em África, América Latina, Médio Oriente e na Ásia-Pacífico são claros exemplos disso.

Poderá dizer-se que, com esta diplomacia «Wolf Warrior» Pequim corre o risco de ver certos países começarem a evitar as suas abordagens. Ou seja, em termos de longa duração, as relações exteriores estabelecidas pela China aparentam continuar insuficientes para um país que ambiciona tornar-se numa superpotência. Embora a China demonstre ser capaz de criar consideráveis desafios à comunidade internacional, não significa que haverá um corte na relação sino-americana. Isto é, ambas as potências sabem que isso não abonará a favor de ninguém. Todavia, a RPC acredita que existem outras formas de governar, assim como admite que os EUA farão tudo para impedir o sucesso chinês. Posto isto, do ponto de vista norte-americano, é natural que os EUA sintam o seu lugar no pódio ameaçado, o que faz com que adotem uma posição de “ataque” face a qualquer falha ou comportamento assertivo proveniente do PCC. Ainda assim, de acordo com Wang Jisi (2021; The Plot Against China), a relação sino-americana pode chegar a bom porto. Para tal, Washington não deve interferir internamente na política chinesa, como Pequim não deve fazer frente à supremacia norte-americana, tentando enfraquecer a imagem dos Estados Unidos. Mas será esta a solução para um sistema internacional multipolar sustentável?

Apesar de partilharem objetivos em comum – cooperação no âmbito do combate ao terrorismo e às mudanças climáticas – a forma como atuam e veem o Mundo, acaba por ser totalmente diferente. Como garantido, sabemos apenas que nenhum dos países estará disposto em abdicar da sua ideologia e comportamento, pois procurarão sempre alcançar mais poder – económico, tecnológico e militar – no contexto da ordem mundial.