O sonho de uma América harmoniosa já tinha morrido há muito, mas ontem foi a enterrar. Barack Obama chegou à residência com um país dividido e se algo o irá atormentar é deixar a Casa Branca com o país ainda mais dividido. O mundo inteiro celebrou a eleição de Obama, mas muitos americanos sentiram essa escolha como uma humilhação e uma exclusão, um sinal de que a nova narrativa de uma América pós-racial não lhes tinha destinado o papel de protagonistas.

Ao mesmo tempo, sofreram os efeitos da crise e da transformação de uma economia industrial numa economia tecnológica. Eles e os seus pais tinham vivido o sonho americano e agora eram confrontados com uma realidade dura, um país diferente do ponto de vista cultural, económico e demográfico. Um país pós-racial e pós-industrial em que os americanos cosmopolitas maioritariamente liberais gostam de se rever e que os europeus cosmopolitas e maioritariamente progressistas apreciam porque partilham os mesmos valores, aspirações e mundivisão.

Aquele país derrotado, humilhado e em crise desapareceu da narrativa mediática mainstream e nem sequer assomou nas sondagens. Mas não desapareceu da realidade. Uma parte desse país encontrou refúgio nas redes sociais e nos órgãos de comunicação mais extremistas, numa imprensa local sem qualquer impacto fora dos seus limites geográficos mas que serviu para reforçar o sentimento de injustiça, de quebra do poder económico e de perda da centralidade na grande narrativa americana. Os restantes foram simplesmente ignorados pela imprensa durante a campanha presidencial.

O eleitorado potencial de Donald Trump foi reduzido a um conjunto de racistas, misóginos, membros do KKK e paranóicos das teorias de conspiração. Os cidadãos comuns que não se sentem representados pelos partidos do sistema, que se sentem injustiçados pelos media tradicionais, menosprezados pelos seus concidadãos e ignorados pelo resto do mundo tiveram oportunidade de confirmar esses sentimentos: os partidos não lhes deram uma resposta satisfatória, os media tradicionais olharam para o lado, os seus concidadãos desvalorizaram-nos e o resto do mundo mal deu pela sua existência.

No final, foram esses milhões de norte-americanos que elegeram Trump e não apenas aqueles freaks que ficam muito bem em reportagens sarcásticas e que reforçam o esterótipo dos nortes-americanos imbecis e retrógrados. À volta do núcleo de americanos hard-working, god-fearing e gun-loving, havia uma multidão de homens e mulheres desiludidos com o sistema e que viram em Donald Trump o mais parecido a um candidato anti-sistema. De cada vez que uma celebridade declarava o apoio a Hillary Clinton, de cada vez que um jornal pedia que os eleitores não votassem em Trump, o candidato republicano com ares de independente ganhava mais uns milhares de votos. Porque o sistema, aos olhos destes americanos, não é apenas Washington, o establishment e os políticos, é toda a cultura, toda uma cultura.

O futuro da América e do mundo não está na indústria e no rust belt, está na tecnologia e em Silicon Valley e não será Trump a inverter essa marcha. O futuro da América e do mundo não está numa sociedade fechada, monocultural e monocromática e todos os esforços que Trump empreenda para criar uma tal sociedade não restituirão a grandeza da América, apenas farão da América mais pequena do que alguma vez foi, e é esse o grande perigo para o mundo. Mas até que o futuro chegue não podemos ignorar as pessoas de carne e osso que ainda não tiraram bilhete para esse maravilhoso comboio do progresso, que ficaram na estação e não sabem se hão-de regressar a casa ou hão-de esperar pelo próximo comboio. Agora votaram em Trump, mas já tinham votado em Putin, a favor do Brexit e talvez não se fiquem por aqui.

Uma coisa é certa: uma América debilitada mas com os sonhos de grandeza intactos, uma América acossada pelos inimigos e sem autoridade moral para liderar os aliados, é uma América perigosa.

Bruno Vieira Amaral é crítico literário, tradutor e autor do romance “As Primeiras Coisas”, vencedor do prémio José Saramago em 2015