José Sócrates

A amizade dos corruptos

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118

Há uma corrupção que se organiza em torno dos que precisam de “amigos” que “defendam os seus privilégios, que os ajudem perante as mutações do poder”. Portugal anda cheio de “amigos” destes.

Há quem, nos seus escritos jornalísticos, consiga, a partir da realidade mais imediata, pensar algo que, inscrito nela, vai no entanto além dela. Regra geral, isso permite que, lidos os textos passados anos, a realidade imediata de outrora que neles é descrita continue viva, mas apareça como exemplo de uma realidade mais geral que é ainda a nossa. Tal requer, além de uma indispensável eficácia literária, a posse de uma experiência singular das coisas ou de uma visão original da realidade que, academicamente formada, saiba não ceder ao jargão que a Academia, para o bem e para o mal, tende a impor ou a tiques doutrinais autoritários. O exemplo entre nós mais notório dessas qualidades é Vasco Pulido Valente. Mas, sendo maior, não é obviamente o único.

Um outro de alguns vários exemplos que se podem dar desse particular talento de pensar, por assim dizer, em público é Victor Cunha Rego. Falo de Victor Cunha Rego (1933-2000) porque passei alguns dias a ler Na prática a teoria é outra. Escritos 1957-99, um grosso volume acabado de publicar pela D. Quixote e excelentemente organizado por Vasco Rosa e André Cunha Rego, que recolhe a totalidade da sua escrita jornalística, desde os primeiros artigos publicados em jornais de S. Paulo até aos últimos no Diário de Notícias, passando pelos de A Tarde e Semanário, jornais que fundou e dirigiu. (Vasco Rosa prepara igualmente para breve a edição de um volume de características semelhantes dedicado a José Cutileiro – um outro muito bom exemplo do que escrevi no primeiro parágrafo.)

Victor Cunha Rego teve uma vida aventurosa e a sua escrita reflecte-o, embora, a maior parte das vezes, de uma forma indirecta. E, sobretudo, tinha a tal experiência singular das coisas que permitia uma iluminação do presente fora dos cânones habituais e mais ordeiros que não iluminam nada e tendem, pelo contrário, a fazer desaparecer o que é vivo do mundo à nossa volta. Salta aos olhos igualmente, lendo o que escreveu, como o interesse pela coisa política, no sentido amplo, só fazia verdadeiramente para ele sentido se acompanhado de uma reflexão sobre o que é propriamente humano. Em páginas e páginas que se sucedem, isso é mais do que patente, e há uma angústia quase palpável que habita a sua prosa, o que não perturba em nada a leitura, antes pelo contrário, porque testemunha de uma espécie de veracidade que não é nunca intrometida. A reflexão sobre a religião, que é lícito não seguir mas é má-fé silenciar, é um bom exemplo disso. “Florescia à beira de precipícios”, escreveu dele o admirável Manuel de Lucena (de quem tenho saudades) na introdução a uma das secções do livro, frase que é retomada por José Cutileiro no Prefácio.

Queira-se ou não, lê-se sempre um livro a partir do que nos ocupa mais a cabeça no momento da leitura. Por estes dias, ando a dar por mim a pensar na corrupção, como nunca me havia acontecido. Os jornais e as televisões lembram a actualidade da questão. Organizações internacionais colocam Portugal no número de países da União Europeia onde a corrupção é insuficientemente combatida e queixam-se de que o governo português não segue os conselhos que nesta matéria lhe dão. E, como de costume, pensa-se que o que se sabe, ou se julga saber, é apenas a célebre ponta de um imenso iceberg contra o qual nos arriscamos a chocar mais uma vez, que choques já houve antes, alguns muito recentes.

Talvez por causa da minha cabeça andar ocupada com estes pensamentos, fiquei surpreendido com a quantidade de referências à corrupção que encontramos, dos primeiros aos últimos, nos artigos de Victor Cunha Rego. Corrupção no Brasil (onde na altura vivia) nos anos 50 e 60, corrupção em África, na União Soviética, na Europa de Leste, em Itália – e, é claro, em Portugal.  No futebol e na sociedade em geral, sobretudo nesta última, sendo que a corrupção no futebol, face ao grande exemplo da corrupção geral, é finalmente um caso menor.

Dado o modelo antropológico subjacente ao que Victor Cunha Regro escreve, aquele particular pessimismo a que certo cristianismo obriga e no qual Schopenhauer se revia, a corrupção, para Victor Cunha Rego aparece revestida não apenas de elementos políticos e morais mas igualmente, para utilizar a palavra que é a correcta, ontológicos. Não é difícil, elaborando um pouco, ver nela para ele o sinal de uma degradação do próprio ser. Mais certamente do que Schopenhauer, Pascal não anda longe desta maneira de entender as coisas.

Mas não foi, confesso, isso o que mais me interessou. Como não o foi a referência ao carácter intrinsecamente corruptor de um Estado-Monstro: já se sabe, e como diz Jimmy Stewart num filme de Anthony Mann: If you don’t know, I can’t tell you. O que mais me interessou foi a descoberta de duas dimensões substancialmente diversas da corrupção. Há, é claro, muitas mais, mas estas duas são, no seu contraste, particularmente elicidativas.

A primeira é a pequena corrupção generalizada nas sociedades, aquela que Victor Cunha Rego relata num dos seus escritos brasileiros. A corrupção sem a qual nada, por insignificante que seja, se consegue obter, “desde um cartão de identidade a um atestado de vacinas”. A pequena corrupção que exige constantemente que se beneficie do auxílio de um qualquer padrinho, que nos obriga, em brasileiro, a ter um pistolão.

A segunda, a mais interessante e que nos deve talvez fazer mais pensar, é aquela que se descobre num artigo de 1990, “Amigos, inimigos”, onde, de resto, a palavra “corrupção” não é mencionada, mas onde a ideia está presente da primeira à última linha. É a corrupção que se organiza em torno daqueles que precisam de “amigos” que “defendam os seus privilégios, que os ajudem perante as mutações do poder”. É uma corrupção fundada numa certa ideia de amizade, uma ideia que implica ponto central, a desigualdade entre os amigos. Não é, como Aristóteles lembrava na Ética a Nicómaco, uma verdadeira amizade, que apenas se verifica entre iguais. É uma espécie de amizade corrompida e degradada, que cria dependências e estimula uma corrupção muito mais radical e nociva do que a primeira, porque se tende a transformar numa espécie de segunda natureza da sociedade.

Portugal anda cheio de “amigos” destes. A acreditar no que se sabe da acusação a José Sócrates, Sócrates era, nesta acepção da palavra, um verdadeiro “amigo” de Ricardo Salgado. A desigualdade estava inteirinha lá, e não é preciso um grande esforço mental para perceber quem, entre o homem da Covilhã que queria fatos melhores e o banqueiro de Lisboa, era dependente de quem. Do mesmo modo, nesta história recente do Benfica, e a acreditar no que se escreve, salta aos olhos a desigualdade na amizade que levava os funcionários judiciais a violarem gravemente a lei em benefício de um funcionário do clube (e do clube), a troco de uns bilhetes num lugar mais jeitoso no Estádio da Luz. Por mim, até acredito que umas esferográficas bastavam. O importante era ser “amigo”.

Esta amizade florescente entre desiguais é o exacto oposto da verdadeira amizade política que deve ser um laço permanente das nossas sociedades. Ela exemplifica a desigualdade e perpétua-a. Ocupados como estávamos a pensar nos alegados milhões que Sócrates terá metido ao bolso, este aspecto essencial da sua inferioridade não foi nunca suficientemente apontado. No entanto, trata-se de um aspecto essencial da sua nocividade. Aposto que Victor Cunha Rego estaria de acordo comigo.

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