Há quem, nos seus escritos jornalísticos, consiga, a partir da realidade mais imediata, pensar algo que, inscrito nela, vai no entanto além dela. Regra geral, isso permite que, lidos os textos passados anos, a realidade imediata de outrora que neles é descrita continue viva, mas apareça como exemplo de uma realidade mais geral que é ainda a nossa. Tal requer, além de uma indispensável eficácia literária, a posse de uma experiência singular das coisas ou de uma visão original da realidade que, academicamente formada, saiba não ceder ao jargão que a Academia, para o bem e para o mal, tende a impor ou a tiques doutrinais autoritários. O exemplo entre nós mais notório dessas qualidades é Vasco Pulido Valente. Mas, sendo maior, não é obviamente o único.

Um outro de alguns vários exemplos que se podem dar desse particular talento de pensar, por assim dizer, em público é Victor Cunha Rego. Falo de Victor Cunha Rego (1933-2000) porque passei alguns dias a ler Na prática a teoria é outra. Escritos 1957-99, um grosso volume acabado de publicar pela D. Quixote e excelentemente organizado por Vasco Rosa e André Cunha Rego, que recolhe a totalidade da sua escrita jornalística, desde os primeiros artigos publicados em jornais de S. Paulo até aos últimos no Diário de Notícias, passando pelos de A Tarde e Semanário, jornais que fundou e dirigiu. (Vasco Rosa prepara igualmente para breve a edição de um volume de características semelhantes dedicado a José Cutileiro – um outro muito bom exemplo do que escrevi no primeiro parágrafo.)

Victor Cunha Rego teve uma vida aventurosa e a sua escrita reflecte-o, embora, a maior parte das vezes, de uma forma indirecta. E, sobretudo, tinha a tal experiência singular das coisas que permitia uma iluminação do presente fora dos cânones habituais e mais ordeiros que não iluminam nada e tendem, pelo contrário, a fazer desaparecer o que é vivo do mundo à nossa volta. Salta aos olhos igualmente, lendo o que escreveu, como o interesse pela coisa política, no sentido amplo, só fazia verdadeiramente para ele sentido se acompanhado de uma reflexão sobre o que é propriamente humano. Em páginas e páginas que se sucedem, isso é mais do que patente, e há uma angústia quase palpável que habita a sua prosa, o que não perturba em nada a leitura, antes pelo contrário, porque testemunha de uma espécie de veracidade que não é nunca intrometida. A reflexão sobre a religião, que é lícito não seguir mas é má-fé silenciar, é um bom exemplo disso. “Florescia à beira de precipícios”, escreveu dele o admirável Manuel de Lucena (de quem tenho saudades) na introdução a uma das secções do livro, frase que é retomada por José Cutileiro no Prefácio.

Queira-se ou não, lê-se sempre um livro a partir do que nos ocupa mais a cabeça no momento da leitura. Por estes dias, ando a dar por mim a pensar na corrupção, como nunca me havia acontecido. Os jornais e as televisões lembram a actualidade da questão. Organizações internacionais colocam Portugal no número de países da União Europeia onde a corrupção é insuficientemente combatida e queixam-se de que o governo português não segue os conselhos que nesta matéria lhe dão. E, como de costume, pensa-se que o que se sabe, ou se julga saber, é apenas a célebre ponta de um imenso iceberg contra o qual nos arriscamos a chocar mais uma vez, que choques já houve antes, alguns muito recentes.

Talvez por causa da minha cabeça andar ocupada com estes pensamentos, fiquei surpreendido com a quantidade de referências à corrupção que encontramos, dos primeiros aos últimos, nos artigos de Victor Cunha Rego. Corrupção no Brasil (onde na altura vivia) nos anos 50 e 60, corrupção em África, na União Soviética, na Europa de Leste, em Itália – e, é claro, em Portugal.  No futebol e na sociedade em geral, sobretudo nesta última, sendo que a corrupção no futebol, face ao grande exemplo da corrupção geral, é finalmente um caso menor.

Dado o modelo antropológico subjacente ao que Victor Cunha Regro escreve, aquele particular pessimismo a que certo cristianismo obriga e no qual Schopenhauer se revia, a corrupção, para Victor Cunha Rego aparece revestida não apenas de elementos políticos e morais mas igualmente, para utilizar a palavra que é a correcta, ontológicos. Não é difícil, elaborando um pouco, ver nela para ele o sinal de uma degradação do próprio ser. Mais certamente do que Schopenhauer, Pascal não anda longe desta maneira de entender as coisas.

Mas não foi, confesso, isso o que mais me interessou. Como não o foi a referência ao carácter intrinsecamente corruptor de um Estado-Monstro: já se sabe, e como diz Jimmy Stewart num filme de Anthony Mann: If you don’t know, I can’t tell you. O que mais me interessou foi a descoberta de duas dimensões substancialmente diversas da corrupção. Há, é claro, muitas mais, mas estas duas são, no seu contraste, particularmente elicidativas.

A primeira é a pequena corrupção generalizada nas sociedades, aquela que Victor Cunha Rego relata num dos seus escritos brasileiros. A corrupção sem a qual nada, por insignificante que seja, se consegue obter, “desde um cartão de identidade a um atestado de vacinas”. A pequena corrupção que exige constantemente que se beneficie do auxílio de um qualquer padrinho, que nos obriga, em brasileiro, a ter um pistolão.

A segunda, a mais interessante e que nos deve talvez fazer mais pensar, é aquela que se descobre num artigo de 1990, “Amigos, inimigos”, onde, de resto, a palavra “corrupção” não é mencionada, mas onde a ideia está presente da primeira à última linha. É a corrupção que se organiza em torno daqueles que precisam de “amigos” que “defendam os seus privilégios, que os ajudem perante as mutações do poder”. É uma corrupção fundada numa certa ideia de amizade, uma ideia que implica ponto central, a desigualdade entre os amigos. Não é, como Aristóteles lembrava na Ética a Nicómaco, uma verdadeira amizade, que apenas se verifica entre iguais. É uma espécie de amizade corrompida e degradada, que cria dependências e estimula uma corrupção muito mais radical e nociva do que a primeira, porque se tende a transformar numa espécie de segunda natureza da sociedade.

Portugal anda cheio de “amigos” destes. A acreditar no que se sabe da acusação a José Sócrates, Sócrates era, nesta acepção da palavra, um verdadeiro “amigo” de Ricardo Salgado. A desigualdade estava inteirinha lá, e não é preciso um grande esforço mental para perceber quem, entre o homem da Covilhã que queria fatos melhores e o banqueiro de Lisboa, era dependente de quem. Do mesmo modo, nesta história recente do Benfica, e a acreditar no que se escreve, salta aos olhos a desigualdade na amizade que levava os funcionários judiciais a violarem gravemente a lei em benefício de um funcionário do clube (e do clube), a troco de uns bilhetes num lugar mais jeitoso no Estádio da Luz. Por mim, até acredito que umas esferográficas bastavam. O importante era ser “amigo”.

Esta amizade florescente entre desiguais é o exacto oposto da verdadeira amizade política que deve ser um laço permanente das nossas sociedades. Ela exemplifica a desigualdade e perpétua-a. Ocupados como estávamos a pensar nos alegados milhões que Sócrates terá metido ao bolso, este aspecto essencial da sua inferioridade não foi nunca suficientemente apontado. No entanto, trata-se de um aspecto essencial da sua nocividade. Aposto que Victor Cunha Rego estaria de acordo comigo.