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Uma petição on-line que reuniu mais de 10 mil assinaturas numa semana pediu ao Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque, o MET, que retirasse de exibição um quadro de 1938 do artista franco-polaco Balthus, chamado “O sonho de Teresa”, por representar uma criança de forma sexualizada.

Típicos da obra de Balthus, aliás Balthasar Klossowski de Rola, falecido em 2001, são os quadros de jovens ou crianças do sexo feminino em posições eróticas e sugestivas. Mia Merrel, que iniciou a petição referida, apelou num post: “se forem parte do movimento #metoo ou alguma vez tiverem pensado acerca das implicações da arte, por favor apoiem este esforço”. E acrescentou: “Considerando o actual clima relativo ao assédio sexual e alegações que chegam diariamente a publico, ao mostrar esta obra sem dar qualquer explicação, o MET está, talvez involuntariamente, a reforçar o voyeurismo e a objectização das raparigas”.

Balthus foi um controverso, um indiscutível pedófilo. Em 2013, escreveu sobre ele o crítico de arte chileno a viver em Nova Iorque, Christian Viveros-Faune: (“Ol’ Dirty Master: The Discomforts of Balthus”). “O artista fundador do voyeurismo (a expressão é “the original upskirt artist”), Balthus, dedicou a carreira a pintar obsessivamente a sexualidade feminina pubescente. Hoje não há dúvidas, Balthus era um pedófilo. Percursor tanto do Humbert Humbert de Nabokov (com quem é constantemente comparado após a publicação de Lolita em 1955) como de Polanski, Balthus violou fisicamente uma bateria de códigos éticos e legais”.

O Museu retirou a obra, ou apôs-lhe pelo menos um aviso sobre a sua natureza ofensiva, como pedia a petição? Nada disso. Recusou-se. Assim: “A missão do MET consiste em coleccionar, estudar, conservar e apresentar obras de arte relevantes de todos os tempos e culturas, para ligar as pessoas à criatividade, ao conhecimento e às ideias. Momentos como este proporcionam uma oportunidade para a conversação, e a arte visual é um dos meios mais eficazes para a reflexão sobre o passado e o presente, encorajando uma continuada evolução da cultura existente através da discussão informada e do respeito pela expressão criativa”.

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Não é um tema fácil, reconheço. Mas julgo que o Museu fez bem. O crítico de arte, Philip Kennicott, vencedor do Prémio Pulitzer e crítico de arte e arquitectura do The Washington Post, escreveu que, a ser o quadro retirado, “perderíamos muito do imperfeito progresso feito, através de sombras e vergonha, sobre o desejo”. E até a colocação de um cartaz a alertar para os aspectos censuráveis da obra seria demais, considerou Kennicott, pois, a seguir-lhe o exemplo, “o museu teria de incluir centenas, senão milhares, de cartazes semelhantes, e não apenas em trabalhos de homens heterossexuais com um interesse erótico em crianças”.

O assunto é melindroso. Estamos de novo na fronteira fina entre o correcto e o politicamente correcto; entre o que deve ser feito e o que é; entre o moralismo puritano e o eticamente aceitável. E, sobretudo, estamos no ponto de observação que contempla e avalia as múltiplas manifestações filosóficas, morais, éticas e mesmo legais geradas por todo o conhecimento acumulado pela humanidade até ao momento presente, não resistindo a aplicar as normas sociais ou legais nele geradas ao passado, às considerações filosóficas, morais, éticas e legais vigentes à época. É uma espécie de ditadura do pensamento contemporâneo, que não apenas julga a moral de outras eras, mas sobretudo condena acções, omissões e os respectivos sujeitos (as suas obras, a sua memória), sempre que pode (sempre que a deixam).

Vivemos o tempo do fim da tolerância para com comportamentos abusivos, sejam eles a coisificação da mulher, o assédio e violência sexual, a pedofilia, violência doméstica ou qualquer outra forma de abuso. Mas este é também o tempo da libertação dos costumes, do direito de cada um viver a vida como bem entende, da livre expressão da sexualidade, finalmente solta das grilhetas dos falsos moralismos e do puritanismo hipócrita. Este é o tempo, o tempo é hoje, e o que passou, passou. Foi um percurso, foi uma lição, foi uma aprendizagem, e deles ficaram marcas, sinais da nossa comum humanidade.

Não podemos entregar-nos à tentação de “higienizar” o passado, usando um sabonete qualquer. De expurgar as obras e os pensamentos dos que, noutro tempo e sujeitos a outras normas, pensaram, escreveram, pintaram e agiram de acordo com esse tempo e normas. Se o fizermos, é uma parte de nós que expurgamos, é a riqueza que somos que desbaratamos, é a nossa própria humanidade que “higienizamos”. Afinal, o passado é a misoginia da “Flauta Mágica”, o racismo de Mark Twain, o anti-semitismo de Wagner, o machismo da maior parte dos ballets clássicos, o fascismo de Celine, a homofobia de Quevedo. A arte é o espelho da alma e assim deve permanecer; toda a forma de censura interrompe a ligação, fecunda, entre a realidade e o espírito humano.

A este propósito, escreveu o referido Philip Kennikott em 2014 que as audiências são sofisticadas e sabem ver a diferença entre o que é e o que deve ser. Mas “Não é simplesmente uma questão de ter fé nas audiências, é de ter fé na arte e na experiência que é a arte”. Ela, escreveu, “tem coisas mais importantes a fazer” do que lidar com o discurso político degradado que policia o pensamento e as suas expressões, mesmo as do passado, para as censurar e impedir; a arte, tem de “preservar a sua autonomia, preservar o perigo da experiência, preservar a História embebida no cânone, ajudando-nos a entender a nossa própria feiura, fraqueza e crueldade”.

Higienizar e corrigir o passado em nome do politicamente correcto do presente não passa de policiamento do espírito, que só pode empequenecer a capacidade humana de se regenerar e de aprender com os erros. E quem não perceba isto, não percebe nada do que se passa à sua volta. Nem, sobretudo, do que se passa dentro de si.