1. Famílias à beira de um ataque de nervos

Durante vários meses, grande parte do comentariado nacional andou a fazer chantagem com os trabalhadores da Autoeuropa. A empresa era demasiado importante para o país para se poder correr o risco de a perder. Os argumentos, essencialmente correctos, alertavam para os efeitos estruturantes (de Norte a Sul) que este investimento teve em Portugal, para a importância desta fábrica nas exportações nacionais, nos empregos indirectos gerados em empresas fornecedoras, etc.

Eram estes efeitos que tornavam a luta dos trabalhadores da Autoeuropa um acto de egoísmo. Os trabalhadores apenas estavam preocupados com o seu conforto e não queriam saber do resto do país. Para cúmulo, deviam ser bastante burros porque pareciam não ter consciência de que estavam a pôr em risco os seus postos de trabalho.

Mas o raciocínio acima descrito pode ser invertido. Se, de facto, a Autoeuropa é assim tão importante para o país, por que raio hão-de ser apenas os seus trabalhadores a arcar com os custos de um ciclo de trabalho desumano? Se todo o país beneficia com a cedência dos trabalhadores aos horários contínuos impostos pelo mercado, então o país também deve contribuir um pouco. E, na verdade, contribui. O Estado deu diversos tipos de apoio à Autoeuropa. Inclusivamente, obteve-se aprovação de Bruxelas para alguns desses apoios.

Foi assim com alguma surpresa que me apercebi do sururu que ontem (terça-feira) se estava a levantar nas redes sociais quando foi anunciado que a Segurança Social iria pagar as creches dos filhos de trabalhadores da Autoeuropa ao Sábado. Se o Estado, ou seja o contribuinte, dá directamente tantos apoios à empresa, se anda o país num clamor a exigir que a Autoeuropa labore 24 horas por dia e 6 dias por semana, é assim tão descabido que o Estado garanta que as crianças destes trabalhadores tenham onde ficar?

É particularmente irónico que este assunto tenha vindo à baila na semana em que anda tanta gente indignada com o programa Supernanny da SIC. O programa é execrável e expõe as crianças de uma forma criminosa. Mas a realidade que retrata existe. Há famílias que precisam de uma estrutura de apoio e não a têm. A serenidade necessária para educar capazmente uma criança, em especial se for uma criança difícil, não está lá. E é neste ponto entram os horários da Autoeuropa.

Que sociedade é esta? Queixamo-nos de que temos uma das taxas de fecundidade mais baixas do mundo (1,3 crianças por mulher), queixamo-nos de programas que exploram disfuncionalidades familiares, mas, ao mesmo tempo, pressionamos trabalhadores a aceitarem turnos absurdos e à obrigatoriedade de darem o Sábado à empresa. Se for necessário ainda falamos mal dos pais e das mães que não sabem educar os filhos. E há quem se indigne porque o Estado garante os equipamentos sociais necessários para apoiar quem tem de trabalhar no Sábado. Podíamos ser um pouco menos hipócritas, não?

2. A voz do dono

Penso que por mais de uma vez me referi aos deputados da nossa Assembleia da República como carneiros sem personalidade que fazem o que o dono quer. Sempre que o fiz, inevitavelmente, fui acusado de populismo, de pôr tudo o mesmo saco, etc., etc.. E, claro, tinham razão nessa acusação e eu tinha consciência de que estava a ser demasiado provocador e insultuoso. A verdade é que se vota em partidos e não em pessoas e, portanto, dar autonomia a deputados que não têm uma legitimidade própria é arriscado.

Mas, graças ao site hemiciclo.pt, ficámos a saber que de facto são mesmo uns carneiros. Não digo literalmente, porque lhes falta lã. Na semana passada, houve um projecto-lei que foi chumbado apesar de a maioria dos deputados presentes votar a favor. Como é que foi possível? É simples, considerou-se que os deputados que no momento da votação não estavam presentes votaram de acordo com as indicações da sua bancada parlamentar. Foi assim que uma proposta que teve 99 deputados a favor e 98 contra foi chumbada por 107-106. E não é caso único. Ou seja, faz parte do regimento da Assembleia da República que os nossos deputados não têm voz própria.

Insisto, não foi um erro casual. É mesmo o regimento da Assembleia, que, com a anuência de todos, considera que os deputados em falta votariam de acordo com a sua bancada. É portanto oficial: os deputados portugueses são uns carneiros e funcionam em rebanho. E, sendo assim, até faz sentido que não tenham de estar presentes para votar: evita-se a necessidade de ter cães pastores para reunir o rebanho no momento da votação.