Um dia destes, os portugueses acordam e têm um parlamento federal europeu com poder legislativo sobre todos os países da União e não percebem como ali chegaram. Depois, passarão os quarenta anos seguintes a dizer mal da vida porque a UE não quer saber deles. Quando será isto? Até 2030? 35? 40? Seja quando for, é um cenário especulativo altamente provável, tão provável como foi a troca do Escudo pelo Euro. Pode acontecer no tempo de vida dos nossos filhos ou netos. No entanto, 68,63% da população não pensa assim. Como é que pensam ou, mais fundamental, como é que sentem estes quase setenta por cento da população?

O voto é o exercício cívico mínimo, o primeiro degrau da participação na vida social e política, não custa nada, demora menos tempo do que pedir um café, bebê-lo e pagá-lo, e também pode ser realizado a caminho da praia, com a vantagem de que o voto é gratuito. E, no entanto, em Portugal parece custar horrores a uma maioria extremamente significativa. Não é um problema exclusivamente português, na média da UE a participação foi de 50,93% o que é pouco. Mas a tendência geral foi de um aumento da participação. França, Roménia, Áustria, Alemanha, até no Reino Unido que está de saída, em todos a afluência aumentou. Em Espanha a participação subiu de 43,81% em 2014 para 64,3% em 2019.

Algumas das frases da campanha das europeias foram “Vão votar”, apelo feito por todas as forças políticas, e “Estas são as eleições europeias mais importantes de sempre”. Estas frases traduzem um sentimento na Europa de que a abstenção parece estar informalmente inscrita juntamente com as ditas maiores ameaças à UE, e que são: o crescimento do populismo e da extrema direita radical, o terrorismo e a crise financeira. De facto, tirando a ameaça terrorista, o voto é a influência mais direta que a população tem para a resolução das outras ameaças, e é por isso que de certo modo a abstenção pode ser vista como ameaça ao projeto europeu. Se se quiser mudar radicalmente a forma de organização da EU é preciso votar. Mas não só, se se pretender resolver qualquer questão doméstica (isto é, nacional) é preciso ter uma representação forte no parlamento europeu. Vota-se para o parlamento europeu no sentido de ter uma representação com peso, porque a UE já tem hoje um poder objetivo na determinação da política orçamental de cada país (entre outras áreas). A geração dos nossos filhos e netos deverá formar-se no quadro de uma perspetiva europeia tanto no que diz respeito à formação científica como no mercado de trabalho, se quiserem ter alguma vantagem competitiva. Em parte, é uma razão para que uma campanha para as europeias deslize em conteúdos domésticos. Porquê, então, uma negligência e indiferença tão expressivas face a esta realidade?

Algumas frases, que se ouvem são “Eles estão lá longe” e “O que é que adianta?”, parecem os ecos lúgubres que acompanharam o crescimento e formação dos que nasceram entre a década de 70 e o final do séc. XX, e que eram frases batidas do género “Eles são todos iguais”, “Não vale a pena votar”, como um coro numa tragédia grega mas repetido na tonalidade triste de um canto gregoriano, isto é, sem a ironia vivaz dos clássicos. Será esta mentalidade que é preciso mudar? Como? Dizem que a mensagem dos partidos não passa. Mas podemos considerar que os partidos têm uma capacidade limitada na educação dos eleitores, tal como os professores nos seus alunos. Cabe aos partidos apresentar as suas propostas o melhor possível, da forma mais clara. Quem andou atento, pode ver isso subentendido em cada programa, e por baixo da camada habitual de retórica e dos ataques pessoais, mas isso é apenas a esfera da realidade da vida política, com mais ou menos sofisticação. E, por outro lado, em 2019, os portugueses não puderam queixar-se da falta de alternativa. 7,9% dos votos nestas eleições foram para partidos novos ou recentes. Esta percentagem por si só daria quase para eleger dois deputados. Estes votantes souberam encontrar alternativas, porque não os outros? Culpar exclusivamente os partidos pela indiferença dos cidadãos para com uma vida cívica mínima, talvez seja pedir demasiado aos políticos. É como querer culpar professores de não ensinarem crianças que são malcomportadas na aula por causa de problemas de educação que têm origem em casa. Os professores não conseguem ser professores e ainda pais das crianças.

Se agirmos com indiferença e hostilidade (enfiar a cabeça na areia quando estão a dirigir-se a nós é uma atitude hostil) para com as instituições europeias, que espécie de atenção é que podemos esperar deles mais tarde? Pouca ou nenhuma. Eles (parlamento europeu) não estão lá longe, nós é que ainda parecemos estar a trinta por cento de uma maturidade cívica mínima.