O PS está novamente embrulhado numa série de casos de compadrio. Chamem-lhe quarta-feira – já é uma rotina. Como sempre, tudo começou na incompetência: a distribuição de material inflamável para proteger populações nos incêndios. E, como sempre, bastou investigar um pouco para tudo culminar no favorecimento político: a empresa que tratou da aquisição está ligada a dirigentes do PS, não é sequer da área, foi paga acima do preço de mercado e ganhou o negócio numa consulta pública que envolveu outras empresas que não eram da área (e algumas até afirmam não terem sido realmente consultadas). Não é só este negócio tresandar. É sobretudo o facto de se ter novamente destapado o véu sobre a rede tentacular dos socialistas, que consistentemente facilitam o acesso de conhecidos e familiares aos rentáveis negócios com o Estado. E com o habitual encobrimento partidário, tendo o PS afirmado que, afinal, a lei não pode ser lida literalmente – deverá, pelos vistos, ser aplicada à medida das interpretações aprovadas no Largo do Rato. Costuma-se dizer que as pessoas não mudam e que o mesmo vale para as organizações. Por isso, abandone as ilusões quem as tiver: o PS é isto e não mudará.

Simbolicamente, tudo isto acontece quando o PS se demarca severamente de Ana Gomes, uma das personalidades políticas que mais se tem batido contra a corrupção e os poderes instalados. A propósito de uma suspeita levantada pela ex-eurodeputada sobre negócios no futebol, Carlos César (presidente do PS) fez questão de não só desvincular o partido dessas suspeitas, como sublinhar que Ana Gomes ascendeu a persona non grata nas hostes socialistas – diz César que Ana Gomes “insulta quem não lhe faz a corte”. Ana Gomes explicou que não é “apparatchik” e que não abdica de pensar pela própria cabeça. A relação da ex-eurodeputada com o seu partido atingiu um pico de tensão.

Esta tensão tem significado político. Ana Gomes não foi apenas uma reconhecida eurodeputada socialista durante 15 anos. Ela é uma voz independente que, quando considera assim justificar-se, critica o seu próprio partido. Por exemplo, neste episódio das golas inflamáveis, fê-lo considerando que o caso não tinha defesa possível. Ou, por exemplo, na polémica da duplicação de subsídios de deslocação dos deputados, quando avaliou a situação como “imoral” e acusou Carlos César de apresentar um esclarecimento que “não esclareceu nada”. Ou ainda quando, a propósito do familygate socialista, concluiu que existe “uma matriz de pensar” no PS que limita a ética ao que está na lei, assinalando que o PS não entende que “a ética está para lá do que está na lei”. Mais importante, Ana Gomes foi uma voz isolada no assinalar que o PS tinha de fazer autocrítica e reflexão sobre como se deixou instrumentalizar por Sócrates (e por outros) enquanto veículo de corrupção. Feroz defensora da transparência, crítica da submissão de Portugal a Angola por via de negócios de Estado, atenta às intromissões da política na justiça, movida pelas suas convicções e pelas causas que escolheu – Ana Gomes é uma espécie de “boa socialista”, que não trocou a fidelidade à matriz social e republicana que a define ideologicamente pela lealdade partidária. Ora, isso também implica reunir características mais do que suficientes para se tornar incómoda num PS onde Sócrates reinou e que é agora chefiado por Carlos César.

É certo que Ana Gomes não é consensual – quem defende ideias políticas nunca o é. Mas não se confundam os planos. Não é necessário concordar com as suas várias batalhas para reconhecer os seus méritos, a sua coragem e a sua independência – e, pessoalmente, são muitas as vezes em que discordo do conteúdo, da abordagem ou do estilo das suas intervenções. Só que reconheço-lhe o resto. O que Ana Gomes tem é o que cada vez faz mais falta na classe política: um compromisso inabalável com a verdade e com a cultura democrática – doa a quem doer. Em tempos como estes, em que os alicerces das repúblicas liberais estão sucessivamente a ser sacudidos, isso é quase tudo. E é por tudo isto lamentável, mas expectável, que o PS não perca uma oportunidade para se desvincular dela e, forçosamente, do que ela representa. Esse afastamento diz muito mais sobre o PS do que sobre Ana Gomes: mostra como a ética republicana é incompatível com o actual aparelho socialista.