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Toda a gente fala de assédio, hoje em dia: sexual, laboral, etc. Infelizmente, ninguém refere a forma mais comum e praticamente omnipresente: o assédio político-moral que a comunicação social pratica quotidianamente em nome da esquerda. Em relação à imprensa escrita, o cidadão comum tem mais meios de se proteger. Quanto à televisão, estamos praticamente indefesos. A propósito ou a despropósito (tornaram-se praticamente indistinguíveis), lá vem mais uma sobre “o Trump” ou sobre quem estiver mais na moda como encarnação do mal e lá somos pela enésima vez assediados pelo missionário de serviço. O que não deixa de ter resultados curiosos. Durante muito tempo, é verdade, irrita. A partir de certa altura, no entanto, faz mergulhar numa espécie de tédio difuso, num estado de triste torpor melancólico. Em excesso, o assédio gera a acédia.

Nestes casos, urge reagir e pôr a cabeça fora da caverna sobrelotada, esquecer por um bocado os encontrões dos humanos e dedicarmo-nos um pouco à contemplação. Não é por acaso que nesse livro único que é a Ética a Nicómaco, Aristóteles, que procede a um extenso e profundo elogio da vida política (a ética encontra-se dependente da política, ciência arquitectónica), acaba por reconhecer a superioridade da contemplação (teórica) sobre a acção (prática). No caso do filósofo, os breves estados máximos de contemplação (não podem nunca durar muito, porque a fadiga o impede) quase o assemelham a um Deus. Pessoalmente, não viso tão alto. É melhor evitar desilusões. Mas o aumento da atenção já é um bem. Como nos quadros do maravilhoso pintor alemão Carl Spitzweg (1808-1885), em que os personagens repetidamente concentram a sua atenção num livro ou fixam o olhar num objecto (um cacto, por exemplo). Faz bem pôr a cabeça de fora da caverna. E ouvir música, que é o que mais realiza em si a contemplação e exige precisamente uma atenção de que normalmente não dispomos. Tudo o que faça esquecer os ruídos da caverna, mesmo aqueles, bem intencionados, uma espécie de muzak, organizados pela enérgica empresa Afectos & Eventos, sediada em Belém.

Mas somos feitos de tal maneira que não resistimos por muito ao apelo da caverna e da mosca-jornal, como dizia O’Neill. E com o zumbido da mosca-jornal vêm o assédio e a acédia. Por estes dias, dois dos fundamentais pilares parlamentares do nosso governo, o PC e o Bloco, contribuiram generosamente, cada um ao seu modo, para a nossa melancolia. O caso do PC foi o mais significativo. Não me esqueço nunca da natureza totalitária da ideologia do PC nem das malfeitorias comunistas passadas. Mas há coisas que exigem uma espécie de memória sensível para serem convenientemente lembradas e às vezes os estímulos não chegam convenientemente até nós.

Desta vez chegaram. Ver os comunistas, em bloco, defenderem o tintinesco ditador Maduro, com a mais acabada língua de pau e a mais absoluta indiferença pelo sofrimento dos venezuelanos, gela a espinha. De repente, voltam na memória os tempos da defunta URSS e a cegueira militante face ao horror totalitário. O espectáculo, o espectáculo do absoluto fechamento das mentes a qualquer informação exterior, confina com o espectáculo da loucura, sem se identificar inteiramente com ele. Apesar de tudo, o “partido das paredes de vidro” não pode ser inteiramente constituído por alienados mentais. Mas há indubitavelmente um elemento de loucura na coisa. Uma loucura teórica, por assim dizer, com efeitos práticos. O desprezo absoluto pelo sofrimento humano que aquela gente exibe em nome do feliz futuro da humanidade é próprio de uma associação de criminosos.

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O Bloco é sem dúvida mais pacato. As suas transgressões possuem uma natureza quase adolescente, evidente até no seu carácter verbal: “bosta da bófia” e coisas assim. Em cada bloquista há um lado Renato Alexandre (o personagem do programa do grande Bruno Aleixo). Um lado retardado, que traz consigo uma imensa irresponsabilidade. Não pretendo de forma alguma que tudo isso seja inocente e puramente espontâneo. Em gente adulta seria impossível. Há cálculo na coisa, sem dúvida, e há método. O Bloco não teria nunca chegado onde chegou sem cálculo e sem método. Mas tal como no PC a imunidade face ao sofrimento humano confina com a loucura, também no Bloco a sucessiva adopção de causas destinadas a assegurarem-lhe um palco mediático sempre renovável (desta vez a luta contra um racismo supostamente omnipresente na sociedade portuguesa) possui algo de regressivo em gente adulta.

O PC e o Bloco não seriam na verdade importantes se não fosse o PS. Porque quem, em seu são juízo, pode pensar que nada nos hábitos mentais do PC e do Bloco afecta o PS e o governo? A própria cabeça de António Costa, como o mostra a recente história da “cor da pele”, dá sérios sinais de estar infectada pelos costumes contíguos dos parceiros.

Bom, já basta de reflexões sobre a vida na caverna, sobre o assédio e a acédia. Não convém abusar da irrespirabilidade. Fora da caverna há pelo menos a música para ouvir. E seria ingratidão dizer que é pouco. Punhamos, pois, a cabeça de fora.