Anda tudo enternecido com uma carta supostamente escrita por um futebolista estrangeiro que ganha milhões. Confesso que chorei. Inspirei-me.

“O que fizeste na segunda-feira? Fui trabalhar
O que fizeste na terça-feira? Fui trabalhar
O que fizeste na quarta-feira? Fui trabalhar
O que fizeste na quinta-feira? Fui trabalhar
O que fizeste na sexta-feira? Fui trabalhar
Fazemos algo no fim de semana? Não posso, estou de urgência no sábado e no domingo preciso de dormir para segunda-feira ir trabalhar.

O trabalho acaba, paramos e olhamos a enfermaria com camas sujas, doentes queixosos, mau cheiro, o lugar onde trabalhamos. Essa sujidade e esse soalho onde já caímos e raspamos os joelhos, as costas, os cotovelos, as mãos… Esse soalho escorregadio de imundície e sangue e esse cheiro, mistura de desinfetante, urina e vómito, que nos fica nas narinas e nos incomoda durante o trabalho. As infeções que transportamos e faz com que sujemos a casa toda e com que a nossa companheira nos diga ‘tira essa roupa e vai já direto para o banho’, porque no hospital não havia chuveiro e quando há não há sabão.

O que nos dá força a cada dia para arrancar para o trabalho? Todos te dizem que ao domingo gostam de dormir. ‘É melhor o futebol’, dizem os teus amigos. ‘Dás uns chutos e ganharás milhões’. ‘Nunca estamos juntos’, dizia a tua namorada e agora queixam-se a tua mulher e os teus filhos. ‘Pensa em estudar e trabalhar’, dizem os teus familiares. Pensas por dentro e sorris. Estudas, estudaste toda a vida, memorizaste milhares de páginas e continuas a estudar, porque se ao futebolista podem perdoar um penalti falhado, a ti não te perdoarão uma vida.

Que sabem eles sobre o que a medicina significa para ti… Que sabem eles da tensão e dos nervos que não te deixam dormir em dia algum? Que sabem eles das urgências, das noites sem dormir, que já passaste lesionado ou doente? Que sabem eles do que sentes quando salvas alguém e os teus doentes te abraçam desesperadamente? Que sabem eles das vezes em que foste atrás do autocarro ou dos cinco quarteirões que correste para não chegar tarde às aulas? Que sabem eles do quão profundo é o momento em que o diretor te chama? Será que desta vez é para, finalmente, te elogiar? Que sabem eles de como é estar a morrer de calor em agosto, a fazer urgências, umas atrás das outras, dos natais e das passagens de anos, dos aniversários, quando todos os teus amigos estão de férias a divertir-se, alguns a usufruírem de muito mais do que tu alguma vez terás?

Que sabem eles de reunir-se TODOS os dias com as pessoas que marcam a tua vida: os teus amigos, os COLEGAS dos risos e das lágrimas? Que sabem das vezes que trabalhaste à chuva, com o teto a vazar água, com humidade e frio? Sangue, urina, fezes, suor e vómito, tantas vezes sozinho, pessoas que esperam tudo de ti do outro lado, uma bata, uma caneta, um bisturi, uma pinça e um computador que não funciona.

Esta é a nossa vida. De que sabem eles? Que sabem eles, políticos, desportistas e cidadãos, do que é passar uma vida inteira de sacrifício, poderia até a ser a dignamente recolher o lixo que todos fazemos e a receber um ordenado miserável, enquanto há trafulhas que não pagam o que devem, há gatunos a mandarem, gente impune que lava dinheiro de forma descarada e futebolistas a ganharem milhões?

Muita gente diz que a medicina não tem nada a ver com a vida… Não sei o quanto sabem da vida, mas de medicina… não sabem nada!”

Com as devidas adaptações poderia ter sido por um qualquer trabalhador em Portugal ou no mundo inteiro. Por qualquer profissional! Escrito por um futebolista, certamente cheio de mérito, teria sido lida por milhões de internautas e sabichões.