Rádio Observador

Universidades

A contrainformação e o ensino superior privado

Autor
  • José Manuel Silva

Agarrados à ideia de que funções do Estado são serviços prestados por este, atiram-se aos privados na educação, saúde e serviços sociais, onde quer que o domínio do funcionalismo fixe votos e maiorias

Nos últimos dias o país foi amplamente informado de que várias instituições de ensino superior privado tinham sido mandadas encerrar por não terem obtido acreditação pela Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior, vulgarmente conhecida por A3ES. As notícias foram sendo “libertadas” a conta-gotas ao melhor estilo das centrais de contrainformação e com um objetivo claro: aumentar os estragos.

De onde partiu a informação? Porquê agora em pleno período de candidaturas ao ensino superior se os factos que estão na base dos encerramentos são públicos há muito tempo? Quanto à primeira, é ocioso fazer perguntas, são conhecidas as sedes de poder onde estas decisões são tomadas e há sempre a possibilidade de serem responsáveis que tomam as suas convicções por imperativos de Estado ou apparatchiks a quererem mostrar trabalho. Quanto à segunda, é óbvio o objetivo, desacreditar o setor, afetar a sua imagem e prejudicar o fluxo de candidaturas nesta fase crucial de captação de estudantes.

Não está em causa a legitimidade dos órgãos que tomam estas decisões e se algo as instituições afetadas têm a contestar, existem meios legais, não é este o problema, também a divulgação mediática decorre do exercício livre de uma informação plural que obedece a critérios editoriais que só aos jornalistas compete aferir. Também não é por aqui que queremos ir.

O ponto é outro, com o advento da chamada “geringonça” a campanha contra o ensino privado em geral aprofundou-se à medida que se foi robustecendo a ideologia estatista e a ideia de que o Estado é o tesouro salvífico dos pobres a que tudo tem de se subordinar, que tudo tem de providenciar e que todos temos de reverenciar.

Passados mais de quarenta anos de democracia e num mundo em profundíssima mudança, a Constituição e a leitura que dela fazem algumas forças políticas e sociais é a mais retrógrada e improdutiva como se as teses do PREC (Processo Revolucionário Em Curso, para quem não se lembre ou nunca tenha sabido) continuassem a ser o farol que ilumina o futuro.

Agarrados à ideia de que as funções do Estado se confundem com os serviços prestados por este, acirram-se contra os privados, na educação, na saúde, nos serviços sociais, enfim, em todos os setores onde o domínio do funcionalismo público fixa votos, interesses e maiorias.

Existe alguma racionalidade na defesa da exclusividade do Estado nestes setores ou para excluir os privados destas atividades? Existe alguma legitimidade para altos responsáveis de serviços públicos a quem se exige imparcialidade no juízo e discrição na decisão emitirem opiniões pessoais ideologicamente alinhadas com os opositores da iniciativa educativa privada confundindo liberdade pessoal com deveres funcionais e com evidente prejuízo para instituições escolares que cumprem todos os requisitos e são um parceiro social e cultural de enorme importância? Existe alguma razoabilidade no ataque planeado, coordenado, meticulosamente realizado a que se tem assistido nos últimos anos relativamente a todo o ensino privado?

A única justificação é a cegueira ideológica, a militância no combate estatista contra a liberdade, a livre iniciativa, a capacidade de escolha, perante a indiferença cúmplice dos que se amedrontam e calam, receosos de serem acusados de liberais, de vendidos ao capital ou de inimigos do Povo, como nos velhos tempos.

A liberdade de ensinar e de aprender é um dos pilares das sociedades democráticas, ao Estado incumbe garantir que todos têm acesso à educação e condições idênticas de sucesso, mas deve deixar-se à liberdade de organização dos cidadãos a possibilidade de criação e gestão de escolas de todos os níveis, salvaguardando as condições exigíveis do ponto de vista técnico e científico.

As escolas privadas em Portugal, tal como as estatais, têm um quadro definido de obrigações a que se não podem furtar para serem acreditadas e poderem funcionar, mas tão importante como isto é serem reconhecidas pelos seus clientes como escolas de qualidade, onde encontram as melhores condições de estudo e crescimento pessoal.

Todos os que operam no privado são os primeiros interessados em que o sistema seja credível e apelativo para que a captação de estudantes seja o mais ampla possível e quando alguma instituição não cumpre ou é encerrada só há razões para considerar que, se o problema é falta de qualidade, se está no bom caminho.

Infelizmente o que devia ser um ato de cidadania académica acaba por se transformar num labéu que se espalha como uma bactéria multirresistente com consequências nefastas para todo o setor, tendo como agentes os profissionais da contrainformação ao serviço de ideologias estatistas, inspirados nos manuais de agitprop cuja atualidade e eficácia são evidentes.

Nas atuais circunstâncias da sociedade portuguesa e do momento político presente, a linha de corte ideológica é o papel e o poder do Estado, ou se endeusa ou se reduz às suas funções fundamentais, ou se valoriza a sociedade civil e a iniciativa privada ou se amordaça a sociedade e se transforma o país numa imensa repartição pública. A escolha compete a cada um de nós.

Membro da direção da Associação do Ensino Superior Privado (APESP)

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Cooperação económica

De braço dado com Angola

José Manuel Silva

O momento político angolano é propício à criação de laços baseados na reciprocidade e na igualdade de tratamento, sem complexos de nenhuma espécie. A história foi o que foi, o presente está em curso.

Educação

Ensino privado, de supletivo a parceiro

José Manuel Silva
104

O Estado é necessário, mas o seu longo braço não pode sufocar o país. No ensino a liberdade de escolha é irrevogável e o ensino privado deve ser um parceiro e não um apêndice supletivo e discriminado.

Politicamente Correto

Os filhos do Vasco Granja /premium

Helena Matos
953

O reitor proibiu a carne de vaca. Os alunos se pudessem proibiam toda a carne. Em Portugal, eles são os filhos e netos do Vasco Granja. Gerações que, entre muita animação, estão a impor uma ditadura.

Universidade de Coimbra

Coimbra: Especulações sobre um bife

Ricardo Pinheiro Alves
632

Porque é que uma instituição veneranda e centenária, criada em Lisboa em 1290 pelo Rei D. Dinis, abandona o reino do saber para entrar no activismo demagógico em que a ciência dá lugar ao marketing?

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)