Rádio Observador

Maioria de Esquerda

A cor do cavalo branco de Napoleão

Autor
112

A direita fica muito contente, quando as suas propostas são aprovadas por largas maiorias, ou mesmo por unanimidade. A esquerda não procura consensos. É, aliás, o lado para onde dorme melhor.

João Marques de Almeida, que leio com atenção e prazer, escreveu aqui no Observador, que mais vale uma geringonça à esquerda que uma maioria absoluta do PS. Entendo o argumentário e consigo imaginar os problemas de uma maioria absoluta socialista, mas não consigo deixar de desejar que a extrema esquerda saia do arco da governação. Não merecem ser tratados como gente responsável. Ter no Governo do meu País radicais mais ou menos alucinados, mais ou menos ex-bombistas e mais ou menos anquilosados, é demais para a minha saúde. A mim dá-me a vontade de, se o Bloco apresentasse uma proposta a determinar que a cor do cavalo branco de Napoleão é branca, votar contra.

Passo a explicar porquê;

Quando se conversa com Deputados, sejam eles da Nação ou Municipais, vem sempre aquela frase batida que nada se faz sem compromisso e cedência. Está bem abelha. Isso é o que eles vendem e que as forças democráticas compram ingenuamente. Além disso, acrescentam que o trabalhar em conjunto, leva à criação de relações de amizade (provocando no povo aquela reacção do “eles são todos amigos”) e que tal impele a um atenuar das diferenças, da crispação.

A continuar assim, qualquer dia vamos assistir aos Deputados, de mão dada, a fumar um charro e a cantar o Kumbaya.

Parto do princípio que, quem defende este tipo de colaboração, desconhece o aforismo de “trabalho é trabalho, conhaque é conhaque”. Ou seja, uma coisa é sermos amigos de alguém e não levarmos em linha de conta a sua cor partidária. Outra coisa é permitir que os nossos amigos funcionem como diluente das nossas convicções. A direita tem sido a substância que tem permitido a dispersão de outra substância no seu meio.  É que é muito diferente ouvir as pessoas e tentar perceber os seus anseios e frustrações – levando isso em linha de conta na nossa acção política – de aceitar ou tentar compreender quem, enganando as pessoas, cria anseios e frustrações onde não existem. É que não é difícil perceber que estas esquerdas, que se esfregam sem pudor, tentam destruir três grandes pilares da nossa sociedade: família, tradição e liberdade económica.

Há duas pessoas — em 10 milhões — que se sentem ofendidos com a descoberta do caminho marítimo para a Índia? Ok, apague-se o feito dos livros de história. Há quem entenda que, para ele, a família é ele e um gambá? Ok, legalize-se a coisa. Há um hospital que funciona bem e é privado? Acabe-se com ele depressa, antes que se espalhe a notícia.

Prosaicamente: temos sido uns valentes totós. Acreditamos na boa fé. Acreditamos quando nos dizem que temos de trabalhar em conjunto. Acreditamos, piamente, que o que interessa é o resultado final, e desejamos que esse mesmo resultado beneficie o maior número possível de concidadãos. O problema é que não é assim que a esquerda funciona. Enquanto a direita canta Hossanas, quando consegue uma pequena vitória – quase que de Pirro – acreditando que o Céu ficou mais perto, a esquerda vê cada uma dessas suas supostas derrotas, como movimentos no tabuleiro, bem coordenados e com um fim bem delineado. A direita fica muito contente, quando as suas propostas são aprovadas por largas maiorias, ou mesmo por unanimidade. A esquerda não procura consensos. É, aliás, o lado para onde dorme melhor.

Será que a direita ainda não se deu conta que é ela quem tem vindo a perder terreno e eles – esquerda radical + alucinados – a ganhá-lo?

Também do ponto de vista táctico penso que, empurrando para o oblívio a esquerda radical e os alucinados, o PS será obrigado a tentar ir buscar esses votos, deixando espaço para os partidos à direita do PS.

Para mim é simples: enquanto aceitarmos de braços abertos as – falsas – boas intenções dos radicais, mais forte será o amplexo de urso que nos dão.

À semelhança de Marques de Almeida, deixo aqui as minhas sugestões:

  1. Se querem a tralha socrática e a família César, votem PS
  2. Se querem gente que defende o assassino da Coreia do Norte, votem CDU
  3. Se querem quem entende que um símio tem mais humanidade que um ser humano (mesmo que em coma) votem PAN
  4. Se querem que os vossos filhos sejam educados num universo paralelo, votem no Bloco

Depois não se queixem.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Crónica

Por cá, na Quinta…

Pedro Barros Ferreira
200

Estes prodígios das finanças criticam tudo e todos, direita e esquerda. Nada lhes serve. O que interessa é o que Estado volte a abrir os cordões à bolsa (e nisso os socialistas são bons, sem dúvida).

Política

The winter is coming

Pedro Barros Ferreira
209

Para travar esta frente fria, é necessário que alguém – por favor alguém! – saia do armário e afirme sem medo que quanto maior for a presença do Estado nas relações humanas maior é a corrupção.

Maioria de Esquerda

O Estado da Esquerda

Nuno Carvalho
501

O que o PS fez foi usar meios e dinheiro do Estado para assegurar que o modelo da geringonça se aguentava até ao fim, ignorando as prioridades de um Estado responsável e que funcionasse para todos.

António Costa

O favor que Costa fez à direita /premium

Sebastião Bugalho

Nestes quatro anos, Costa normalizou tudo aquilo que a direita se esforçou por conquistar, o que levanta uma questão simples: o que poderá dizer o PS contra um futuro governo do centro-direita?

Combustível

O mundo ao contrário /premium

João Pires da Cruz

Se o seu depósito é mais importante do que aquilo que os pais deste bebé sentiram quando lhes disseram que o filho deles morreu instantes depois do nascimento, é porque tem o mundo ao contrário.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)