Começo por um vaticínio: ao contrário do que se vem dizendo, a Covid-19 será o waterloo dos populistas do ocidente. Explico de seguida o porquê. Desde o pós-guerra que o ocidente – leia-se Europa e América do Norte – vive numa espécie de oásis no planeta. Europeus e norte-americanos, mal ou bem, com mais ou menos interregnos, têm visto a sua qualidade de vida melhorar consideravelmente década após década, ano após ano.

Nós, europeus, somos os grandes privilegiados do mundo que emergiu dos escombros da II Guerra, pois se é verdade que o fim do conflito confirmou o poderio norte-americano como única potência global, não mais as guerras ousaram tocar o território europeu, com excepção do desmembramento da Jugoslávia e da recente anexação da Crimeia por Putin.

Entre 1945 e 2020 os conflitos armados foram travados longe das fronteiras europeias, quase sempre com o esforço de guerra norte-americano conjugado com apoio limitado dos aliados. Não ignoro o impacto social da crise de 2008, mas convenhamos que num planeta que engloba o continente africano, o asiático e o sul-americano, os dramas europeus não passam de pequenos caprichos, que não se assemelham em nada ao que o resto dos habitantes mundiais enfrentam diariamente: ausência de cuidados básicos de saúde, dificuldade de acesso a bens essenciais, sistemas educativos inoperantes, escassez de cultura democrática, incumprimento dos princípios mais básicos do Estado de direito, ameaças terroristas, conflitos étnicos, fome, entre outros. Não desdenho as pequenas lutas que cada um de nós enfrenta nas suas vidas, pois que, mais do que europeus, somos humanos e interpretamos os nossos sacrifícios como mais duros por contraponto com os sacríficos (menos penosos) dos outros, mas tenhamos noção que para a esmagadora maioria da população mundial os problemas europeus se assemelham a uma estadia num hotel spa.

Sucede que, pela primeira vez em muitos anos, o processo a que se dá o nome de globalização ocorre agora em sentido inverso, desta feita de oriente para ocidente, representado simbolicamente pela exportação massiva de máscaras chinesas para os cidadãos europeus, obrigados a imitar o que os asiáticos já têm como hábito há largos anos, seja pela poluição, seja por razões de saúde.

Mas como poderia ser de outro modo se o mundo se encurta cada vez mais? Como era possível coexistirem dois modos de vida tão distintos entre si e ao mesmo tempo tão próximos, sem que algum dia viessem a chocar de frente? Como seria possível, por exemplo, continuar a suster os fluxos migratórios de uma das regiões mais pobres do mundo para a região mais rica do mundo?

Amolecidos e deslumbrados por viverem há tantos anos numa espécie de parque de diversões – quase prestes a esquecerem os traumas de Auschwitz ou a carnificina da guerra civil espanhola, com uma ausência de medo tão grande, com uma escolha de governantes que, à esquerda ou à direita, parecia “levar tudo ao mesmo” – os eleitores ocidentais demitiram-se de pensar, de reflectir, de procurar perceber as razões da dádiva que é o seu modo de vida. O nível de vida de europeus e norte-americanos parecia inexpugnável. Podíamos votar em partidos anti-Europa, anti-NATO, anti-euro, anti-tratado orçamental que, no fundo, iria dar ao mesmo, porque as circunstâncias mundiais de estabilidade assim o permitiam.

E então, entediados, os americanos escolheram Trump para fazer da América great again; os ingleses saíram da UE em busca dos tempos do império; catalães, sentindo que trabalham mais do que andaluzes, clamaram por independência; italianos seduziram-se pela Liga Norte de Salvini e pelas 5 Estrelas de Grillo; espanhóis e gregos depositaram no Podemos e Syriza a resolução da crise económica; os franceses, amedrontados com o terrorismo islâmico, inclinaram-se para Le Pen; alemães e nórdicos olharam para os europeus do sul como um fardo pesado de transportar.

Depois do sucesso do american way of life, do plano Marshall e da convergência que os fundos europeus possibilitaram, ao fim de mais de 70 anos de paz e prosperidade praticamente ininterruptas, os ocidentais sentem agora que alguém lhes puxou o tapete por baixo dos pés e acordam para os efeitos do mundo globalizado do qual foram os grandes arquitectos. A Europa, em pânico, olha-se ao espelho e descobre no que se transformou: um imenso território desindustrializado, com níveis de escolaridade altíssimos, eminentemente centrado no sector terciário, onde já não há sequer mão de obra disponível para o trabalho braçal de fabricar meras máscaras de protecção. Os europeus vêm-se finalmente confrontados com as suas escolhas e com o seu voto, que tanto desdenharam.

Não. Não é por acaso que os populistas parecem perder o pé por estes dias. O vírus, de uma assentada, expôs de forma cruel a ausência de estratégia e preparação de Trump, destapou a tolice de Boris e o equívoco do Brexit, revelou a inverosimilhança do dueto Sanchez-Iglesias e demonstrou a loucura de Bolsonaro. Por cá, Ventura também parece desafinado. Os populistas, procurando responder ao descontentamento das multidões com respostas simplistas para problemas complexos, demonstram uma completa incapacidade de lidar com os grandes dilemas do mundo contemporâneo. A sua linguagem é a da simplicidade, das fake news, da manipulação dos factos, que não funciona quando estão em causa questões difíceis que exigem análise, resiliência, estratégia e capacidade de decisão. Aqueles que até aqui reclamavam uma forma de independência dentro do seu próprio país ou mais autonomia dentro da UE, talvez tenham agora tempo para repensar as suas convicções.

Em momentos de catástrofe, quando a percepção do mundo se altera, os homens tendem a evitar aventuras e a atribuir o voto de confiança aos políticos mais razoáveis e melhor preparados. Foi assim por exemplo na II Guerra, quando os ingleses clamaram pelo regresso de Churchill, que havia dado provas de valor em 1914-18 – curiosamente, finda a batalha, o Velho Leão acabou derrotado nas urnas por Attlee. E é também por essa razão que António Costa, por estes dias, não procurou apoio na geringonça que até aqui o amparou, mas em Rui Rio que, não isento de defeitos, é um homem responsável e inspirador de confiança, muito do que precisamos nesta altura.

O tal mundo global que criamos é hoje de tal forma interligado e interdependente que expande o efeito borboleta de Edward Lorenz: o bater de asas de uma borboleta na China não origina apenas um tufão em Nova Iorque. Em boa verdade, causa um terramoto no mundo inteiro. Ficará claro para todos que, aqui chegados, é infrutífero seguir mensagens populistas, sejam elas separatistas ou isolacionistas. Estamos condenados a caminhar juntos e a seguir ideologias compatíveis com esse propósito comum.