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Ora aí está um aniversário que dá ainda menos gosto festejar do que o de um filho de 39 anos que teima em viver na garagem de casa dos pais, onde passa o dia a comer Cheetos e a jogar Fortnite. É verdade, a Covid-19 completou, ontem, um ano. A 17 de Novembro de 2019 o primeiro caso conhecido no mundo foi diagnosticado na China. Naturalmente, a festa de aniversário foi diferente do habitual. Por exemplo, não houve bolo nem velas, porque nesta fase a única preocupação é mesmo o coronavírus não nos levar a todos de vela.

Mas pelo menos em relação ao perigo de nos depararmos com futuras pandemias deste género oriundas da China estamos tranquilos. As autoridades chinesas já tomaram medidas para impedir que tal volte a suceder. Nomeadamente, prendendo uma jornalista de nome Zhang Zhan por ter informado sobre o surto em Wuhan. Acho que é uma medida que vai ao encontro de um ditado milenar que eles têm lá na China, segundo o qual, “longe da vista, longe das vias respiratórias”.

Enquanto isso, Portugal ocupa uma já bem honrosa 10ª posição entre os países europeus com mais novos casos de Covid por 100 mil habitantes. A nossa subida neste ranking tem sido, aliás, diametralmente oposta à nossa evolução no ranking do PIB per capita dos países da União Europeia. Mas também é preciso azar. É que não há ranking em que sigamos no sentido certo. Portugal é um condutor idoso que teima em seguir em contramão na auto-estrada. E, como se não bastasse, terminamos, invariavelmente, em posições que são um verdadeiro perigo para a saúde pública. Isto porque não temos qualquer chance de respeitar o mínimo distanciamento social, de tão perto que acabamos sempre das nações pior classificadas neste tipo de hierarquias.

Para se ter uma ideia da gravidade da situação em Portugal, um grupo de cidadãos chineses, prestes a embarcar no aeroporto de Lisboa, foi fotografado envergando fatos de protecção integral contra a Covid-19. Consta, até, que escassos minutos antes da fotografia ser tirada, alguém testemunhou a seguinte conversa:

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Indivíduo Chinês: Ó Shen Yang, esta cauda de pangolim escalada que trouxeste de Wuhan está uma delícia, pá.

Sujeito Chinês: Acredito, Li Huang. Agora, quem me tira o estufado de morcego tira-me tudo.

Cidadão Chinês: Shen Yang, Li Huang, acabem lá de papar que está na hora de ir para o aeroporto. Escusado será dizer que temos de vestir os nossos fatos de protecção completos, que aquilo em Portugal é um autêntico perigo em termos de propagação do coronavírus.

E no topo da lista dos concelhos portugueses com maior número de infecções por 100 mil habitantes está Paços de Ferreira, a mundialmente famosa Capital do Móvel. Que, por inerência, acaba por ser também a Capital do Bicho da Madeira, claro. Portanto, neste momento, Paços de Ferreira é a Capital do Móvel, do Bicho da Madeira e do Bicho da Covid. É muito galardão concentrado num concelho só. E ainda há quem se insurja contra o centralismo de Lisboa.

A boa notícia é que há mais uma potencial vacina contra a Covid. A juntar-se à vacina da Pfizer, temos agora a vacina da farmacêutica Moderna. A única diferença está na temperatura a que têm de ser armazenadas. Enquanto uma tem de se tomar muito fresca, a outra deve tomar-se gelada. Ou seja, isto começa a parecer um bocadinho um daqueles testes de sabor. Do tipo, isto é Coca-Cola ou será Pepsi? E é nesta altura que se impõe dizer a estas farmacêuticas: meus amigos, deixem-se de frescuras e produzam mas é as vacinas, que contra a Covid até injecções na testa.