1 Suspeito que tenho uma má notícia para vos dar: a Covid-19 veio para ficar. Este coronavírus já está tão espalhado por todo o mundo que dificilmente o erradicaremos. Mais: propaga-se com tanta facilidade que estamos condenados a ter de viver com ele, pois andará por aí, em portadores assintomáticos, não afectando muito todos os que já tiverem desenvolvido anticorpos, mas sempre pronto a alojar-se também naqueles que não têm defesas e podem adoecer gravemente e morrer.

Os primeiros SARS que identificámos eram tão mortais que foram contidos perto das suas regiões de origem (o sul da China e o Médio Oriente). Este é mais contagioso e menos mortal, uma combinação que explica a forma como se espalhou tão depressa. Só que por isso mesmo é hoje virtualmente impossível identificar todas as cadeias de contágio, circunscrevê-las e assim “matar” o vírus.

Dependemos, dizem-nos, da vacina. Só que ao mesmo tempo que a ciência parece capaz de lograr o impossível – produzir uma vacina em menos de um ano –, multiplicam-se as indicações de que a vacina não será a “bala de prata” que nos livrará da doença. A dúvida que assalta todos os espíritos é simples: quanto tempo dura a reacção imunitária provocada pela vacina? Por outras palavras: durante quantos anos, ou meses, nos protegerá a vacina?

Nós temos imensa confiança na ciência e ainda mais esperança na vacina, mas é bom termos a noção de que só há vacinas para uma dúzia de vírus que atacam o ser humano e que de todos eles só um, o da varíola, se considera hoje erradicado ao fim de 15 anos de esforços e um imenso esforço de coordenação mundial. Em contrapartida todos os anos é necessário produzir novas vacinas para novas estirpes de gripe, pois os vírus dominantes estão sempre a sofrer pequenas ou grandes mutações.

O funcionamento do nosso sistema imunitário possui provavelmente ainda tantos segredos como o funcionamento do nosso cérebro, mas sabemos alguma coisa como ele reagiu aos coranavírus com que convivemos há muitas décadas e que de vez em quando provocam também eles algumas epidemias de gripes ou, mais prosaicamente, fortes constipações. Falo de “bichos” que dão pelo nome de 229E, OC43, NL63 e HKU1. Um desses coronavírus, o OC43, é um dos suspeitos como agente da “gripe asiática”, ou “gripe russa”, de 1889, que matou um milhão de pessoas, mas hoje não causa mais do que vulgares constipações que se calhar já todos apanhámos.

O que é que tudo isto – sobretudo tudo o que não sabemos – pode implicar? Várias coisas.

Primeiro, que mesmo quando tivermos a vacina podemos não ter uma proteção completa, ou podemos ter de estar sempre a ter de repetir a vacina, o que configura um cenário muito difícil se pensarmos que as vacinas são difíceis de produzir e a cobertura terá sempre de ser à escala mundial.

Depois, que com ou sem vacina é possível que o nosso sistema imunitário acabe por se adaptar ao SARS-CoV-2 como se adaptou ao OC43, só para dar um exemplo, um vírus que se pensa ter tido origem no gado bovino e que nessa pandemia de 1889 também vitimava sobretudo pessoas idosas e frágeis. Só que isso levará sempre muito tempo – anos – a acontecer.

Em qualquer dos quadros a Covid-19 passará a ser mais uma variedade de gripe sazonal com que nos teremos de viver, podendo ocorrer aqui e ali alguns períodos críticos, sobretudo nos primeiros tempos. O que me leva ao ponto seguinte: seremos capazes de fazer esta habituação mantendo o nosso modo de vida?

2 Desde o início desta pandemia que vivemos afogados em números. Atordoados com números. Com gráficos. Com índices. Com comparações. Todos os dias há números novos, por todo o lado há quem mantenha folhas de excel actualizadas, mas a maioria já desistiu e o público em geral penso que já nem apanha sequer os algarismos. Tudo começa a perder significado. Mesmo assim deixem-me mostrar-vos um gráfico, este, que foi publicado pela revista inglesa Spectator:

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O gráfico mostra a dimensão da queda do produto do segundo trimestre deste ano. Falta a coluna para Portugal, mas eu digo o número: registámos o terceiro pior resultado, com um queda de 14,1%. Mas aqui a coluna que me interessa é a azul, a da Suécia. E pela razão que estão a imaginar – por a Suécia ter sido o país da União Europeia que arriscou uma estratégia diferente relativamente ao confinamento.

Por terem seguido outro caminho, os suecos foram crucificados na praça pública. O seu epidemiologista chefe chegou a ser ameaçado de ser levado a Tribunal Penal Internacional por os números da Suécia eram bastante piores do que os dos seus vizinhos nórdicos (mas bastante melhores do que os de países de que quase não se falou, como a Bélgica). É cedo para fazer um balanço, mas não é cedo para colocar as questões sobre as quais devemos reflectir.

A primeira é sobre o custo económico e social das medidas mais draconianas de confinamento. Face aos primeiros indicadores económicos, parece claro que a Suécia recuperará muito mais facilmente do que outros países, com menos sofrimento, menos desemprego, menos pobreza, menos desigualdade. Correu um risco, pagou um preço, vai colher eventualmente colher os frutos: ou seja, mostrou que havia um outro caminho.

A segunda é relativa aquilo que hoje chamamos o “novo normal”, que não é radicalmente diferente do que foi o “normal sueco” no pico da pandemia e que temos de saber se queremos manter se os números começarem a piorar um dia destes, como é muito provável que aconteça. Como eu disse atrás, nós vamos ter de viver com a Covid por muitos anos.

Esta é a meu ver a questão mais interessante e dilacerante dos próximos tempos, pois está instalada nas nossas sociedades uma fobia securitária que amplifica todos os medos. É um tema que me exaspera e sobre o qual só vou dizer, muito sinteticamente, três coisas.

A primeira é que não podemos pretender viver vidas completamente isentas de riscos. Para isso não saíamos à rua, não atravessávamos uma estrada, não entrávamos num avião, não dávamos um mergulho na praia. A sanitarização completa das nossas vidas arrepia-me, para não dizer que me horroriza.

A segunda é que já aprendemos o suficiente sobre a doença para sabermos quem devemos proteger prioritariamente, que os demais não correm assim tantos riscos, que quanto mais depressa se for criando imunidade melhor e que é altura de nos ocuparmos de todos os que estão a morrer, e a sofrer, com outras doenças, que são muito mais. Mais: que temos de nos ocupar dos que estão a ficar para trás (no emprego, na educação, só para citar o mais evidente) por causa do que não é normal no “novo normal”.

A terceira e porventura mais importante é que sempre que exigimos mais segurança estamos a ceder um mais de liberdade. Sempre foi assim ao longo da história da humanidade e estamos numa daquelas alturas em que o medo do vírus é tal que já aceitámos o antes inimaginável e podemos voltar a aceitá-lo. Pior: como se não bastasse pedirmos para nos limitarem a liberdade de movimentos, toleramos que todos vigiem todos. Este equilíbrio entre segurança e liberdade já feriu demasiado a liberdade.

Façamos ao menos isto, porque entretanto a economia continua a soçobrar e o capitão do navio a assobiar. Nada a que não estejamos habituados.