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A individualização, como modo dominante de socialização das culturas contemporâneas, é própria de sociedades ambíguas, de controlo e cujo principal resultado pode ser descrito como o sujeito individual, autónomo, reflexivo, autoconsciente e autossuficiente, com um crescente número de direitos.

O conceito de indivíduo tem, hoje, a função de exprimir que cada pessoa no mundo é, ou deveria ser, um ser autónomo, que se rege a si próprio e que deve distinguir-se dos outros. Efetivamente, no uso deste conceito, o facto e o postulado interpenetram-se ligeiramente. O nosso sentido daquilo que é valorizável é constantemente justificado com referência à ideia de self. A tradição protestante da autodeterminação fundiu-se com a psicanálise terapêutica para definir, não apenas a saúde mental, mas também os objetivos da educação, da arte e as relações humanas em geral, em termos da integridade, coerência e autonomia do self. Este individualismo terapêutico cria uma moralidade da autorrealização.

E é nesta era da individualização, na era do looking out for the number one, que assistimos a uma crise identitária e de autoestima sem precedentes.

Os nossos jovens – os millenials e a designada geração Z – estão cada vez mais individualizados. Cada vez mais pragmáticos. Cada vez mais focados em si próprios – no seu sucesso, no seu corpo, na sua autorrealização, nos seus crescentes direitos, no Eu, no Eu, no Eu. Mas cada vez mais ansiosos. Cada vez mais frágeis. Ticklish. Individualizados e desindividuados. Nacísicos. Mimados.

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Vivemos a Era da hipervalorização do Eu e da hiperexposição. Os nossos jovens, nos seus perfis nas redes sociais, sofrem do “síndrome de vedetismo”, agindo como se fossem estrelas ou grandes vedetas da vida pública. Os outros, é suposto que se interessem pelo corpo deles, pela cara, pela maquilhagem, pelo que fazem, vestem, comem, pelos seus “estados de alma”.

Os nossos jovens não querem saber do futuro a longo prazo. A resiliência e o “espírito de sacrifício” são totalizados pela luta desenfreada pelo corpo perfeito (irreal) veiculado pelas redes sociais. De resto, o que importa (o que importa mais!) é a obtenção de reforço positivo num curtíssimo prazo – o prazo entre postar uma foto e os likes dos seguidores.

Não têm a mínima tolerância à frustração. Deprimem e irritam-se por tudo.

Poder-me-ão dizer que todos os jovens (em especial os adolescentes), sempre foram, em todas as gerações, desindividuados e influenciados pelos desindividuantes valorizados em cada época. Certíssimo. Mas aqui é diferente. A vaidade atingiu o seu expoente máximo. É a geração do vazio. Do profundo vazio. Pseudopreenchido por um síndrome de vedetismo e por um voyeurismo patológico das supostas vidas das outras “celebridades” que vivem do faz-de-conta ou das vidas e dos corpos dos outros-iguais-rivais que estão também na corrida pela venda da imagem corporal.

Estamos na era do narcisismo destrutivo. Hoje, mais do que nunca, assistimos a uma proliferação de perturbações alimentares, depressivas, de ansiedade e a taxas de suicídio assustadoras nos nossos jovens que estão insatisfeitos com a vida, com o corpo e com o self. Com este self tomado pelo corpo constituído como imagem corporal para ser vista, interpretada, lida ou consumida pelos outros. “Consumam a minha imagem. Eu sou isto”.

Os nossos jovens tornam-se adultos aparentemente “convencidos” quando, na verdade, a sua autoestima é hiperfrágil porque totalmente dependente dos critérios externos de poder e superioridade.

O que se passa, então? Onde é que se deu a perversão dos silogismos? Se o que importa, apenas, é cada um – chegar ao topo, ser o número um, ser o melhor, amarmo-nos, primeiro, a nós próprios, cuidarmos de nós, olharmos para nós e por nós, porque é que o tal indivíduo está cada vez mais infeliz e ansioso?

A verdade é que, como sempre, o narciso é vítima dele próprio. Sempre.

A pergunta impõe-se: como é que aprendemos a gostar de nós próprios, então?

A maior verdade é que nós não nos amamos se não fomos amados.

O nosso primeiro espelho são os nossos pais, quando somos crianças. Se esse espelho mostra frustração, ausência, desamor, então, a criança vai sentir – porque vai ver – que não tem valor, que não é suficiente, que não é passível de ser amada. E esta falha narcísica vai acompanhar o indivíduo pela vida fora. Mas esta falha narcísica – dito de outro modo, esta baixa autoestima – pode ser sanada no futuro, numa relação de Amor. Como explica Coimbra de Matos – pai da psicanálise em Portugal – a maior reserva de autoestima forma-se na infância, pelo Amor que os pais dedicam aos filhos. Se esta reserva não foi constituída, o indivíduo terá a necessidade constante de ser amado e aprovado, e só um forte Amor posterior poderá curar esta carência.

Todas as crianças merecem uma infância feliz. É de toda a fundação de uma sociedade que estamos a falar.

E, de facto, a sociedade em que se tem vindo a transformar o futuro das crianças infelizes está à vista. A sociedade está psicopatizante. É a sociedade dos adultos mimados que não tiveram Amor.

A individualização máxima que se pretende do indivíduo só terá um fim: o de se destruir a si próprio. Como o narciso.

É urgente refundar a sociedade no Amor. No altruísmo. Na verdade.