Sábado, 1 de junho de 2030. O avô Manuel acorda, ansioso, para ir buscar o neto Santiago, que nascera em 2017, para passarem juntos o Dia Mundial da Criança.

O smartwatch toca às 8h00 e de imediato sincroniza com a televisão, que lhe pergunta se pode informar sobre os seus biomarcadores de saúde. O avô Manuel está pronto para saber como está de tensão arterial, glicose, ácido úrico, PSA, etc…

Santiago, agora com 13 anos, todos os anos passa este dia com o avô Manuel e, sendo sábado, tinham combinado que o o avô o levaria à eliminatória do jogo online Horex e depois almoçariam num restaurante especialista em proteínas animais em que o percevejo Alcaeorrhynchus grandis é a especialidade. O avô já se habituara a esta comida que o neto gostava de comer depois dos jogos, mas assim que chegava a casa comia uma bela sanduíche de presunto e ovo para matar a fome. Após o almoço, o programa seria uma ida à Mediateca, antigo silo-auto no Porto, onde podem ler os livros que quiserem, ver filmes e ouvir as suas playlists de músicas. Já tinham bilhetes para ver um filme em 5D, do qual o avô Manuel saía sempre agoniado por causa dos enganos que o seu cérebro sofria.

Assim que entrou no seu Lykan autónomo que o iria levar a casa do neto, as notícias do dia apareceram no monitor e a mais importante foi: “Faz hoje dez anos, vivíamos a crise do coronavírus”.

Este título mexeu com o avô Manuel, que começou a lembrar-se dos vários episódios vividos durante a pandemia originada pelo vírus, então desconhecido, mas que agora, com a vacina – que se toma de dez em dez anos – já ninguém se lembrava. Ora aqui estava um bom tema para falar com o neto durante o almoço.

Após a eliminatória do Horex, dirigiram-se para o restaurante e a mesa onde almoçaram incorporava um LCD em que a notícia do Coronavírus voltou a aparecer e a conversa fluiu sobre o tema.

– Santiago, faz hoje dez anos, vivemos a maior crise da História deste século devido à pandemia do Coronavírus.

– Avô, esse período faz parte do meu programa de História. Podes recuar dez anos na tua memória e falar sobre o que viveste em 2020? Foi muito difícil? Passaram fome? Morreu muita gente? Ficaste sem emprego?

– Ainda hoje me custa falar sobre esse período das nossas vidas. Foi um ano muito difícil. tudo começou na China e rapidamente alastrou para todo o mundo. De um momento para o outro, o Governo mandou fechar as empresas, as escolas e as universidades e as pessoas ficaram confinadas em casa… e não podíamos sair do nosso concelho, pois foi declarado o estado de emergência.

– O que é isso, avô?

– É ficar em casa e só poder sair para ir às compras e à farmácia, por exemplo. Os hospitais começaram a ficar sobrelotados e os cuidados intensivos quase sem capacidade para atender os casos mais dramáticos. Havia conferências de imprensa diárias da Direção Geral da Saúde e do Governo e, muitas vezes ,com informação contraditória. Até a Organização Mundial da Saúde gerou perplexidades na sua informação. Todos os desportos foram cancelados e só passados 3 meses recomeçaram os jogos de futebol, mas sem público. Quando tu regressaste à creche, houve casos de miúdos com chapéus que pareciam hélices de helicóptero para marcar a distância e não se aproximarem dos outros meninos.

– Avô, estás a gozar comigo!?

– Não estou e vou mostrar-te uma fotografia. Proibiram que tu pudesses levar o teu coelhinho e a tua fralda e só podias brincar com alguns brinquedos da creche e nada de partilhar com os outros. Os mais velhos, até ao 9º ano, só tinham aulas através da telescola e só os que tinham exames nacionais é que podiam ir à escola. Mas era facultativo. No entanto podiam ir à praia. As praias estavam cheias, porque o tempo ajudou. Funerais, só com 5 pessoas e realizados em 10 minutos, sem possibilidade de despedida pelos familiares. Acho que morreram cerca de 1500 pessoas, ainda hoje não sei se “de coronavírus” ou ” com coronavírus”. No entanto também recordo episódios caricatos, como pessoas a encher carrinhos de compras com papel higiénico. Mais de mil presos foram libertados e o Governo tomou uma decisão muito humanitária ao atribuir a cidadania aos imigrantes que tinham os seus pedidos de residência em análise. Lembro-me que foi uma decisão comentada em muitos países europeus.

– Avô, mas o país estava preparado para essas mudanças tão radicais e tão rápidas?

– Não, meu querido, ninguém estava preparado mas sei que a Finlândia, depois da Segunda Guerra Mundial, tmbém adotou um plano de reservas em que tinha vários armazéns espalhados pelo país, secretamente, com mantimentos para três meses em caso de guerra e safaram-se bem. Até hoje, não conheço nenhum plano desses em Portugal e já lá vão dez anos.

Depois do cinema chegaram a casa, sentaram-se no sofá,  colocaram os óculos de realidade virtual e fizeram as suas compras como se estivessem no supermercado. Encomendaram também o jantar. Trinta minutos depois, um drone entregou as compras e o jantar.

– Agora vamos perguntar à Sustainia como estão os nossos níveis de qualidade ambiental, para ver se podemos dar um passeio depois do jantar. Mas para acabarmos este assunto e irmos jantar, há um valor que tem que fazer parte de nós, que é o da solidariedade e, na altura, houve muitas instituições que foram fundamentais para o equilíbrio da sociedade na ajuda aos mais necessitados. Sem a ajuda dos particulares e das instituições de solidariedade social, como as Misericórdias, o Estado teria colapsado. Foi uma altura em que percebemos que não podemos estar sozinhos e que devemos estar ligados à família, aos amigos e até aos vizinhos, pois somos um ser gregário e precisamos de proteção. Tal como no filme do ET quando Elliot encosta o dedo ao do ET e acende a luz, como que a dizer “estamos ligados, não estamos sós” ainda que ele fosse um extraterrestre. Precisamos de todos. Por tudo isto digo-te o que sempre disse ao teu pai: dá sempre o teu melhor e FAZ POR MERECER.