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Sejam muito bem-vindos. Este texto que se segue é pautado pelos negativismos de pensamento e literal. O meu nome é Nuno Parente. Não, não sou primo do Álvaro Parente, no entanto, acho que é um excelente condutor de aparelhos motorizados com rodas.

Sou interno de formação específica do 4º ano de Medicina Geral e Familiar. Estou a um passo de ser médico de família e não sei onde neste preciso momento em que escrevo. Não, nunca sonhei em ser médico, mas sim, sempre tive em mim um espírito generoso de entreajuda. Tenho quase 30 anos e terminei o curso em 2014, no Porto, no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar. E não, não foi no Hospital de São João como já me indagaram mais de trinta vezes. Sou orgulhosamente formado na baixa portuense, no Hospital de Santo António.

Passaram-se anos e ainda hoje, no final do internato, alguns doentes, raros, perguntam-me: “Está cá a estagiar?”. Respondo solenemente: “O que é um estágio, na sua opinião, claro?”. Na maioria das vezes, a conversa fica por aqui. Há um cruzar de braços, um virar de olhos para a janela e o doente avança na sua meticulosa lista de problemas.

Realmente, corre na sociedade o mito que somos estagiários e devemos muito ao Estado porque pagou triliões do seu bolso para formar cada médico. Desenganem-se. Nós até somos baratinhos. Basta verificar-se pelo artigo do Dr. Alexandre Lourenço, presidente da Administração Regional do Sul, em que se mostra claramente que os estudos de um engenheiro ou dentista custam mais que o do médico. Portanto, não sei onde foram arranjar essa ideia de devolução cega.

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Aliás o Estado é que nos deve e muito. Sem os médicos internos, que trabalham bem mais que as 40 horas semanais estipuladas, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) parava. Com o actual número de estudantes de medicina caminhamos para a (des)diferenciação, com médicos sem especialidade, a auferirem cada vez menos, a aceitarem soluções cada vez mais precárias e a um fluxo (que ainda atingirá o pico) de emigração e imigração. A oferta dos grandes grupos privados é crescente, a promiscuidade entre público e privado intimíssima e o doente anda perdido e esquecido por vielas da doença.

O resultado do futuro será o que vivemos hoje, mas pior. As áreas sem assistência continuarão desertas (não há do governo medidas concretas que sejam apelativas para fixação local de jovens especialistas), com número de médicos inferior à dimensão da população, as urgências permanecerão um caos (possivelmente a encerrarem em novos pontos do país) e a insatisfação da população, essa sim, será diabólica.

Há que perceber que o investimento português na saúde é inferior à média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), que a alocação de recursos à prevenção é inferior à média da OCDE e que, nos últimos 7 anos, os médicos e enfermeiros de Portugal perderem poder salarial comparativamente aos outros profissionais de saúde na Europa. Ainda assim a ideia que preferem passar é que o SNS é um dos melhores a nível mundial.

Recentemente, mais uma vez pela OCDE, soubemos que reduzimos a mortalidade por doenças evitáveis e tratáveis acima da média dos países parceiros. Estamos de parabéns? Não. Porquê? Outro dia uma doente, na faixa etária dos 45 anos, com seguro de saúde privado, fez-me a seguinte pergunta: “Oh doutor quando é que vai custar o procedimento?”. Respondi a gracejar: “Oh senhora professora isto é o público, servimos entrecôte da barriga do porco!”.

Portanto, enquanto quisermos atirar areias de feitos valorizáveis para os olhos da miséria, nada irá mudar. No debate recente do programa “Prós e Contras” a mensagem foi essa: “continuem a fazer essas omeletes francesas, mas com meio ovo”.

Voltando a mim. Exerço Medicina Geral e Familiar. Já muitas vezes fui chamado “médico da caixa”. Não tenho problema com isso, mas educo sempre para a nova nomenclatura. Sou médico de Família. O médico que trata todo o doente e sua família que, ingloriamente, se dedica à prevenção, essa penumbra esquecida no meio da “fome” por mais e mais exames. É triste ver colegas de Pediatria a falarem da nossa qualidade e falta de formação em Saúde Infantil e Juvenil e colegas de Ginecologia-Obstetr´ícia a falarem do modelo de gestão dos centros de saúde com retenção de doentes para ganho em incentivos como causa para o aumento da mortalidade materna. A desunião dos médicos é estaca assente, mas agradecia que tentássemos que não fosse esse o caminho.

O médico de Família é a porta de entrada do SNS e não tem qualquer proveito em fechá-la aos doentes. Neste momento, as listas de utentes são sobredimensionadas e o médico de Família gere da melhor maneira possível o acesso aos cuidados de saúde secundários. A sua formação em Saúde Infantil e Juvenil passa pelas mesmas consultas no ambiente dos Cuidados de Saúde Primários em que a maioria das crianças são saudáveis, fazendo-se a sua vigilância com critério, peso e medida.

Segundo a WONCA (Organização Mundial dos Médicos de Família), uma das competências nucleares é a abordagem abrangente, ou seja, gerir a doença em estádios precoces, por vezes, com sintomatologia frustre, direccionando atitudes para intervenções prioritárias e efectivas. Parece- me que continua a existir a sensação de menos-valia para com a Medicina Geral e Familiar. Porém, muitas vezes, não é a doença o problema — é como lidar com a doença. Porventura uma solução para vencer estas diferentes opiniões seria colocar colegas hospitalares a terem valências nos Cuidados de Saúde Primários e a desenvolverem projectos mais próximos das suas comunidades. O que nos destrói é a distância, falta de comunicação e convivência.

O descrédito da população, a precariedade do público (porque não seguir o exemplo das recompensas na magistratura?), os convites do privado, a desertificação local na assistência, a falta de compromisso e cooperação entre os diferentes níveis de cuidados de saúde são algumas das notas que tocam a marcha fúnebre do SNS.