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Crónica

A cura pelo visível /premium

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De qualquer maneira, tudo tem um lado bom. O “como é que se entretém?” da enfermeira Daniela promete uma resposta fácil para os dias vindouros de futuros entretenimentos: com formas, só com formas.

“Ainda trabalha?”, perguntou-me o taxista desconhecido que me levava para a universidade. Lá respondi que sim. “Deve ter trabalhado muito pouco durante a vida”, foi a conclusão que extraiu para explicar a extravagantemente adiada reforma que me supunha. Desde há uns tempos que a minha vetusta aparência suscita questões deste tipo. A última (e a que me interessou mais) foi com a Daniela, que de vez em quando me tira o sangue para umas análises: “Como é que se entretém?”. Quando estas coisas tendem a repetir-se é difícil não pensar que houve alguns erros no percurso da nossa vida, ou, se se preferirem as palavras rigorosas do treinador Rui Vitória depois da derrota do Benfica frente ao Bayern, que “a estratégia idealizada não foi operacionalizada”. Como pude eu não operacionalizar a idealizada eterna juventude, ou, pelo menos, um provisório arremedo dela que me poupasse a ostensivos vexames?

De qualquer maneira, tudo tem um lado bom. O “como é que se entretém?” da enfermeira Daniela promete uma resposta fácil para os dias vindouros de futuros entretenimentos: com formas, só com formas. Isto exige uma explicação. Vivi em Paris durante quase oito anos, e ao longo desses oito anos frequentei museus com uma impecável regularidade. E não apenas parisienses ou mesmo franceses, mas europeus. Em Paris estava-se perto de tudo e os grandes museus europeus, com poucas excepções, encontravam-se todos mais ou menos à mão. Mas via sobretudo pintura e a grande arquitectura das cidades. A pouco e pouco, no entanto, a forma de certos talheres começou-me a comover e depois a das cadeiras e depois ainda a de todo o tipo de mobiliário. Comecei a descobrir encantos inusitados nas chamadas artes decorativas. Para não falar dos museus de história natural e dos jardins botânicos e dos grandes ilustradores e fotógrafos de animais e plantas. Não vou prolongar a lista, que tende para o infinito. Basta dizer que cheguei presentemente à fase dos jardins. Todos: italianos, franceses e ingleses. Sou capaz de passar horas a folhear livros e livros com fotografias de todos esses verdes espaços que os poderosos deste mundo mandaram construir para sua glória ou, mais modestamente, para seu prazer.

Se me dou ao trabalho de revelar este movimento da evolução do meu espírito, não é certamente porque o julgue interessante em si mesmo: não é nada – a banalidade é inteira. A razão é outra: é que a atenção às formas contém em si algo de libertador. Fixa o olhar em algo que existe por si mesmo e desprende-nos do curso das coisas acidentais e acessórias. Proporciona uma verdadeira contemplação. Um filósofo, Leibniz, escreveu que “o mundo é um cosmos pleno de ornamentos” e disse também que a beleza, a captura da maior diversidade no interior de uma unidade, representa uma intensificação da percepção. A atenção aos ornamentos do cosmos torna a nossa percepção mais próxima da evidência. Dito de outra maneira: faz-nos ver o mais claro que é possível, restringe o domínio das percepções confusas e obscuras. Sem ter nada a ver com qualquer misticismo, a contemplação das formas – criadas ou naturais – liberta.

Haverá, no entanto, alguma necessidade dessa libertação? É de supor que varia com as pessoas. Mas para algumas, sem dúvida, é necessário experimentar momentos em que os trabalhos da vida se encontram suspensos. Há demasiado invisível na nossa vida quotidiana. Precisamos de uma cura de visível, que só se pode obter com o exercício da atenção à beleza, que é em geral mais mudo do que falante. E isso não implica nenhum desgosto essencial com o dia-a-dia humano. No que me toca, sou capaz de passar um tempo absurdo (enfim, menos do que dantes, é verdade) em frente à televisão a ouvir António Costa ou Rui Santos. A política e o meta-futebol interessam-me. É só que preciso, de tempos a tempos, de escapar aos seus muito densos universos discursivos, com a sua inevitável dose de percepções confusas e obscuras. Não creio que seja verdadeiramente censurável.

Por isso, é necessário recorrer a uma estratégia idealizada que apresente todas as possibilidades de ser eficazmente operacionalizada. Uma estratégia que, adoptando a sábia terminologia da Daniela, me permita o entretenimento que o meu carácter contemplativo exige. E agora, como prenúncio dessa quase beatitude futura, vou voltar a um belo livro de fotografias sobre gárgulas nas catedrais europeias. As gárgulas também são belos ornamentos deste cosmos. A cura pelo visível pode-se encontrar em todo o lado.

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