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Ler é um prazer para muitos de nós. Nesta época, os livros são um colete salva-vidas para não nos sentirmos a afundar no dito confinamento. Nos tempos de hoje, comprar um livro pela porta entreaberta é uma felicidade clandestina. Sabe a stroopwafel com sabor a caramelo.

Tenho a sorte de viver (para mim) no melhor bairro do mundo. Onde também vive uma antiga livraria. Uma referência na esquina. Uma montra sempre convidativa a fazer-nos parar para ver as capas em destaque. É muito triste andar a passear e dar com as portas fechadas, as luzes apagadas, o letreiro a informar o fecho de acordo com as normas em vigor. Mas certa tarde, de tempo nublado e rua pouco movimentada, vi as luzes acesas e acelerei o passo, pois ando com desejos de Somerset Maugham. E lá tive a sorte de encontrar o livreiro a entrar. Descobri que fazem entregas em casa. Um entusiasmo perante o conforto da relação humana e não a encomenda via net. Até porque as pessoas do nosso bairro tornam-se também “as nossas” pessoas, dos “nossos” habitats/lugares familiares. E, repentinamente, a possibilidade de encontrarmos outra vez, numa nossa esquina, o livro que procuramos torna-se numa delícia. Lá nos sentimos um pouco em tom de segredo com a combinação da transação e rimo-nos da ironia da realidade mundana onde caímos. Mas maior é o sorriso pela conquista de termos o livro que andávamos a pensar que queríamos. A cumplicidade de partilharmos o mesmo gosto arranca-nos a alegria de sentirmos o nosso imaginário ouvido e compreendido por aqueloutro. Certamente que cada um tem o seu Somerset Maugham, mas ambos partilhamos a impressão de entendermos e sentirmos a humanidade que nos une.

A leitura permite-nos aceder a uma dimensão simbólica através da linguagem. Com  a leitura encontramo-nos com a presença contínua de um Outro. Um outro pensamento, uma outra(s) história(s), uma(s) outra(s) cultura(s). Atingimos a satisfação suscitada pela curiosidade de saber mais. Também nos evadimos. A nossa subjectividade dialoga com a subjectividade do autor e dos seus personagens e/ou a sua narrativa. Encontramos por vezes alter egos que dão voz a facetas que temos escondidas, desejos reprimidos ou ampliam aquilo que já de nós conhecemos como um esboço de algo. Através da leitura, ganhamos com o toque criativo que nos permite aprofundar mais da nossa intimidade.

Alguns livros, pela sua riqueza, para além de nos elucidarem, transformam-nos. Os livros são também experiências de vidas acumuladas. Ensinam-nos sobre os outros e sobre nós. Mesmo não sendo histórias reais, falam-nos da realidade, são uma extensão da memória e da imaginação, como disse Jorge Luís Borges. São uma espécie de paraíso. Não nos deixam sentir sós, como disse Marguerite Duras.

Que bom existirem muitos livros para podermos ler.

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