Bem sei que estamos a passar tempos difíceis. É nestas alturas que dou graças ao Dr. António Costa, clarividente, por nos ter chumbado o governo PàF. Ficou por lá, ganhou as eleições de há um ano, e agora tem uma pandemia à maneira. Bem feito para ele, péssimo para todos nós. Uma calamidade de Estado.

Depois da confusão inicial com as máscaras que eram inúteis, concluíram (quem?) que o ideal é usá-las em contínuo ao ar livre. Se considerarmos que a alternativa poderia ter sido, a tal medida dramática, uma obrigação de apneia permanente, devemos estar aliviados pela proposta ter sido tão branda.

Na mesma linha está a obrigatoriedade da app StayAway (adoro estes tugas que falam inglês) o que em língua de Camões deveria ser “vade retro COVIDÁS”. Nada a opor, em princípio, mas ficará a dúvida se isso não pressuporá que todos tenhamos um telefone esperto, um smart phone. Os avós (as avós também) que só têm um tijolozinho, com écrã a preto e branco, incapaz de mais do que mandar uns SMS e atender as chamadas dos filhos e netos, vão ter de comprar um iphone ou coisa semelhante em sistema android?

Sim, têm toda a razão, não precisam porque não os deixam ir à rua.

Brincadeiras à parte, o assunto é sério.

Já todos percebemos que o Governo está sem saber o que fazer. Problema internacional de impossível solução antes de haver tratamento e vacina para a Covid-19. Seria bom começar por admitir isso mesmo e só falar quando fosse útil e necessário.

Também já percebemos que o disparate ferve e as altas instâncias insistem em falar, porque acham que têm sempre qualquer coisa para dizer. Não têm e o silêncio seria de ouro. Vá lá, ficámos a saber pelo nosso PR que o Cristiano estava bem de SARS. Ainda bem que o Prof. lhe ligou, ou estaríamos todos em pulgas.

Sobre a app, é importante saber-se que ainda não tem demonstração de que seja útil e depende de factores incontroláveis como a existência universal de smartphones (ainda não é obrigatório ter um) e o registo médico dos casos positivos que tenham telemóvel, idealmente, um smartphone. Não me parece que seja coisa exequível, ao ponto de multar quem não tenha o telefone em dia. Na gíria dos gangues, um “burner” não serve.

As máscaras são assunto diferente. Eu sou dos que defendem o seu uso universal nesta fase e, desejavelmente, a moda asiática de as usar com constipações pode ser que pegue. É eficaz? Não sabemos. Há literatura para todos os gostos.

É certo, que terão o inconveniente de criar uma geração inteira com orelhas de abano, mas, como o Lamarck não tinha razão, não será característica que perdure geneticamente. Mas a verdade é que, com máscara, há alguma proteção do perdigoto e, bem vistas as coisas, se a coisa já estiver posta, há menos risco de nos esquecermos de a colocar à entrada de algum estabelecimento. Claro que não nos podemos esquecer dos que nem para a máscara têm dinheiro (eles existem!) e convirá que o Prof. Leão não vá encontrar nas multas dos incumpridores mais uma fonte de rendimento.

Quanto ao resto, nada a dizer. É incontrolável o que é incontrolável. Ou, se assim o quiserem, passamos todos, mesmo todos, outra vez para a prisão domiciliária. Morreremos de fome numa sociedade digital. Logo, o primeiro confinamento, que poderia ter sido evitável se o mundo tivesse acreditado nas fontes fidedignas e não na OMS, aconteceu para que se ganhasse tempo. Foi isso que o Governo de Portugal não ganhou.

Diz que aprendeu a lição, mas mais nada fez do que comprar ventiladores. Não formou pessoal e contratou apenas parte do que poderia ter contratado. Médicos, não há mais do que aqueles que as faculdades vão formando. E ainda há quem queira que não se formem mais?

Onde está o pecado maior? Na ausência de planificação estrutural, na falta de integração da capacidade de todo o Sistema de Saúde e na paralisia quanto à construção rápida de estruturas de apoio médico com graus de diferenciação adaptáveis às necessidades. Há hospitais e unidades de cuidados intensivos modulares, pré-fabricadas, bem melhores do que as tendas de “campanha” – ressalve-se que a do INEM é excelente –, que poderiam ter sido alugadas para uma eventualidade. Pior, o melhor de todos os “hospitais” constituídos a martelo, foi o do Pavilhão Rosa Mota e agora, que o S. João já está a baquear, nem se fala em recuperar a ideia.

O SNS, mesmo com a quarentena geral, entrou em rotura. É uma mentira dizer o contrário. Como não rompeu, se há centenas de milhares, talvez mais de um milhão, de rotinas médicas que não foram feitas? Como se justificarão agora aqueles que, com a bonomia dos arrogantes, garantiam a recuperação das listas de espera até ao fim de 2020, vá lá, o mais tardar no primeiro semestre de 2021?

Entretanto, a senhora Ministra queixa-se de que os médicos a andam a empurrar. Quando é que isto acaba? Andamos ad hoc, numa espécie do uso liberal que eu, conhecido “gralhoso”, advogo para o acordo ortográfico. Que se escreva como cada um queira que, no meio de tanta desordem, alguma coisa há-de sair.