A centralidade do indivíduo, a sua liberdade, tem de ser o ponto de partida da vida em comunidade. Mas o indivíduo, qualquer indivíduo, nunca se basta a si próprio, isolado do mundo e ignorante de tudo o que o rodeia.

Tenho andado numas leituras algo “esotéricas”, numa procura de esclarecimento duma questão que vou tentando entender melhor: como conciliar a defesa do primado e centralidade da liberdade individual com a necessária vida em comunidade e o imperativo de solidariedade social para com os que têm menos, ou quase nada.

A questão tem, intrínsecas, outras ponderações necessárias, que passam muito pela ética, por um sistema de valores que não nos permite alhear do “outro”, do mal-estar alheio, centrando-nos apenas nas escolhas que levam ao nosso (subjectivo e utilitarista) bem-estar.

Intuo, sei, que o modelo que defendo assenta nestas duas premissas: liberdade individual como centro da vida em comunidade, vida digna e possibilidade de desenvolvimento individual como constituintes sine qua non da própria liberdade.

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Mas uma coisa são as “intuições”, outra os suportes teóricos, académicos e científicos das mesmas. Se considero que a intuição é, normalmente, boa conselheira, também considero que é um erro tê-la como único factor a ter em conta, quer nos nossos julgamentos, quer nos comportamentos e decisões.

Sei que aqui, além do magno plano filosófico da ética, já estou a entrar em questões mais “comezinhas” (perdoem-me os economistas), mas absolutamente centrais na vida contemporânea, como a Economia.

A minha formação académica é jurídica, estudei Economia Política (com alguns laivos marxistas imprimidos pelo professor Avelãs Nunes), Economia e Finanças Públicas, li, em seu tempo, Samuelson, mas tenho a perfeita noção de que sei muito pouco de economia.

Com essa consciência, e depois de alguma pesquisa, cheguei a Amartya Sen, prémio Nobel da Economia. Já li recensões sobre alguns dos seus livros, e comprei o que me pareceu que mais se focava na questão que neste momento procuro compreender melhor.

Sobre Ética e Economia“. Este é o título do livro de Sen que acabei de ler e esta é a questão sobre a qual tenho andado justamente a reflectir, com maior conhecimento de causa no que diz respeito às questões éticas, e uma relativa ignorância, que confesso sem problemas, no que respeita à Economia.

“A liberdade de uma pessoa pode ser vista como valiosa para além dos seus sucessos. As opções e oportunidades de uma pessoa podem ser levadas em conta numa avaliação normativa, para além daquilo que a pessoa acaba por garantir ou conseguir. A liberdade pode ser valorizada não só por auxiliar o sucesso, mas também pela sua própria importância, que vai para além do valor do estado de existência realmente alcançado”.

Este parágrafo, retirado da obra citada de Amartya Sen, condensa o que entendi de essencial do livro.

Os nossos comportamentos de homo economicus não existem desligados das restantes dimensões, nem nos guiam apenas numa perspetiva económica e utilitarista da “motivação humana” de satisfação das necessidades e dos interesses.

A dimensão ética não é estranha às nossas escolhas, mesmo as mais racionais e “económicas”.

De facto, acredito que a centralidade do individuo, a sua liberdade, tem de ser o ponto de partida da vida em comunidade. Mas o indivíduo, qualquer indivíduo, nunca se basta a si próprio, isolado do mundo e ignorante de tudo o que o rodeia.

A miséria humana, em todas as suas múltiplas gárgulas, não nos é indiferente, assim como não o podem ser as suas causas, as de antanho, e as mais contemporâneas, como as alterações climáticas.

Na verdade, a possibilidade duma vida com um mínimo de dignidade e a garantia da possibilidade de desenvolvimento pessoal através da educação, com paz, em segurança e com saúde, independentemente das circunstâncias em que cada um nasce – e não nascemos todos iguais, nem nunca seremos todos iguais – são, elas próprias, constituintes da liberdade individual de cada um dos cidadãos que constituem uma comunidade.

E só homens e mulheres verdadeiramente livres pugnam por uma sociedade de liberdade.

Esta reflexão ligeira tem, necessariamente, consequências práticas. Importará a todos os que ponderam a possibilidade de votar na Iniciativa Liberal a resposta a esta inquietação, a este “papão”: os liberais querem acabar com toda a proteção social, com todas as formas através das quais cuidamos, em comunidade, uns dos outros?

Há diversas formas de liberalismo, incluindo o liberalismo social, em que estas questões são centrais. É esta a linha em que acredito.

O debate é importante, sobretudo no seio da própria Iniciativa Liberal, que deve ter um discurso claro neste campo. Assim o exigem os eleitores, assim o exige o sucesso eleitoral do partido.

É este o debate que sinto como mais premente dentro da Iniciativa Liberal e é para ele que quero contribuir, não de forma exclusiva, mas mais intensa, nos próximos tempos.