A direita e a esquerda estão enganadas em relação a Marcelo Rebelo de Sousa. Por razões diferentes, ambas acham que o Presidente vai manter eternamente a sua posição ambígua em relação a António Costa, que consiste em apoiá-lo com firmeza ao mesmo tempo que simula algumas vagas discordâncias de detalhe. Isto provoca apoplexias à direita, que se sente traída por um dos seus; e induz euforias à esquerda, que se sente abençoada por um adversário compreensivo.

Mas isto não vai durar. O comportamento do Presidente tem uma explicação e um contexto. Afinal, há um número que está sempre na cabeça de Marcelo Rebelo de Sousa. É este: 70,35%. Foi a percentagem de votos que Mário Soares conseguiu quando se recandidatou a Belém, em 1991 — e é essa a percentagem que Marcelo quer bater quando chegar a sua vez, em 2021.

É inteiramente possível que consiga. Afinal, apesar de ter tido o apoio do PS e do PSD na sua recandidatura, Soares precisou de enfrentar adversários vindos dos dois lados: à direita, lançado numa missão suicida pelo CDS, Basílio Horta vociferava nos debates ao lembrar a descolonização e a “pátria amputada”; à esquerda, Carlos Carvalhas fazia o seu teste de resistência política antes de tomar conta do PCP e Carlos Marques (não confundir com Karl Marx) tentava dar fôlego à UDP antes do nascimento do Bloco de Esquerda.

Agora, Marcelo tem a direita segura (apesar dos amuos) e, se conseguir o apoio do PS, como se lê nos jornais, precisará apenas de se preocupar com um candidato do PCP — que nestas coisas não falha — e com a eventual vaidade de Francisco Louçã — que, além de ser um comentador bem-comportado e um conselheiro de Estado engravatado, poderá sentir a vertigem de uma consagração nas urnas. Ou seja: Marcelo só não ultrapassa os 70,35% se Cristo descer à terra.

Mas convém não esquecer que Marcelo age — e agirá — como todos os Presidentes da República desde o 25 de Abril: no primeiro mandato, preocupa-se com a reeleição; no segundo mandato, preocupa-se com a História (com maiúscula). Ou seja: depois de conseguir os seus mais de 70,35%, tudo vai mudar. E é isso que a direita e a esquerda teimam em não perceber.

A direita tem um problema com Marcelo desde o 25 de Abril. Na revolução, não lhe perdoou as tentações esquerdistas. No governo Sá Carneiro, não lhe perdoou a independência do Expresso. Na governo Balsemão, não lhe perdoou a sucessão de traições. No Bloco Central, não lhe perdoou a independência de espírito. No cavaquismo, não lhe perdoou o distanciamento crítico. Na altura em que Marcelo foi líder do PSD, não lhe perdoou o fim abrupto da aliança com o CDS. No santanismo, não lhe perdoou o desgaste diário ao governo. No passismo, não lhe perdoou a autonomia. E agora, em Belém, não lhe perdoou o apoio à geringonça. Mas, perdoando ou não perdoando, gostando ou não gostando, quem não quer a esquerda a mandar está reduzido a isto: neste momento, a única direita viável e eficaz é Marcelo.

A esquerda ainda não tem um problema com Marcelo, mas vai ter. Os socialistas, pressentindo a sua própria fragilidade nas presidenciais, procuram apenas uma desculpa para faltarem à luta. Em 2006, o PS dividiu-se entre Mário Soares e Manuel Alegre; em 2016, dividiu-se entre Maria de Belém e Sampaio da Nóvoa; em 2021, pode estilhaçar-se em mais pedaços por falta de rumo. Para evitar esse risco, António Costa parece preferir a repetição do que fez o primeiro-ministro Cavaco Silva em 1991 com Mário Soares e apoiar o adversário. Convém, porém, que os socialistas meditem num ponto: o voto do PSD em Soares foi uma ótima jogada eleitoral, mas foi uma péssima jogada política. Armado com uma esmagadora percentagem de votos, Mário Soares passou todo o segundo mandato a demolir o governo cavaquista. E nem com uma maioria absoluta foi possível resistir ao Presidente dos 70,35%. Antes de cair numa armadilha, António Costa devia fazer bem as contas.