Não, não estou simplesmente a ser paradoxal, nem a esquecer-me de nada. São as esquerdas que têm a maioria na Assembleia da República e governam desde 2015. E graças ao BCE e a uma das melhores conjunturas internacionais desde o pós-guerra, não houve sondagem, até agora, que sugerisse que isso ia mudar. Também sei que do outro lado o céu está mais carregado. São as direitas que estão na oposição. São as direitas que ameaçam fragmentar-se. E, como seria de esperar, é à direita partidária que por vezes falha a confiança, como se deduz da estratégia do PSD de Rui Rio, de colagem ao PS.

Neste momento, a direita sofre de duas coisas. Por um lado, da maldição dos ciclos económico-orçamentais, que há vinte e cinco anos só a deixa governar em períodos de cortes e de recessão e a fez perder o pé no Estado, monopolizado pelas famílias socialistas. Por outro lado, do alargamento do leque de pontos de vista associados à direita, o que a pôs a discutir o que deve ou pode ser a direita. Ora, a primeira notícia não é necessariamente má, e a segunda é provavelmente boa.

Neste momento, o Estado parece tudo em Portugal. Ninguém imagina como competir eleitoralmente com um funcionalismo que a maioria de esquerda favoreceu à custa de tudo e de todos. Este Leviatã, porém, tem pés de barro. Está assente em dívida, numa pressão fiscal desproporcionada e em serviços em degradação. Não só pode falhar, mas o que pode dar é limitado. Gera também  cada vez maiores desigualdades (entre público e privado nas condições de trabalho, entre residentes estrangeiros e nacionais no regime fiscal). Rui Rio aspira a juntar-se ao PS para regressar ao Estado. Se essa opção não resultar, as direitas podem estar condenadas a reorganizar-se como movimentos e partidos da sociedade, como no tempo da AD, em 1979. Bem sei que Portugal não é o mesmo. Mas esta sociedade mais envelhecida, dependente e endividada, é também mais qualificada, e ainda talvez possa a vir a ter aspirações. As direitas vão precisar de aprender a falar-lhe, a ouvi-la e a mobilizá-la. Trabalho que, a ser feito, talvez lhe dê alguma vantagem competitiva perante esquerdas cada vez mais acantonadas num Estado inviável e desmoralizado.

Durante muito tempo, a direita tendeu a conter-se num situacionismo tecnocrático, como aquele que ainda define os comissários europeus. Queria-se não-ideológica. Interessava-lhe apenas passar por boa gestora do existente. Hoje, já não é bem assim. Nunca houve tantos liberais assumidos, há já nacionalistas, há também conservadores e — imagine-se – até debatem entre si. É algo de novo, e que, por isso, deixará alguma gente confusa nos primeiros tempos. Mas convém valorizar isto perante o cemitério intelectual à esquerda. A actual geringonça é feita dos fracassos políticos e ideológicos de quem pretendia sair do Euro (PCP), renegar a dívida (BE), estimular a economia com investimento público (PS), e que teve de abdicar de tudo isso depois de perder umas eleições dadas como ganhas. As esquerdas, submetidas a Bruxelas para tratarem das suas clientelas em Portugal, são hoje apenas máquinas de poder. A trovoada permanente do seu facciosismo mal disfarça a falta de visão e vigor intelectual. A direita, com esforço, pode em breve ser a única a oferecer algo para além da dieta de conformismo e de dependência da geringonça.

Digamos assim: as direitas queixam-se mais, mas as esquerdas estão mais doentes. É óbvio que as direitas podem sempre atascar-se em expedientes ou em querelas de aviário. Nem tudo o que desse lado existe é compatível, mas talvez tudo possa coexistir, se houver a percepção clara do inimigo comum (e nestes casos, é sempre o inimigo que une): o poder cínico de meia dúzia de famílias socialistas coladas ao Estado, com o apoio dos sindicatos comunistas e do activismo de extrema-esquerda. Para começar, as direitas precisam de acreditar que o país merece mais e precisa de mais.