Está. E nem era preciso o Presidente da República ter vindo dizer isso. Já era evidente. E o problema não é do sistema, nem da democracia, nem dos eleitores. Há podres? Sempre houve, mas agora até se fala deles e, ainda que timidamente, lá vão aparecendo uns condenados. O problema está no espaço político não marxista.

A crise da direita é uma crise conjuntural e nem tanto estrutural. Logo, é uma crise que se resolverá com a lógica darwiniana de que os que não se souberem adaptar desaparecerão. O primeiro problema que a direita tem de resolver é adaptar-se às circunstâncias sem que isso a descaracterize.

Daqui surge o segundo o problema, o da caracterização da direita. Em Portugal, erradamente, direita é tudo o que não é de esquerda. Simples, não é? Ora, como é a esquerda que nos diz quem é de esquerda, da mesma forma que é direita tudo aquilo a que a esquerda chama de direita. É de direita quem não é do clube da esquerda, mesmo que haja na direita quem fale de pessoas e ideias com cariz social muito mais marcado daquelas ideologias que o PCP, BE e parte do PS, defendem. Houve progresso. Há uns anos eramos todos fascistas.

Mas, em boa verdade, a classificação é inútil. Digamos que de um lado teremos os que defendem as liberdades civis, o mérito, o reconhecimento dos melhores, a propriedade privada, a ordem, os bons costumes e a integridade da Nação, do seu território e da sua cultura. Estes podem ser a direita. Do outro lado estão os que não defendem o papel central indivíduos na formação do Estado, revoltam-se contra a ideia de Nação, mesmo que esta possa ter gente de origens diferentes, pugnam pela coletivização da propriedade, anseiam pela ditadura do proletariado, abominam a iniciativa privada, agora querem impor ideologias de género e aceitam que os valores do coletivo se sobrepõem aos desígnios de cada pessoa. Estes serão a esquerda. Entre os extremos há um pouco de tudo e, seguindo as convenções mais comuns, até o PS tem muita dificuldade em catalogar-se como esquerda.

Sendo assim, a delimitação é difícil de estabelecer na fronteira do centro, mas vamos aceitar que PCP, BE e similares (tipo Livre, MAS, MRPP), mais o novo PS que alinha com eles, são a esquerda. O PSD, CDS, Aliança, Iniciativa Liberal e Basta (“estamos fartos” mas não sabemos bem o que queremos, embora capar os pedófilos possa ser um princípio de conversa), a que podemos adicionar o embrião extremista do PNR, são a direita. Para efeitos de discussão facilita. De um lado e outro incluí grupúsculos que correspondem a “sobras” de votos perdidos, reconhecendo que não são todos iguais. No meio disto, não há ecologistas legítimos, o que me alivia de os ter de arrumar entre esquerda e direita.

Se nos reduzirmos aos votos de PCP, BE, PS e PAN (estes devem ser de esquerda porque nem a direita os quer) vs PSD, CDS, Aliança, Chega pr’a lá e Iniciativa liberal, fazendo fé nas sondagens, a esquerda ganha. Não ganha por muitos, mas ganha. Todavia, a maioria dos Portugueses não é comunista, nem extremista de outra qualquer coisa, e a maioria dos votos está entre PS e PSD. Esta seria a maioria “natural”, onde a leis “de regime” devem ser construídas, mas a bem da democracia e da alternativa na atribuição do poder, será mais inteligente falar em PS (com as suas alianças de conveniência) de um lado e PSD+CDS do outro. Terceiro problema da direita, o sinal + não é implementado. Pessoalmente, penso que o dia virá em que PSD e CDS compreenderão que a situação atual, a evolução do espaço democrático, levará a que se fundam ou a que permaneçam coligados, sob pena de que o mais pequeno desapareça. Até poderá depender da capacidade de afirmação de uma direita, mesmo de direita, que ainda não temos.

O atual panorama territorial da distribuição dos votos, entre mais à esquerda ou mais à direita, evoluiu do alentejanismo do PCP para uma clivagem aparentemente mais marcada entre urbano e rural. Como a distribuição territorial da população tende a ser mais urbana, litoralizada, todos os partidos que têm mais votos ganham nas zonas urbanas, as que têm mais gente. Daí que, face a uma situação em que o PS parece ser hegemónico, é mais difícil para os outros partidos identificarem o seu eleitorado alvo. Não é completamente evidente que o PSD esteja a perder implantação urbana, nem que seja agora o partido da ruralidade. Não conheço as avaliações por segmentos populacionais (imagino que os partidos as tenham) para poder afirmar como é o eleitor tipo de cada agremiação política. É este um quarto problema da direita, o de não ser capaz de identificar o eleitorado alvo, maioritariamente mais velho, sem perder na captura de novos eleitores e do eleitorado jovem. Neste campo, por sinal, o drama maior é o do PCP que poderá vira a definhar, se não se afastar dos ideais estalinistas e ainda conseguir contar uma estória mais moderna e virada para a classe média que já não é proletária, nem campesina.

Repito, a composição demográfica é já favorecedora dos que apelarem ao voto que está para lá da convencional meia-idade. Há mais de 153 idosos por cada jovem. Trinta por cento da população residente em Portugal tem mais de 65 anos! O problema principal é convencê-los, aos mais velhos, a votar e apresentar-lhes causas que lhes digam alguma coisa. Uma dica. É para a maioria dos que estão na pirâmide etária em Portugal, acima dos 40 anos, que os serviços de saúde são mais necessários. A maioria dos mais novos, com menos de 30 anos, acha-se sempre saudável e imortal.

E aqui introduzimos o quinto problema, o das ideias. A esquerda, mais ou menos Marx, mais ou menos Lenine, Mao, Phol Pot ou Trotsky, já tem um acervo de dichotes que servem para animar as suas hostes. Podem tentar convencer-nos que são mais moderados, como a artista Catarina Martins em dias de campanha, mas o seu credo é o dos comunistas do fim de século XIX e início de século XX.

Para a direita é mais complexo. Na linguajem dos comunistas, o PS que é social-democrata (o Dr. Mário Soares gostava mais de ser socialista democrático, esteja lá onde estiver a diferença) não é de esquerda. Ao PS convém ser de esquerda porque historicamente o 25 de abril não aceita centristas e, bem vistas as coisas, ser esquerdalho era prestigiante. Com o savoir faire de Costa, piscando para um lado e outro, agora deu-lhe jeito ser apaniguado dos comunistas, o que não quer dizer que seja sempre assim. Talvez a grande diferença entre PS e a sua “direita” está em que PSD e CDS não aceitariam coligar-se com o PCP. Não? Bem, há exemplos camarários do contrário, mas não falarei deles para não aumentar a confusão. Digamos que para o governo central, o limite das capacidades gastronómicas de sapos, para o PSD e CDS, está no PS. Mas isto não define ideias, mesmo que elas valham pouco nos dias que correm.

Retomo um ponto. Não há, por enquanto, partidos de verdadeira direita em Portugal. Os chamados “liberais” não o são. Quanto muito serão liberais sociais, muito próximos de sociais-democratas com maior enfoque na liberdade de escolha e na redução de impostos. Leiam os programas disponíveis da Aliança e da Iniciativa Liberal no que à saúde dizem respeito. Defender uma mudança de sistema de financiamento e alargar o sistema de seguro universal, como eu tenho feito, não é uma ideia de direita. Este sistema de financiamento vigora, há muitos anos, em Países europeus que tiveram governos de maioria social-democrata. Generalizar seguros de saúde, sem saber como, é vago. E não, não é verdade que mais seguros de saúde tornem o SNS mais eficaz (uma confusão terminológica) ou mais eficiente. Promover a regulamentação da eutanásia, não é uma ideia da direita.

Ser a favor da liberdade de escolha é ótimo e estamos todos de acordo. Esta ideia já não diferencia muito a esquerda da direita, pelo menos na saúde. O que é importante é saber quem paga a liberdade de escolha. O indivíduo ou alguém, uma outra entidade, por ele? O que nos interessaria saber é onde se colocam os liberais tugas em matérias como a “não interferência”, defendendo que a saúde de cada um é um problema individual e que apenas a cada indivíduo, sem intervenção do Estado, caberá decidir como a quer defender.

Também, aceitando que os liberais aceitam a ideia do “no harm”, o que nos diz que podemos ser livres desde que não prejudiquemos os outros, onde se posicionam os liberais de Portugal em questões como o controlo de hábitos nocivos para a saúde? O liberais ingleses, os verdadeiros liberais como se autodenominam, escrevem que são contra fumar onde não é permitido, ainda bem, e contra o teste obrigatório para a SIDA. Parece pouco para quem se diz liberal, mas é o que está escrito, na net para quem quiser ir ler. Afinal, no seguimento do anterior, quem deve pagar o “self harm”? Se forem coerentes, verdadeiros liberais, libertários se preferirem a designação extrema, aceitarão que cada um é livre de se prejudicar e que não tem o direito de exigir do Estado o que nunca lhe pediu e para o que nunca contribuiu.

Querem menos impostos? Também eu. Mas quanto estão dispostos a abdicar de serviços públicos e da qualidade desses serviços em função da redução de impostos? Até onde vai a solidariedade dos liberais nacionais? Tudo isto são questões que precisam de ser clarificadas e apresentadas em contexto de medidas concretas, pragmáticas e aplicáveis. A direita, toda ela, precisa desta clarificação. No fundo, é saber se é preciso romper, onde e como, ou reformar, aproveitando as continuidades, as mesmas que nos levaram de um estado de subdesenvolvimento sanitário atroz à situação onde estamos, naturalmente melhor do que estávamos há 50 anos…ou não houvesse mais tecnologia e mais conhecimento. Para já, os denominados “liberais” não acrescentam nada ao eleitorado de direita, só o dividem.

As ideias clássicas da direita ainda não se adaptaram aos determinantes da saúde. Não estão preparadas para responder às desigualdades. Foram elaboradas em contexto histórico e tecnológico muito diferente do atual. Não havia a “invasão” de tecnologia com os custos acoplados que agora existem. A dimensão da população era outra. As exigências também. O conceito de qualidade não era o de hoje. A esperança média de vida era muitíssimo menor. O liberalismo nasceu no iluminismo, quando se estudava à luz de velas.

Mas atenção, precisamos de mais do que medidas avulsas e sem sentido estratégico, como o PSD tem apresentado. Vejamos exemplos. Lugares vazios nas bancadas do parlamento para votos em branco, legalização da cannabis para fins recreacionais e penas “pesadas” para quem matar cães e gatos (e os cavalos, as vacas, os peixes, os ratinhos, hamsters, chinchilas, salamandras, lagartos, as tarântulas, pitões, etc.?). A quantos eleitores interessa isto? De verdade?

Vá lá que o CDS avançou com a ideia de poder haver primeiras consultas, superado o tempo de espera aceitável, fora do SNS. É uma ideia decente, mas não chega. E depois da primeira consulta, vão ficar meses à espera da segunda… no SNS?

À atenção da direita! O combate pela liberdade de escolha passará, inevitavelmente, pela recapacitação de todo o SNS e da sua força de trabalho. Deixem este campo para o PS, que até tem sido o destruidor do SNS, e depois não se admirem de que não têm votos.

O sexto problema da direita é o da liderança. Já escrevi sobre isso. Coisa para resolver depois de outubro. Nunca antes. Acontecerá em quase todos os partidos que forem perdedores, já que derrotados nunca há.

O sétimo problema será, ainda não é, o Presidente da República. O Professor Marcelo é de direita por ser do PSD, ir à missa e ter ficado entusiasmado, mesmo muito, com umas jornadas de jovens católicos que irão ocorrer em Portugal e para as quais, diga-se de passagem, a maioria dos Portugueses se está borrifando. Quanto ao resto, não é de direita, nem de esquerda. É Marcelo. O problema Presidencial ainda não existe e convirá que a direita não perca tempo a discutir agoiros que só valerão a importância que se lhes quiser dar.

Quando a questão da recandidatura do Professor Marcelo se colocar, no momento adequado, a qual é inevitável porque o Professor adora ser Presidente, a direita vai ter de decidir se o apoia e aí poderá ter um problema. Das três, uma. Ou tem um candidato forte, que não se importe de poder perder, e deixa o Professor Rebelo de Sousa a fazer pela vida. Ou não apresenta candidato e deixa o nosso Presidente a contar com o apoio da esquerda socialista sem apoio dos partidos da direita. Eventualmente, terceira hipótese, podem apoiar a reeleição do Professor Rebelo de Sousa, engolir as críticas que lhe fizeram, aceitar o estilo popular da sua personalidade e desejar que seja reeleito. Em qualquer caso, gostem ou não do que o Presidente da República vai dizendo, não é contra ele que a política da direita deve ser feita hoje. Não rende votos.

Na minha modesta opinião, digo o que me parece ser sempre a melhor conduta em face dos problemas. Organizem-se e resolvam o que puder ser resolvido. Ainda vão a tempo.