Antes das últimas eleições presidenciais estive num jantar com Marcelo Rebelo de Sousa organizado pela associação Portugal XXI. Perguntei-lhe se, dada a sua falta de mensagem para o eleitorado de centro-direita, queria conquistar tal voto. Marcelo Rebelo de Sousa respondeu-me sobre derrubes de governo (como se fosse somente esse o interesse dos justiceiros de centro-direita, ajustar contas com a geringonça, em vez de ver representados os seus valores num dos órgãos de soberania) e claramente dava como garantido o voto do eleitorado de direita.

Como eu não aprecio ser tomada por certa, e gosto que me cortejem e mostrem apreciar o meu contributo, o resultado foi simples: nem me dei ao trabalho de ir votar em branco. Nas últimas eleições europeias, como a coligação PSD-CDS precisava de um severo raspanete pela deriva por uma política fiscal excessivamente gulosa e bruta com os cidadãos, também me abstive.

Nas legislativas lá fui votar na coligação PaF, decisão tomada depois de um almoço familiar em que fui – denuncio já aqui – vítima de bullying eleitoral por todos os membros maiores de idade da minha família. Ajudou-me a decidir ter percebido bem o enlevo extremista do PS de António Costa, e a preferência real que o PS tinha pela política dos partidos à sua esquerda, que não era apenas retórica da campanha para mais tarde regressar ao conforto de um bloco central. Fiz bem. O governo que saiu das eleições foi tão curto que eu não cheguei a desiludir-me com os meus eleitos.

Nas próximas eleições tenho tudo em aberto. Um dos pesos que me pode decidir a votar no PSD, ou no CDS, ou a votar em branco, serão as propostas para a parte feminina do eleitorado com que, sedutoramente, me acenem. E, claro, o destaque que lhes derem – ou, se preferirem que escolha o outro partido ou o voto em branco, se evidenciarem que as propostas existentes são apenas corpo presente porque, enfim, fica mal o vazio.

Sim, sim, parte importante das políticas que facilitam a vida das mulheres e as deixam felizes são políticas relacionadas com a família – reintroduzir no cálculo do IRS o quociente familiar, ou alargar a rede de jardins de infância e de creches (preferencialmente através de contratos de associação) seriam estrelas em qualquer programa de governo. Mas não chega.

A direita política tem de parar de tratar as mulheres como apenas entidades maternais. Em boa verdade, tem de perder os pruridos e lançar mão de um discurso feminista à direita, sem as histerias nem outras agendas socializantes que geralmente acompanham o feminismo à esquerda. A conversa tradicional dos dois partidos sobre mulheres – apoiar mulheres sim, mas feminismo não, o horror, que coisa tão pouco feminina – já não tem adesão às gerações mais novas do eleitorado de direita. Menos ainda a aversão ao discurso feminista. E se a direita quer conquistar eleitorado jovem urbano de classe media, pelo menos em Lisboa e nas redondezas (a realidade que conheço melhor), feita daqueles casais em que tanto ganha mais a xx como ganha mais o xy, em que a carreira profissional é uma ambição normalíssima das mulheres, e torcem o nariz a constrangimentos que têm muito pouco a ver com as suas qualidades intrínsecas, é bom perder as peneiras. Não chega lá com discursos legitimadores do wage gap nem das discriminações profissionais que todas as mulheres, de uma forma ou de outra, enfrentam na vida (mesmo as muito bem-sucedidas).

Sei que há quem à direita goste muito de teorizar sobre a falta de inteligência das mulheres face aos homens – sim, por cá também, não é só um energúmeno polaco, viu-se nas redes sociais por estes dias – e de justificar as desigualdades profissionais: é que nós somos mais talhadas para cozinhar, o que queremos? Não vou aqui dissecar este discurso (fica talvez para outra ocasião), mas se a direita política pensa conquistar uma jovem mulher de vinte e qualquer coisa anos com tão avassaladores elogios, então boa sorte e bom desaire eleitoral na população mais jovem urbana para a próxima eleição.

Há sinais animadores, ainda assim. O PSD tem várias mulheres que se afirmam como feministas. Teresa Leal Coelho, Teresa Morais, Sofia Vala Rocha, Mónica Ferro, Sandra Clemente e um longo etc. O CDS tem uma mulher líder e várias outras, com garra, próximas, como Cecília Meireles ou Ana Rita Bessa. E há pouco tempo li uma entrevista de Teresa Anjinho onde se declarava feminista – tanto quanto reparei, uma primeira vez no CDS. Era bom que existissem outros coming out semelhantes no CDS.

Por mim, para me convencerem a votar, os partidos de direita já sabem que caminho percorrer. É um dos fatores decisivos para o meu voto. E vejo cada vez mais mulheres à minha volta – regra geral de direita – que já perderam a paciência para o tratamento da ora invisibilidade ora maternidade que a direita nos tem dado.

Uma coisa boa veio da eleição do senhor alaranjado da Casa Branca. Foi um despertador para as mulheres. Espero que a maioria tenha percebido que o voto é importante para impedir que a misoginia se transforme em projeto político. Não vale a pena pensar que os políticos masculinos defenderão os nossos interesses se nós não os defendermos. Por isso, um magnífico critério de escolha do voto – ou da abstenção – será, para mim, o número de mulheres e o seu peso nas listas além das quotas obrigatórias. E as cabeças de listas que usem batom e saltos altos nas autárquicas.