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Poupança

A dose certa de optimismo (ou pessimismo) /premium

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Os dados da poupança em Portugal, quando ligados com a dívida do País, alertam-nos para a necessidade de moderar o optimismo.

A gestão das expectativas, os economistas sabem-no, são um importante contributo para a evolução da economia no curto prazo. O exemplo mais simples é o da bolsa: quando uma boa maioria acredita que o preço das acções vai subir, ele sobe mesmo, consequência do comportamento de compra de acções. Mas quando o optimismo se transforma em euforia temos um problema.

Uma parte da recente evolução da economia portuguesa, especialmente a que é explicada pela evolução do consumo, está relacionada com essa gestão de expectativas. O “optimismo crónico e ligeiramente irritante”, como classificou o Presidente da República, referindo-se ao primeiro-ministro, é seguramente uma variável explicativa, com peso, no recente consumismo que tomou conta do País. Excluindo obviamente o “ligeiramente irritante” que só se verá no longo prazo (sim, naquela altura do longo prazo em que se diz, como Keynes, que estaremos todos mortos, mas que afectará quem cá estiver, como já aconteceu).

Esta euforia recente observa-se de forma bastante clara na evolução da taxa de poupança. Por incrível que pareça (ou talvez não), os portugueses poupam menos agora do que na era da troika, quando foram cortados rendimentos a pensionistas e funcionários públicos e muitas pessoas ficaram sem emprego, como se viu na taxa de desemprego que atingiu um recorde, nunca visto nem esperado em Portugal, da ordem dos 18% no primeiro trimestre de 2013.

Nos anos da troika, ainda que ligeiramente, a taxa de poupança aumentou começando a descer em 2014 para atingir em 2017 (previsão) os 4,7% do rendimento disponível. Em 2013 era de 7,7%. Estes valores colocam Portugal na posição de ser o terceiro país da União Europeia que menos poupa. A Lituânia e a Letónia poupam ainda menos (não há dados para a Grécia). Entre os grandes países, o grande aforrador, sem surpresa, é a Alemanha (a taxa de poupança em 2017 terá sido de 17,3%).

Se as economias do euro estivessem com a dinâmica que garante um futuro sem problemas, os números de Portugal e da Alemanha deveriam estar trocados: os portugueses deveriam estar a poupar mais do que os alemães. Basta pensar no saldo externo de cada um dos países, mas principalmente na Posição de Investimento Internacional: Portugal em situação devedora, a Alemanha em super-credora, como bem sabemos.

São várias as razões pelas quais devíamos poupar mais para evitar problemas no futuro.

A primeira está relacionada com a Posição de Investimento Internacional e que é mais compreensível se olharmos para a dimensão da dívida do país: são 719 mil milhões de euros ou 3,5 vezes o que produzimos anualmente. Mais de metade dessa dívida é do sector privado, onde estão as famílias e as empresas (quase 400 mil milhões para cerca de 300 mil milhões do sector público).

Claro que a dívida de um país levanta problemas diferentes da dívida de uma família ou empresa. Um país pode ir gerindo a sua dívida, mas isso é verdade, parcialmente, para o Estado. O que faz com que as famílias e as empresas sejam mais vulneráveis do que o Estado a uma subida das taxas de juro. E todos temos de ter consciência que estes tempos de taxas de juro quase nulas ou negativas são uma excepção. Haverá um momento, mais cedo ou mais tarde, em que a dívida que temos pesará mais, em juros, no nosso rendimento.

O envelhecimento da população portuguesa associado a um problema no sistema de pensões que não desapareceu são o segundo grande grupo de factores que recomendariam mais poupança e menos consumo. Os futuros reformados vão ter pensões mais baixas do que os actuais: esta é uma realidade com que temos de contar, mesmo que estejamos a viver uma fase em que as condições políticas geram na população em geral a ideia de que tudo está bem.

Assim como na era da troika se pode ter ido longe de mais no discurso pessimista, neste momento pode também ter-se levado demasiado longe o discurso optimista, de que tudo vai bem. A única voz que ainda se vai ouvindo, com alertas para o facto de ainda não estarmos no “porto de abrigo”, que nos protege de crises futuras, é a do ministro das Finanças, que podia ir um pouco mais longe nesses avisos. As condições políticas não o permitem, bem sabemos.

Mas se a actual fase de expansão não for suficientemente longa para se criarem, em Portugal, as condições políticas para a adopção de medidas impopulares, para a moderação do optimismo, gerando algum medo do futuro para a subida da poupança, caminhamos para um problema igual ao que já tivemos no passado. E não vale a pena pensar que se consegue aumentar a poupança com benefícios fiscais, só alguma dose de medo é que nos faz poupar de forma visível.

Sim, a criação de expectativas positivas, em relação ao futuro, é parte do segredo do crescimento. Mas traz consigo o presente envenenado da euforia, que transforma a prosperidade de curto prazo em pesadelos no futuro. O optimismo não pode ser irritante, nem que seja “ligeiramente”. O optimismo tem de ser temperado com algum pessimismo, com preocupação com o futuro, numa economia tão endividada como Portugal.

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