Quase todas as leituras são atrasadas na medida em que, com a excepção dos livros que lemos mal saem, podiam ter sido feitas antes. Por exemplo: comecei agora a ler a Agustina Bessa-Luís. Claro que já a tinha lido em segunda mão e, aqui e ali, citada em maiores extensões (conhecia um ou outro conto mais pequeno, creio). Mas a minha leitura séria dela só começou nas últimas semanas. E vem aquela culpa típica, de não me querer perdoar por tão grande procrastinação. Talvez por isso o admita publicamente, como quem expia à frente do povo um pecado que até podia ser privado. Eis-me diante de vós, eu, um português do Século XXI, que até aqui me tinha impedido de ler uma fazedora de prodígios com a nossa língua como a Agustina.

Encho-me rapidamente de opiniões precoces acerca do génio dela. Para já concentro-me na sua opção por palavras perdidas, arcaicas ou em desuso — mas sempre lapidares. Claro que me apetece acrescentar que a opção por palavras perdidas acontece também em função da sua opção por personagens igualmente perdidas mas devo refrear-me. Nos seus primeiros “Contos Impopulares” chama-me a atenção o uso do termo “medíocre”. Certamente que a palavra “medíocre” não é uma palavra perdida porque continua a gozar de alguma popularidade. Mas quando a Agustina escreve “medíocre”, a mediocridade em causa vai além do esperado. Talvez por meu defeito profissional de pregador, sinto-lhe uma acepção espiritual. A mediocridade detectada pela Agustina nas suas personagens tem desenvolvimentos mais sugestivos.

Tendemos a tomar as pessoas medíocres como condenadas à sua própria insignificância. But no so fast. Se a mediocridade fosse um estado que desse nas vistas, provavelmente decrescia a olhos vistos. A mediocridade é uma espécie de nevoeiro suave, que se confunde com a possibilidade de chuva. A mediocridade não é tanto uma substância por si mesma, mas mais uma parasitação espiritual que se dá sobretudo nos lugares intermédios, de temperaturas amenas. Certamente a mediocridade traz uma mediania, que já é denunciada na própria palavra. Mas a mediania da mediocridade, por redundante que pareça notar isto, estraga mais do que as rasuras óbvias da imbecilidade. Nesse sentido, um imbecil é mais extraordinário e raro do que um medíocre.

Por exemplo, no conto “Míscaros”, a personagem principal, L., “era um rapaz, estudante ainda, do género que se chama original, isto é, destinado a cristalizar na elegância chocha, à custa de desejar superar a própria personalidade”. Desejarmos superar a nossa personalidade é hoje uma ladainha comum, incrível e tragicamente consensual—andamos todos à procura da melhor versão de nós mesmos, remetidos ao anglo-destino do “you do you”. E, lá está: ambicionarmos uma espécie de auto-transcendência é, nas palavras de Agustina acerca de L., de “uma elegância chocha”. A mediocridade, elegância chocha, é tão mais eficaz quanto mais suplantadora se considera. Numa entrevista em 2002, a escritora confirmava: “a mediocridade é uma forma de grandeza. (…) É melhor ser mais modesto e mais feliz, abandonar essas grandes metas que no fim de contas não interessam”.

É curioso porque o texto bíblico do Livro do Apocalipse, quando condena a mornidão, opera segundo a mesma lógica. “Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente!” (Apocalipse 3:15). Ao contrário do que pode parecer à primeira vista, os mornos em causa, integrantes da Igreja de Laodiceia, não tinham uma auto-imagem mortiça. A mediocridade espiritual deles era persistente porque lhe nascia do sentimento de auto-suficiência. Os laodicenses não eram maus por se estarem nas tintas; os laodicenses eram maus porque julgavam ter tudo o que precisavam. Do mesmo modo como no passado se tinham reconstruído de um terramoto no ano 60 AC sem precisar da ajuda de Roma, também em termos espirituais a Igreja se comportava como não precisando de nada além de si mesma.

Logo, aquilo que é mais assustador na mediocridade não é necessariamente uma preguiça evidente ou uma indiferença existencial. O que é mais assustador na mediocridade é que ela pode vir na aparência de alguma eficácia e até de grandes destinos. Uma das ideias mais surpreendentes no texto bíblico surge depois, quando é dito que aquela Igreja de Laodiceia “nem sabe[s] que é[s] infeliz!” (V. 17). Pior do que sentir infelicidade é nem sabê-la em nós—esse é um dos terríveis feitos da mediocridade. A Agustina escrevia com qualidade profética quando, notando as nossas mediocridades, as denunciava não em nudez mas em sonhadas superações tecidas. Do género que se chama original.

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