Máscaras.
Fomos invadidos e infectados por elas, como um parasita do qual não nos conseguimos libertar. Apesar da inicial resistência heróica de alguns, rebeldes de face à mostra, em supermercados cheios de anónimos mascarados, acabámos derrotados pelas normas, impostas sem apelo nem agravo. E tornámo-nos todos mascarados invadidos.

Máscaras.
Vejo-as agora por todo lado, dependuradas das caras das pessoas. O meu ódio é imenso contra estes usurpadores da humanidade de uma face exposta. Que saudades de uma face livre!

Mas a esperança é a última a morrer. O nosso povo é resiliente e imaginativo em último grau. E não parece haver circunstância, ameaça, crise ou agente infeccioso que elimine essa sua capacidade.
A emancipação das máscaras já está entre nós. Em formas diversas de rebeldia. E é evidente à observação do mais incauto. Reparem.

Os certinhos.
Há os muito certinhos, que cumprem todos os preceitos da colocação da máscara, bem justa ao nariz e encostada aos olhos e depois esticada até bem abaixo do queixo. E usam a máscara sempre, sempre, sempre. Vejo-os a conduzir o seu próprio carro, de máscara posta, sozinhos e sem mais ninguém. E vejo-os a andar pela rua, por vezes famílias inteiras, pai, mãe e filhos pequenos, tudo de máscara no rosto. Penso que alguns até as usam dentro de casa e no WC.

Nariz à solta.
Há os de nariz de fora. Talvez pela queda progressiva da máscara, talvez pela sensação de aperto respiratório ou pelos óculos embaciados, o facto é que se observa com elevada prevalência a libertação do apêndice nasal, qual náufrago acabado de emergir das profundezas onde se afogava. O limite superior da máscara situa-se agora imediatamente abaixo desta proeminência. A máscara ainda tapa a boca e queixo e grande parte do rosto continua indecifrável. Mas o nariz à mostra, desproporcionadamente grande, já é evidência inegável de uma emancipação imparável.

A boca libertada.
A máscara está presa no queixo, abaixo da boca. Já o rosto está quase todo liberto e se percebem expressões faciais e se reconhecem os amigos. A voz deixa de estar abafada e podemos falar com um volume normal. A esperança é grande!

No pescoço.
Esta é uma das formas de emancipação mais habituais nas minhas observações. Ninguém poderá dizer que a máscara não se encontra presente, muito embora apenas sirva para tapar o envelhecimento cutâneo do pescoço. E todas as saliências faciais se esticam, felizes, a apanhar o nosso Sol, nariz e boca e queixo ao léu.

Acessórios de moda.
Há os que usam a máscara mais como um acessório de moda, com estéticas variadas e originais e modos infinitos de utilização. Vejo-os com a máscara-brinco, solta de uma das orelhas, dependurada apenas da outra, de lado, negligentemente a baloiçar ao vento. Acessório de moda moderno-psicadélico. Vejo-os com a máscara-pulseira, a mão a entrar pelos elásticos, deixando a máscara presa no pulso, oscilando com o andar. Ou com a máscara no cotovelo, mais acima, posta no ângulo do braço. Sempre prontas a serem rapidamente recolocadas no rosto em caso de inspecção pelas autoridades.

No bolso.
A emancipação é quase total. A máscara, dobrada, é visível no bolso da camisa ou das calças, negligentemente abandonada e esquecida.

No chão.
Depois, é vê-las por aí, pelos passeios e faixas de rodagem, jardins e canteiros públicos. Caídas e derrotadas finalmente, já sem poder ou controlo sobre nós. Pesadelo sem remédio de ambientalistas e ecologistas.

Máscaras.
Adereços cujo uso generalizado por pessoas sem sintomas não tem evidência de qualquer utilidade, podendo mesmo ser prejudicial. Mas que, mesmo assim, foi decidido impor de forma obrigatória.

O que vale é que o senso prático de quem decide por si próprio é muitas vezes superior ao de quem decide pelos outros. É assim o povo português, sempre muito à frente, à frente dos seus governantes, da DGS e da OMS, da Ordem dos Médicos e do Conselho das Escolas Médicas Portuguesas, de normas ridículas e sem eficácia.

E é por isto que a capacidade inventiva e adaptativa do povo português é infinita e não cessa de me maravilhar.

Eu sei. Eu sei. Mais vale prevenir que remediar. Mais vale pecar por excesso. O seguro morreu de velho.
Mas sempre odiei estas expressões que, levadas ao exagero, são impeditivas do normal viver seja de quem for. Não sei se o seguro morreu de velho. Mas sei que morreu sozinho, fechado na sua casa, de máscara, viseira, luvas e álcool-gel, abandonado e sem ver ninguém.