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Para quem só tem um martelo, todo o problema é um prego.
(Abraham Maslow)

Em 2020, consequência da pandemia, a poluição reduziu. A explicação é simples: país atrás de país, o nosso não foi exceção, optou por decretar quarentenas aos seus cidadãos, fechando fronteiras, proibindo voos, deslocações e grande parte da laboração. O resultado foi uma emissão substancialmente inferior de vários poluentes, GEEs incluídos.

Não obstante, qualquer entusiasmo esmoreceu com a revelação desta semana: apesar da redução, a Terra está febril. Com efeito, 2020 terá batido recordes: globalmente estamos 0,03°C mais quentes! O responsável pelo estudo recém-publicado na Geophysical Research, Andrew Gettelman, aponta a razão para o aquecimento: o impacto da queda de CO2 é superado pela redução de partículas (uma vez que estas permanecem apenas uns dias na atmosfera, ao passo que o dióxido de carbono perdura por várias décadas).

O fenómeno, designado por “Escurecimento Global”, é bem conhecido desde meados do século passado. Foi mesmo proposto em 2018, como resposta ao aquecimento global num exercício patrocinado por Bill Gates. O que acontece, é que a poluição reduz a quantidade de radiação direta que atinge a superfície terrestre (tal como a queda de um corpo celeste ou uma erupção vulcânica. Grandes eventos estudados, tanto num sentido como no contrário, foram a erupção, em 1991, do Pinatubo ou o vazio de aviões no 11 de Setembro de 2001). O efeito de arrefecimento tem, aliás, mascarado as reais temperaturas globais e a sua redução nas últimas décadas, em virtude de menores níveis poluentes, e pode até ter contribuído para o ritmo de aquecimento mais recente.

Ficamos assim numa encruzilhada.

Podemos alegar que, no longo prazo, o saldo será positivo. Mas isso é muito falacioso: mais calor pode significar maior evaporação, aumentando o principal GEE, espante-se, o vapor de água; por outro lado, mais nuvens também significam menos radiação e uma possível variação na precipitação, o nosso “sistema de arrefecimento”, pode resultar positiva ou negativa.

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Em 1844, o filósofo Auguste Comte procurava um exemplo de um tipo de conhecimento que estivesse sempre oculto. Escolheu a composição de estrelas e planetas distantes. Mas apenas três anos após a morte de Comte, descobriu-se que um espectro pode ser usado para determinar a química de objetos distantes (in Cosmos, Carl Sagan).

É em pensar que sabemos tudo, que está o erro. Mas teimamos em acreditar em modelos matemáticos sobre realidades apenas parcialmente compreendidas. Sabemos muita coisa sobre a nossa atmosfera, como sabemos de epidemiologia. Mas as variáveis, algumas mal conhecidas, são muitas, e os modelos para o novo coronavírus, de Buescu ao Imperial College, mostram bem o quanto estes exercícios podem estar desligados da realidade, normalmente muito mais complexa que apenas martelos e pregos.

Uns, como os outros, sopram as trombetas do apocalipse. E como dizia Alexandre Herculano, o medo é o pior dos conselheiros. Tal medo leva à cegueira e fundamentalismo, ameaça, quiçá mais que o próprio clima, o nosso futuro, fomenta negociatas verdes e legitima, além de discursos autoritários, muita destruição ambiental em nome do ambiente.

Acima de tudo, usemos a cabeça, ponderemos as soluções nas suas múltiplas consequências e impactos, discutamos alternativas, porque o lobo será sempre mau se apenas ouvirmos a capuchinho vermelho. Afinal de contas, como diz Gettelman, “o ar limpo aquece um pouco o planeta, mas mata muito menos pessoas pela poluição do ar”.