Não deixa de ser confrangedora a forma como a opinião publicada se esquece do que importa e vai na onda. Em Portugal o fenómeno tem sido gritante desde finais do século XX. Nessa altura o país iniciou um sinuoso percurso até perceber que o dinheiro para o Estado social começava a faltar. Digo sinuoso porque interrompido por questões paralelas. Foi a regionalização, o aborto, a identidade do género e agora a eutanásia. De cada vez que os problemas que afectam a população vêm ao de cima (actualmente a falta de serviços de saúde, o mau estado dos hospitais, demissão em bloco de chefias médicas, falta de serviço de urgência hospitalares, e por aí fora) o poder político e a opinião publicada largam a cartada das causas fracturantes.

O que interessa é distrair. E, assim, a classe política e boa parte do pequeno mundo que vive e levita junto do poder discute um assunto com a complexidade da eutanásia, que a aplicar-se será a uma parte ínfima da população. Políticos e governantes em vez de fazerem o trabalho para que foram eleitos e discutirem a melhor forma de resolverem os problemas concretos dos cidadãos andam numa azáfama sobre se o Estado deve permitir que os médicos matem quem, eventualmente, queira morrer.

Imagino que a maioria das pessoas não se deixa distrair e esteja estupefacta. Imagino também que daqui a uns anos, quando a dívida nos cair em cima como caiu em 2011, nos vamos pôr a pensar o que andámos a fazer para estarmos tão distraídos. O país, no qual incluo também Lisboa porque Lisboa desde que recebeu quem veio da província para a capital também já é parte integrante do país esquecido, está economicamente estagnado, o emprego que se cria é precário, não é qualificado, a emigração mantém-se em níveis muito altos, a dívida pública aumenta apesar de a propaganda nos dizer que está tudo óptimo. Existe um desfasamento brutal entre o que os políticos nos contam e o que os cidadãos sentem. E este desfasamento um dia far-se-á sentir em eleições.

Não é difícil fazer uma projecção deste género porque é o que tem acontecido pelo mundo fora. Ao contrário do que nos quer fazer crer a classe política e a opinião publicada que ronda o regime, Portugal não é um país muito diferente do resto do mundo. Não somos assim tão excepcionais. Não deixa, aliás, de ser deprimente ver os políticos da democracia a seguir os mesmos vícios dos políticos da ditadura. Mas adiante. Como dizia, este desfasamento entre as classes dirigentes e os cidadãos não é exclusivo nosso. Aconteceu nos EUA, no Brasil, no Reino Unido, em França, na Itália, em Espanha, na Irlanda e até na Alemanha. E o que é que sucedeu nesses países? Trump, Bolsonaro, Brexit, Marine Le Pen, Vox, Matteo Salvini, Sinn Féin e AfD. Ainda há oito dias referi o aviso que veio da Irlanda em que o governo e o maior partido da oposição estavam convencidos que os Irlandeses tinham certas preocupações para descobrirem, no dia das eleições, que os problemas dos eleitores eram outros.

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À semelhança do que sucedeu nesses países, Portugal anda distraído com causas que a nova esquerda impõe à agenda política. Desde que perdeu o proletariado e a classe trabalhadora, a esquerda faz o que pode para trazer para o debate político temas fracturantes. Assuntos que abalem a confiança moral que as democracias liberais conquistaram com a queda do bloco comunista. Conseguiu. E porque o conseguiu as democracias liberais deixaram de discutir o que interessa (os reais problemas dos cidadãos) para se centrarem exclusivamente em assuntos de segunda ordem, que merecem ser tratados e resolvidos, sem dúvida, mas sem a projecção que têm e com naturalidade que não lhe atribuem. Os temas do aborto e da eutanásia não são choques civilizacionais mas a continuação da nossa civilização. A sua discussão não serve para destruir, mas para aperfeiçoar o nosso mundo.

Entretanto, a direita foi atrás. Nos países referidos e também em Portugal. Por isso, Trump bateu os demais candidatos republicanos, Bolsonaro trucidou a oposição a Lula, Dominic Cummings conseguiu o Brexit e a vitória dos conservadores no norte da Inglaterra, o PP em Espanha anda aflito, e a CDU alemã não sabe como agir perante o AfD. Por isso, André Ventura está em crescendo. Aliás, é interessante reparar que Ventura não se aproveita do tema da eutanásia porque não foi imposto por ele. Ventura (personagem cujas ideias me arrepiam) só fala do que ele próprio coloca em cima da mesa do debate político. Essa é uma lição que a direita devia tirar: impôr a agenda. Quando a esquerda escolhe a eutanásia, a direita deve apresentar medidas concretas e inovadoras para a saúde; quando a esquerda fala da identidade do género ou da religião, a direita apresenta uma reforma radical da lei do arrendamento. Quando a esquerda se cansar de discutir o arrendamento, a direita avança com uma reforma da lei laboral. E quando a esquerda se cansar disso também, a direita fala dos limites constitucionais ao endividamento. Sempre que a esquerda acusar a direita de falta de solidariedade, a direita lança para cima da mesa o estado dos hospitais públicos e o número de pessoas que morrem nas listas de espera. E quando a esquerda perceber que está a perder o pé, a direita defende sem tabus a liberdade de escolha das escolas públicas. Não somos todos defensores da liberdade? Chama-se a isto pôr a esquerda na defensiva. Ou a política não é um combate? É que se o PSD de Rui Rio considera que não, André Ventura acha que sim. E se não quisermos ser governados por um Trump, um Bolsonaro, pelo Vox ou um Salvini é bom que o PSD se ponha a mexer.