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Socialismo

A esquerda não é alternativa

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Os historiadores irão olhar para a crise como a segunda morte das ideias socialistas. O socialismo marxista morreu em 1989 e o capitalismo de Estado, que tanto agradava aos socialistas, morreu em 2011

Dois meses de tragédia grega mostraram o óbvio a toda a Europa: o Syriza não tem programa de governo – ou se o tem, está a escondê-lo. Até agora, o governo grego limitou-se a fazer três coisas. Passeios pela Europa, com a imprensa atrás. Pedir mais dinheiro à Europa. E prometer mais receitas. Pelo meio, a população tirou mais dinheiro dos bancos gregos do que em 2012, no auge da crise. Entretanto, a Europa espera por uma lista de medidas concretas desde 20 de Fevereiro.

Mas sem programa, o Syriza vê-se aflito para produzir uma lista de políticas de governo. Promete mais eficácia fiscal, mas ironicamente nunca os gregos fugiram tanto aos impostos como desde que o Syriza foi eleito. E prometeu igualmente aumentar o IVA. O aumento desesperado de impostos apenas mostra a ausência de políticas.

No entanto, há no Syriza quem tenha um programa político. A retirada do país do Euro, nacionalizações e colectivização da economia. Ou seja, o velho socialismo que levaria o país a mais empobrecimento e a uma miséria albanesa. Ninguém se atreve, contudo, a falar abertamente desse programa. Todos no Syriza sabem que os gregos rejeitariam tal programa, por isso se o impuserem será às escondidas e aproveitando o desespero da maioria da população. Os gregos não querem mais austeridade, mas querem o Euro e certamente não desejam o socialismo. Gostavam simplesmente de regressar à vida anterior a 2010.

A grande crise financeira de 2007-2012 não trouxe de volta o socialismo. Eis o grande problema da esquerda. Os seus partidos podem ganhar eleições, como resultado da insatisfação com os partidos de direita. Mas ganham sem um mandato socialista e sem um programa alternativo ao da direita. A maioria dos europeus não vê no velho socialismo uma alternativa à maior crise do capitalismo desde o pós-Guerra. Os europeus podem querer um capitalismo diferente, mas querem economia de mercado, rejeitam colectivizações e perceberam, por fim, que são os contribuintes que acabam a pagar o ‘capitalismo de Estado’. A grande questão para a esquerda social-democrata é óbvia (mas de resposta difícil): como construir uma alternativa à direita que aposte na economia de mercado e não nos monopólios do Estado? Foi o capitalismo de Estado do sul da Europa que faliu em 2011, não foi a economia de mercado.

Vejam o exemplo de França. Tal como na Grécia, Hollande chegou ao poder por causa da insatisfação dos franceses com a direita e com Sarkozy, mas sem um programa de governo alternativo e sem um mandato socialista. Bastaram dois anos para perceberem o ponto central: não é o Estado que cria riqueza, mas sim o mercado e a iniciativa privada. O que em França, e sobretudo no partido socialista, constituiu uma revolução. Não é exagero afirmar que o governo socialista de Valls e de Macron está a produzir a maior revolução no pensamento económico dos franceses.

Os historiadores no futuro irão olhar para a crise financeira como a segunda morte das ideias socialistas no final do século XX e no início do século XXI. O socialismo Marxista morreu em 1989 e o capitalismo de Estado, que tanto agradava aos partidos socialistas, morreu em 2011. Enquanto os partidos socialistas não reconhecerem a realidade, os seus programas de governos não deixarão de ser uma má cópia dos da direita.

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