A eleição de Donald Trump como 45º presidente dos EUA foi mais comentada nas redes sociais e meios de comunicação social, por mais gente e em menos tempo, do que qualquer outra notícia recente (e talvez até do que qualquer outra notícia).

Há razões para isso, pois seja qual for a perspectiva por que se encare e qualquer que seja a posição em relação a Trump, trata-se de um acontecimento com impacto global de grandes dimensões, um terramoto político de imprevisíveis consequências:

Os apoiantes do magnata considerá-lo-ão um evento sísmico positivo, capaz de derrubar o sistema político corrupto que odeiam, de frear o processo de globalização e de devolver aos EUA a glória passada atrás dos muros que Trump prometeu erguer ou restaurar: proteccionismo económico, barreiras à imigração, redução dos compromissos internacionais (vg. Nato), negação do aquecimento global. Liberal só quanto às armas, que o novo Presidente quer ver nas mãos de todos, simples armas de protecção pessoal ou até de guerra.

Os opositores, naturalmente, opõem-se a tudo isso e à agenda que fez eleger Trump. Não vale a pena percorrer o cardápio das críticas, que vão da expulsão massiva de imigrantes ilegais à aliança com a Rússia no plano internacional – em particular na Síria -, passando pelos acordos de comércio livre e a já referida agenda ambientalista, ou mais precisamente a sua implosão.

Neste frenesim opinativo, os comentadores atropelam-se e já não sabem mais do que falar. Há análises para todos os gostos sobre as razões da vitória, com ênfase num mistério: como foi possível a opinião pública norte-americana – e a jusante o eleitorado – ter desvalorizado aspectos da vida de um candidato que, no passado, poriam termo a qualquer hipótese de vitória? A relação imprópria (ilegítima ou ilegal, a escolha é livre) com mulheres não foi suficiente para impedir a vitória de Trump; o mesmo se dirá da questão fiscal, das mudanças de opinião ao sabor das circunstâncias, dos episódios públicos de todos conhecidos.

Trump ganhou e a sua vitória faz parte de uma tendência global anti-globalização favorável a programas e candidatos populistas, anti-sistema (qualquer sistema político das democracias), anti partidos: poucas vezes um candidato de um dos dois partidos dominantes nos Estados Unidos terá sido tão pouco consensual entre os seus correligionários (talvez nem Reagan, certamente não Obama). Trump ganhou e a sua vitória pode contribuir para reforçar a tendência referida e catapultar candidatos populistas e anti-sistema. Trump ganhou, e a sua vitória tem de ser (democraticamente) respeitada; em vez de comentar o que sucedeu, devemos agora começar a olhar para o que se passa e pode passar. Para o futuro.

Pela minha parte, e por hoje, apenas duas observações:

Em primeiro lugar, ou Trump cumpre, se não todas as promessas, pelo menos um número substancial; ou não as cumpre, salvo um ou outro caso “para eleitor ver”, suaviza-as, adia-as, cerceia-as do essencial, cumprindo o antigo princípio segundo o qual “um candidato é radical até deixar de o ser (candidato), por se ter tornado titular” (presidente, ministro, o que for).

É difícil saber o que fará e muitos o têm frisado, entre loas às suas virtudes ou manifestações contra os seus vícios; mas há já sinais que apontam para que, salvo uma ou outra concessão, Trump não deixará de seguir a sua agenda. E se admitiu, ainda sob o feitiço da reunião na Casa Branca, salvar um aspecto ou outro do Obamacare, certo é também manter a intenção de o substituir por medidas que alargarão o número de pessoas sem seguro de saúde no país; confirmou a intenção de expulsar rapidamente – não esclareceu se “manu militari” – 2 ou 3 milhões de imigrantes ilegais “bad boys” (assassinos, ladrões ou traficantes, não se sabendo se estão livres, se na cadeia, se foram condenados ou são apenas suspeitos); mantém como prioridade a agenda anti-globalização, sendo previsível que cedo denuncie alguns acordos comerciais; reafirma o alinhamento com Putin na Síria; e tem pressa de retirar o país dos Acordos de Paris, dando um golpe fatal na luta contra as alterações climáticas.

Além disso, e sem fazer disso segredo, Trump já recebeu Nigel Farage, líder do Ukip e “pai” do Brexit, primeiro político estrangeiro a ter essa honra, e está em contacto, pelo menos a crer na própria, com Marine Le Pen, para uma “cooperação” que ambos pretendem “frutuosa”.

Veremos, pois? Pois não; e essa é a minha segunda observação.

No caso da Europa, esperar para ver não é opção. A eleição de Trump, vitorioso no colégio eleitoral apesar dos 3 milhões de votos a menos do que a sua rival, é um sinal forte para que a União Europeia, no meio da crise existencial que arrasta há quase uma década, perceba de uma vez por todas a importância da democracia, o seu mais precioso bem. Vale a pena lutar por ela. A deriva para o populismo e o iliberalismo não é inevitável. E o continente europeu terá de se reformar com urgência, recuperando o orgulho próprio à pátria da democracia (com raízes duas vezes e meia milenares), contando consigo e com as suas próprias forças.

Para recorrer ao chavão tantas vezes utilizado e por isso mesmo desvalorizado, a vitória de Donald Trump na América é uma oportunidade valiosa, talvez a última, para que os europeus ponham mãos à obra e enfrentem os seus próprios medos e insuficiências, reformando-se.

A Europa, e em particular a UE, tem de se reformar com urgência; de corrigir os vícios dos seus sistemas políticos, enfrentando a rigidez e entropia dos partidos tradicionais, demasiado viciados no seu (autista) jogo, a ponto de se terem transformado nas facções que os pais da democracia americana temiam mais que tudo; dos políticos que, em diáfana contemplação dos seus próprios umbigos vislumbram apenas os interesses respectivos, incapazes de entender a insatisfação da maioria dos seus cidadãos. Se a Europa não o fizer, e depressa, o populismo triunfará e mil Le Pen brotarão das urnas em pedaços do sistema democrático.

A Europa, e em particular a UE, tem de afirmar com orgulho os seus valores, sem medo de enfrentar, publica e corajosamente, os inimigos do sistema liberal (não confundir com neo-liberalismo) que os pais da democracia moldaram à medida da ambição dos seus povos, amantes da liberdade e da justiça. Um sistema em que a liberdade, a igualdade e o respeito pelos direitos inalienáveis de cada cidadão vão a passo igual (“pari passum”), pilares que são da sociedade humana do século XXI; e é importantíssima a igualdade, não a dos amanhãs que cantam mas a que assegura a dignidade dos povos, numa relação equilibrada e justa.

E a Europa, em particular a UE, tem de contar com as suas próprias capacidade e recursos, seja para lutar contra a imigração ilegal, seja para controlar os fluxos, sobretudo os massivos, de refugiados, seja ainda simplesmente na questão da segurança, interna como externa; não pode o velho continente continuar eternamente a contar com a ajuda de terceiros, isto é, para ser claro e directo, dos EUA. A factura pode demorar tempo a chegar, mas chega sempre.

Vivemos de novo uma Era de Emoções, como em tantos períodos da História do Ocidente e da Humanidade em geral. E quando as emoções comandam, seja em referendos despropositados e pouco democráticos (vidé o excelente artigo de Vítor Bento), seja em eleições baseadas em promessas sonantes mas vagas, perde a razão e enfraquecem-se os valores. “Um dos grandes problemas do nosso Tempo é sermos governados por pessoas que pensam mais em emoções do que em pensamentos e ideias”. Sabem quem o disse? Uma tal Margaret Thatcher.

E se Donald Trump fosse a melhor coisa que podia ter acontecido à Europa?