Os ataques de Conflans-Sainte-Honorine e Nice, onde morreram Samuel Paty, e ontem, três pessoas, foram perpetrados, cada um deles, por um só homem. Porém, nenhum dos responsáveis por estes assassinatos está sozinho. Mesmo sendo acções individuais, são acompanhadas e validadas pelo radicalismo que defende o ódio, a vingança e a morte como ferramentas de suporte à religião islâmica – ou a pretexto desta. Confundem-se com ataques pontuais, isolados, espontâneos, não são. São a consequência de anos da progressiva islamização da Europa, subtil, sistemática, programada.

Estima-se que na Europa haja, actualmente, entre dezasseis a vinte milhões de muçulmanos – destes, cerca de sete, oito milhões, ter-se-ão fixado no leste e nos balcãs após a queda do império otomano, são comunidades antigas. As mais recentes, chegaram, e chegam à Europa, por diferentes razões e com diferentes motivações: as descolonizações dos países africanos e asiáticos, nos anos cinquenta, justificam uma parte da migração para os países ex-colonizadores, como a França, Holanda, Grã-Bretanha. Grande parte destas populações tinha alguma relação com os países de destino. Já o movimento actual de migrações, resulta da fuga à guerra ou às condições miseráveis nos países de origem, sendo uma população mais pobre, com menos formação e instrução, sem outros projectos senão o de sobreviver – e um projecto de vida é fundamental para nos estruturarmos numa ideia de futuro.

Entre o primeiro movimento migratório, o dos anos sessenta, e o segundo movimento migratório, dos anos noventa em diante, passaram décadas de expansão de princípios fundamentalistas da religião muçulmana subsidiados pela Arábia Saudita.

A Arábia Saudita é um país que nasce de um acordo entre Muhammad ibn Abd al Wahhab – fundador do movimento wahabita, puritano e seguidor da letra da lei, defensor da guerra contra todos os que não partilham da sua visão religiosa, mesmo se muçulmanos – e Muhhamed Ibnu Saud, fundador do primeiro estado saudita. Este defendia militarmente a região, e Wahhab oferecia-lhe legitimidade religiosa através da educação da população com base nos ensinamentos do islão, interpretados à letra, de forma rígida. Estado e mesquita alinhados no mesmo discurso intolerante e na prática rigorosa da fé.

Nos anos setenta foram investidos milhões pela Arábia Saudita na educação religiosa, na abertura de formação superior para alunos estrangeiros, na construção de mesquitas dentro e fora do país, na impressão de milhões de exemplares do Corão que foram distribuídos gratuitamente, com o objectivo de disseminar esta visão radical do islão. O que, em simultâneo, impedia que os muçulmanos europeus se laicizassem ou desvinculassem do islamismo, ou aderissem a expressões mais progressistas da religião reforçando o seu conservadorismo. A exportação wahabita aumentou a cisão entre culturas com fatwas como as contra a vacinação da poliomielite ou a proibição dos direitos da mulher, e intensificou os discursos fanáticos de ódio, escudados pelo pensamento jihadista como verificado com a fatwa contra Salmon Rushdie.

E aqui estamos, na Europa, no momento em que a religião islâmica se confunde com fundamentalismo islâmico, em que o espaço de liberdade se vê cercado por radicais assassinos com uma visão única da religião. A visão que prevaleceu nos ataques de Conflans-Sainte-Honorine e de Nice.

A diversidade é fundamental ao desenvolvimento. Acontece na genética, como no pensamento. O espaço livre e laico em que a Europa se converteu, e que é em simultâneo o abrigo das liberdades religiosas, está a ser aproveitado para a imposição de um novo paradigma, o da sujeição pelo terror, em que matar não só é permitido, como incentivado.

A França reagiu. Mas é preciso mais, é preciso que a Europa o faça também. Que mostre, sem margem para equívocos, que tolerância não é o mesmo de permissividade. É preciso que a Europa reconheça o problema: tentar integrar a diversidade étnica e cultural, sem impor limites de cidadania, custa vidas. Custa a vida dos que defendem a prática da liberdade.

Estará a Europa pronta?