Já lemos muitas vezes nas últimas semanas que estas serão as mais determinantes eleições para o Parlamento Europeu desde 1979, ano das primeiras diretas. É verdade, e há quatro razões para isso:

O mundo mudou: como sugerido a semana passada, o sistema internacional tornou-se muito menos favorável a estados democráticos. Se antes, mesmo nas eleições anteriores, a Europa pertencia a um clube de estados com valores comuns, essa realidade mudou drasticamente. Estas eleições também são sobre a defesa e a manutenção da democracia liberal e do modo de vida europeu. Ainda que não de uma forma dicotómica, como se vai explicar à frente.

Os partidos antiliberais cresceram. Há de várias denominações e feitios, com duas características comuns: ideologias que vão do severo euroceticismo ao antieuropeísmo. Ainda que haja diferenças fundamentais entre si; há também uma determinação que os une: transformar a União Europeia por dentro num outro projeto político em que a liberdade individual é substituída pala causa comunitarista nacional – mais ou menos radical.

A sua eleição em números consideráveis – o que é provável – poderá operar mudanças significativas, desde logo, nas nomeações para a Comissão. Só para dar um exemplo, a figura do spitzenkandidat criada em 2014, não está consagrada em texto jurídico nenhum. É simultaneamente um acordo de cavalheiros, celebrado pelo PPE e pelo PSE, para apresentar um candidato de cada partido consensual entre os membros da família política antes das eleições para que o presidente do órgão máximo da UE pudesse estar associado à campanha eleitoral. Tornava-se presidente quem conseguisse o maior número de votos na família política europeia. O que nos leva ao terceiro ponto.

A fragmentação político-partidária vai aumentar. Esta escolha prévia dos spitzenkandidaten fazia sentido quando o PPE e PSE tinham, em conjunto, maioria absoluta. Não é provável que isso aconteça desta vez. Não só o ALDE (a família liberal) vai ter um crescimento assimilável, principalmente se o Republique En Marche, de Emmanuel Macron, se lhe juntar, como os eurocéticos – ou pelo menos uma parte significativa deles – tenderão a formar uma família única (ainda que dificilmente muito coesa) que tenderá a funcionar como uma espécie de força de bloqueio. Esta fragmentação significa que as instituições serão muito mais fracas e que compromissos e consensos, seja de que ordem forem, serão muito mais difíceis de obter.

Crescem diversas tensões na Europa. A Europa está dividida. No nosso caso particular, não diria polarizada, porque me parece – até pela descrição acima – que não se trata de uma dicotomia como em muitos outros casos por esse mundo fora, mas de um quadro mais complexo, em que se criaram partidos “centristas” novos com bons resultados eleitorais, em que partidos extremistas, com diferenças significativas entre si, vão ter uma votação expressiva, e em que é palpável a decadência dos partidos moderados, especialmente dos sociais-democratas (por razões alheias ao crescimento de outros, como explica Cas Mudde num ensaio publicado há uns dias no The Gaudian).

Isto implica que, depois das eleições, serão precisas reformas de fundo para que o projeto europeu não desapareça. Agora, se essas reformas se realizam, ou que tipo de reformas irão ter lugar, está profundamente dependente de quem for eleito. Mas também é certo que o facto de as memórias de guerra se terem praticamente apagado não ajuda a reconhecermos que o bem comum mais importante que o projeto europeu nos trouxe foram sete décadas de paz e estabilidade, prestes a entrar, oficialmente, em disrupção. Por isso, mais do que nunca é importante participar. Por muitas desilusões que tenhamos tido ao longo da última década.

Independentemente das ideias de cada qual, uma coisa é certa: votar nas eleições para o Parlamento Europeu é crucial. Passamos cinco anos zangados com a Europa porque ela é distante dos cidadãos, mas no dia em que podemos fazer alguma coisa para mudar isso, ficamos comodamente em casa. Desta vez com riscos acrescidos.