Tenho escutado e lido, com uma frequência progressivamente crescente, sobretudo nas redes sociais, mas não só, sobretudo com ingenuidade, mas não só, sobretudo por quem não ocupa cargos de especial relevância, mas não só, sobretudo por quem não tem maldade, mas não só, que a Enfermagem é ‘amor e carinho’. E esse pressuposto não pode deixar de ser contrariado, já que tenho para mim que a persistência pela defesa dessa orientação tem contribuído para a dificuldade de fazer passar a ideia de que, hoje, os enfermeiros são profissionais altamente qualificados e diferenciados, devendo por via disso ser adequadamente reconhecidos e valorizados.

Não significa isso que se renegue o passado e a história, mas a compreensão que devemos ter do percurso, nosso e de outros, exige que nos coloquemos explicita e reiteradamente na defesa de um exercício profissional, ensinado em instituições de ensino acreditadas. Com um saber próprio, desenvolvido pela investigação e com competências únicas que aportam ganhos em saúde para as pessoas concretas.

E aqui não posso deixar de citar Abel Silva, quando em 2007 clarificava a importância da assistência em áreas de extrema e crescente relevância, e que são do domínio do que é ser enfermeiro. Como ajudar as pessoas dependentes no autocuidado, no domicilio, a adquirir competências que as ajudem a ser mais independentes e/ou autónomas; ou os seus cuidadores, já que a falta dessa preparação irá ter consequências diretas na qualidade de vida dos próprios, mas também indireta no Estado, com custos que advêm de readmissões hospitalares pouco tempo após o internamento inicial, por exemplo. No livro ‘Fora da zona de conforto’ que aborda a emigração dos enfermeiros, pode-se constatar isso mesmo, quando uma enfermeira dá conta da sua dificuldade em agir profissionalmente, pelo handicap da língua: «Como fazer uma boa educação para a saúde? Como preparar o prestador de cuidados se mal conseguimos articular algumas palavras» (p. 101). Ou a ajudar a mãe/pai na aquisição de competências para o exercício do papel parental, entre outros que mostram o que é a profissionalização da Enfermagem no século XXI.

Quando procuramos um profissional, seja de que área for, com uma especial relevância na saúde, queremos, obviamente, que ele seja preferencialmente uma boa pessoa, aspeto que advém da educação que lhe foi dada desde tenra idade e que é um atributo pessoal, mas queremos particularmente um que exerça o seu mister com conhecimento e competência.

Professor na Escola Superior de Enfermagem do Porto, autor de ‘Fora da zona de conforto’