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A febre do “nearshore” em Portugal: queremos mais ou melhor?

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Queremos bater-nos por custos laborais competitivos, correndo o risco de nova deslocalização quando surgir outro país mais barato? Ou queremos desenvolver uma indústria que concorre por Valor?

A moda de trazer centros de Nearshore para Portugal continua e, como tal, é legítimo que empresas como a Google, a Amazon e outras multinacionais procurem o nosso país para instalar os seus serviços. Mas…, mas já lá vamos!

No centro das vantagens, temos o talento competente numa determinada área, a boa capacidade linguística em idiomas estrangeiros, as boas comunicações e plataformas tecnológicas do país receptor, a proximidade cultural, a eventual proximidade geográfica e os “custos laborais competitivos… e é neste ponto que, como canta Dengaz, “Tudo Muda”: “Pa parar pa pensar, / Pa não ver só a vida a passar, / É passar a vida toda a tentar, /Aproveitá-la antes dela mudar”.

É aqui que precisamos de fazer uma escolha: queremos bater-nos por custos laborais competitivos, correndo o risco de nova deslocalização daqui a alguns anos quando surgir outro país mais barato? Ou queremos desenvolver uma indústria que concorre por Valor e que se mostra resiliente às modas dos custos laborais competitivos?

Há uns dias, na empresa onde sirvo, a equipa executiva assistiu a uma apresentação que teve como mote a capa de um álbum dos anos 90. Desde então, este tem servido de inspiração para muitas das nossas dinâmicas: o que queremos como resultado no nosso trabalho: que seja BiggerBetter? Faster? Ou More? Ou seja, maior, melhor, mais rápido ou mais?

A tendência de quem esteve presente seria: “queremos todos ao mesmo tempo”. No entanto, o grupo que fez a exposição teve a capacidade de disciplinar a equipa executiva e fazer-nos perceber que, sim, podemos ter todos, mas em timings diferentes e numa ordem muito específica. Pareceu-nos certo este modelo de pensamento, para alguns dos grandes temas que estamos a endereçar e parece-me que Portugal também se deve questionar sobre o que quer para os próximos anos, em especial da indústria de TIC.

Sabemos que os dividendos mediáticos de parecer Bigger, trazendo qualquer tipo de Nearshore para Portugal, alimentam os egos e até certos resultados de curto prazo de algumas empresas, e também da economia portuguesa. Mas… (sim, aqui está o “mas”) a questão é: que tipo de trabalho estamos a criar? E depois: que tipo de Nearshore devemos querer para Portugal?

Há uns anos, um empresário português da indústria do calçado, homem de visão, dizia-me o seguinte: “sabe que eu cedo percebi que tinha de ter uma marca para competir com os melhores. Essa coisa de vender porque somos mais baratos… está a ver no que deu! Podemos até vender para outras marcas mais conhecidas e de luxo, mas temos de lhes levar inovação, algo pensado por nós e criado aqui, em Portugal”.

Agora, imagine o leitor que, numa fábrica como esta, o empresário vendia apenas as horas efetuadas pelos trabalhadores fabris, em vez de vender o sapato com todo o valor acrescentado e com a propriedade intelectual associada ao desenvolvimento de cada modelo. Estaríamos apenas a remunerar o trabalho indiferenciado. Mal! Porque nunca a transferência do trabalho “a metro” poderá ser tão valorizada como a transferência da cadeia de valor completa por um produto, por um serviço ou por uma ideia.

Sabemos o fim desta história: na indústria do calçado, só os melhores vingaram. E os melhores foram os que deram prioridade ao Better e não ao Bigger. Começar com o Better levou ao Bigger. Quem começou com o Bigger acabou em nada.

Estou certo de que, depois do que aprendemos com outras indústrias, vamos passar a optar pelo certo, em vez do aceitável. Por esta ordem:

1. Better, porque, a partir de agora, vamos começar a escolher criteriosamente o tipo de Nearshore que trazemos para Portugal. Mas este caminho deve começar já. Digamos, portanto, NÃO a ser “baratinhos”.

2. Faster, porque vamos acelerar o processo de fazer Better. Precisamos de acelerar o que nos traz valor acrescentado de longo prazo, em vez do valor mediático de curto prazo. A velocidade é nossa amiga, se a imprimirmos sobre o que é certo. E podemos fazê-lo, se soubermos fazer bom uso da tecnologia. É precisamente para isto que ela serve.

3. More, porque quero acreditar que estamos todos – Empresários, Executivos, Políticos, decisores em geral – focados em ter um país de maior valor acrescentado no longo prazo.

4. Bigger, porque será a consequência pelo valor que merecemos de sermos Better, de irmos Faster e de fazermos More. Seremos Bigger pelas razões certas, aquelas que permitem um país sustentável, uma marca de Portugal Tecnológico relevante e intemporal.

Quero acreditar que o enorme número de operações de Nearshore que estão a vir para Portugal tiveram esta reflexão por parte todos os seus responsáveis. E que a pergunta “onde queremos estar daqui a 10 anos?” foi bem equacionada, foi bem pensada e tem uma estratégia.

Porque há vida para além dos nossos mandatos atuais (Dos meus também!): penso que é responsável! Porque tem de haver um Portugal Tecnológico forte, diferenciado, que compete por Valor por ser inovador: penso que é inteligente! Porque não queremos ser um Portugal dos Pequenitos, com fama de “baratitos”: penso que é certo!

Bigger, Better, Faster, More foi o único álbum da banda de rock alternativo 4 Non Blondes. Pode ser que a ordem dos termos tenha vaticinado o fim da edição de novos álbuns, depois de um sucesso tremendo. Se queremos uma marca Portugal sustentável, temos, inequivocamente, de inverter esta ordem e atuar segundo o que parece certo, de modo a não termos uma única época
de Portugal Tecnológico: Better, Faster, More, Bigger!

Pedro Afonso é CEO da Axians Portugal, a marca da VINCI Energies especialista em Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC)

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