Politicamente Correto

A festa do cone iluminado

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O bolo rei já não tem brinde. A Bela Adormecida ficou sem beijo porque o príncipe foi acusado de abuso. A fruta não tem bicho. O Natal ficou sem Menino Jesus e tornou-se a festa do cone iluminado.

De repente no meio da rua lá está aquela tranquitana metalico-luminosa a que chamamos árvore de Natal. E foi perante aquele cone iluminado, artefacto que nos sobrou devidamente expurgado de tudo o que possa identificar aquilo que somos, o que sentimos, o donde vimos, que me dei conta de como em nome da segurança, da tolerância, da saúde e de sei lá mais o quê estamos a criar um mundo faz de conta. Um mundo em que:

O bolo rei já não tem brinde.

O iogurte ficou sem lactose.

As natas perderam a gordura.

O leite vem da soja e não das vacas.

Os doces ficaram sem açúcar.

Os bolos não têm farinha.

O café perdeu a cafeína.

A manteiga ficou magra.

O pão não tem glúten.

O circo ficou sem leões, depois sem elefantes e agora sem animais.

A humanidade ficou sem sexos e dizem que está perder o interesse pelo sexo.

O namoro ficou sem palavras por causa do assédio.

A Bela Adormecida ficou sem beijo porque o príncipe foi acusado de abuso.

A Capuchinho Vermelho já não é salva pelo caçador que também deixou de caçar e o lobo ficou vegetariano.

Os maridos e as mulheres passaram a cônjuges.

Os parques infantis ficaram sem escorregas de verdade. E alguns sem baloiços.

Chama-se a televisão em vez da polícia.

Os brinquedos ficaram sem graça mas estão cheios de didatismo.

As crianças não têm tempo para não fazer nada.

A má educação tornou-se bullying.

Os pátios das escolas já não têm árvores nem terra.

As gaiolas ficaram sem grilos.

Os filhos não têm pai nem mãe mas sim progenitores.

As feiras não têm graça.

O atirei o pau ao gato ficou sem letra.

A mentira tornou-se inverdade.

A culpa é alegada.

A verdade inconveniente.

O artesanato é certificado.

A fruta não tem bicho.

Brincar é uma actividade devidamente monitorizada.

Os filmes não contam histórias, ilustram teses.

As universidades tornaram-se uma liga de costumes.

As coisas deixaram de ser o que são para se tornarem num dado a avaliar consoante o seu enquadramento numa perspectiva condicionada por diversas valências.

Tudo é relativo.

O Natal ficou sem Menino Jesus e tornou-se a festa do cone iluminado.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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