A boa encenação da realidade torna a vida muitíssimo mais interessante e inspira hoje, como no passado, o talento de artistas verdadeiros e impostores. As falsas aparências da vida diária, excedem largamente “La Comédie Humaine” de Balzac em mentiras e falta de decoro, e põem os nervos dos cépticos em franjas com a dissecação das fake news, o império de todos os polígrafos.

Gestos e palavras autênticos parecem em extinção. Sempre que alguém se considera verdadeiro, não percebe o papel da sua personagem no theatrum mundi. Expressões genuínas tendem mesmo a ser ridículas e já nem às crianças é permitida a inocência, num quotidiano asfixiado pelo “politicamente correcto”.Ora, pondo de parte questões substantivas de discriminação ligadas ao amplo uso da expressão, poderá de facto o “politicamente” ser “correcto”?

A comunicação humana analisada à lupa, quer na esfera privada quer nas organizações, revela farsa inevitável para que seja possível a coexistência de comuns e lúcidos mortais, com a população crescente de susceptiveis e ofendidos de nascença. Bendita pantomima de emoções representadas dos que choram vontade rir e vice-versa.

À peça teatral nunca faltou bom cenário, claramente político, e uma plateia de governantes banhados em lágrimas, emocionados com gemidos de “poetas”, pois como dizia Pessoa “o poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor”. E a regência sensível às dores compadece-se. Faz lembrar o médico que não precisa de diagnóstico para socorrer o paciente com analgésico que cabe a todas as dores. Assim é a administração de milhões a empresas moribundas, em risco de vida, e, quando falha a injecção, procede-se à transfusão do restante sangue dos contribuintes como derradeira manobra de suporte avançado de vida.

Neste paternalismo, o pacato cidadão, delega os próprios interesses à mão protectora do estado, e relaxa noutros teatros com o destino entregue ao “Messias” que a todos cuida, mas não — o subsídio não chega a todos.

Fácil é criar a ilusão de um seio inesgotável, que está cá para o der e vier e matar a sede a todos os sedentos. Difícil é moldar a consciência colectiva, crítica e atenta, quando temos justas oportunidades para o bom governo da própria vida. Guardiões do “economicamente correcto”, queremos informação verdadeira no lugar de histórias de encantar.

Com a devida vénia às artes cénicas, a quem todos devemos tratamento honroso, reparamos no seu engenho usurpado por defensores de consensos, tão na moda, que servem basicamente para empoderar certos consensuais e fazerem crer que, pensar com os próprios neurónios é politicamente incorrecto. Não se contrarie a natural dissidência humana, pois, por norma, se estamos todos de acordo alguém não está a pensar.

Obrigados à teatralização constante das nossas a vidas, já não distinguimos a face da máscara e somos até surpreendidos por variâncias nas ideologias quando vemos as esquerdas integras a fazerem incursões no capitalismo indecente. Com tanto teatro de lengalenga sobrepõe-se a conveniente sonolência geral, a narcose das palavras, que serve ao poder sustentado nos desânimos e desistências do cidadão.

Precisamos de uma certa dose de crença e ilusão, com isso, enganamos, e talvez queiramos ser enganados. Somos demasiado bons actores na farsa do homem feliz, e, ávidos de ficção cedemos à tirania da fraude. Entretidos, estamos a viver de pão e circo como no tempo de Nero, enquanto a vida passa por nós com desdém. Só falta que nos digam – minta pela sua saúde.