Até agora, houve dois momentos muito interessantes nos debates das eleições presidenciais. O primeiro foi a concórdia que reinou entre Marcelo Rebelo de Sousa e Marisa Matias. Neste, a candidata do BE chegou a dizer que há condições para que se alcancem entendimentos duradouros e estáveis à esquerda. Marisa disse-o no mesmo debate em que assumiu que Marcelo será o vencedor das eleições, ou seja, sob a égide de quem qualquer acordo à esquerda deverá será desenhado. Marcelo agradeceu a deixa e respondeu acreditar que a legislatura chegará ao fim com os próximos dois orçamentos aprovados pela dita esquerda.

O segundo momento deu-se logo no início do debate entre Marisa Matias e Ana Gomes, quando as duas concordaram que o envio pelo Governo à UE de dados falsos sobre o procurador escolhido pelo Ministério da Justiça (em vez de Ana Carla Almeida que venceu o concurso internacional para procuradora europeia) precisava apenas que fosse esclarecido pela ministra Francisca Van Dunem. Marisa Matias ainda referiu que o processo envergonhava (Ferro Rodrigues não terá ficado contente) o Estado português, mas ficou-se por aí. Fosse a ministra de um Governo de direita e a resposta das duas candidatas seria, por certo, mais contundente. Como é do PS, e o BE está aberto a entendimentos futuros, Marisa Matias encolheu os ombros.

Estes dois momentos foram relevantes porque mostram uma oportunidade que Marcelo, que é um político astuto, vai querer aproveitar: a de, perante um Parlamento dividido, o Presidente unir para reinar. Desde 1986, que um Presidente não tem perante si um Governo tão fragilizado na Assembleia da República. Ao contrário do que sucedeu com Soares (pois Cavaco Silva beneficiou da adesão de Portugal à CEE e da expansão económica da época), Marcelo sabe que dificilmente um partido conseguirá uma maioria absoluta. Sabe (neste ponto não precisa de ser muito esperto, pois sabemos todos) que o actual Governo é um zombie. Para o forçar a dialogar com o BE, basta enfraquecê-lo um pouco mais. O tirar do tapete à Ministra da Saúde (como fez relativamente à vacina da gripe), o apontar da porta de saída a Eduardo Cabrita e os comentários que já proferiu relativamente à Ministra da Justiça, Francisca Van Dunem, são excelentes exemplos dessa vontade em enfraquecer um Governo que, por enquanto, teima em não renovar a geringonça.

Para presidir de uma forma diferente da dos seus antecessores, Marcelo precisa de representar a direita. Nesse sentido, tem de a manter enfraquecida. Também aqui o cenário lhe é favorável,pois a direita se encontra dividida em quatro partidos. Destes, Marcelo conta com o apoio do PSD e do CDS, cujas direcções são fracas e lhe são submissas. Só relativamente à IL e ao Chega necessita de controlar os danos que daí possam vir. Por alguma razão, o Presidente foi menos conciliador com Mayan Gonçalves do que com Marisa Matias ou João Ferreira. Já o choque com André Ventura é inevitável, até para que Marcelo conquiste o maior número de votos à esquerda. O Presidente precisa destes, não apenas para aumentar a sua legitimidade como político acima de todos os restantes, mas também para conseguir dialogar com esquerda. Ora, para que tal suceda, nada melhor que essa mesma esquerda saiba onde se encontram os seus votos. Com um PS a dominar o Estado, mas sem força suficiente para controlar a Assembleia, cabe a Marcelo forjar acordos: uns à esquerda, entre PS, BE e PCP; outros à direita, dos socialistas com o PSD e o Chega (o CDS, entretanto, foi-se).

Não deixa de ser interessante o modo paciente como Marcelo chegou até aqui. Quando há cinco anos foi eleito, o PS acabara de chegar ao Governo através de uma possibilidade nunca mencionada nem debatida durante a campanha eleitoral. O truque foi feio numa democracia consolidada há pouco, mas que se justificou porque a esquerda receava que o socialismo em Portugal fosse posto em xeque, caso PSD e CDS beneficiassem do sucesso das medidas aplicadas durante a troika (e cujos sinais já se vislumbravam e que ainda desfrutámos, de modo cada vez mais ténue, até 2019). Na verdade, tanto o PS, como o BE e o PCP ficariam sem discurso se PSD e CDS obtivessem os proveitos de quatro anos de austeridade orçamental.

O primeiro passo foi, pois, que a esquerda tirasse proveito do que criticara. Moralmente, isso não foi um problema para o PS que, após quase ter falido o Estado português entre 2005 e 2011, tudo fez para boicotar o plano de resgate financeiro que assinou com o FMI, o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia. A amoralidade comportamental do PS encontrou parceiros fáceis e fiáveis no PCP e no BE.

Quando Marcelo Rebelo de Sousa chegou à presidência, o primeiro passo desta estratégia de sobrevivência político-ideológica estava dado. Faltava o segundo. Se o primeiro consistiu na farsa da vitória eleitoral, o segundo constituiria a farsa do sucesso económico. Se, naturalmente, Marcelo não podia ter revertido o primeiro, devia não ter feito parte do último. Marcelo defende-se, dizendo que sarou feridas e uniu o país, quando com a sua acção se limitou a absolver a oligarquia socialista dos pecados passados. Digo limitou-se, porque o país não está unido. Veja-se o fosso entre funcionários públicos e trabalhadores do sector privado; o tratamento preferencial concedido à TAP (uma grande empresa) quando comparado com os empresários em nome individual da área da restauração (as pequenas empresas, geralmente sem peso numa realidade socialista); a escolha ideológica que foi a exclusão dos serviços de saúde privados no combate à pandemia, entre inúmeros outros casos. Num país sarado e unido, um político como André Ventura não levaria ao rubro as redes sociais, menos ainda entusiasmaria telespectadores de debates políticos. Num país sarado e unido não há fome, nem miséria escondida. Não há vergonha, mas dignidade.

Trago à baila a dignidade porque o problema, hoje em dia, em véspera de eleições presidenciais, não é apenas económico, mas também de cariz político. Trata-se de um dilema de falta de dignidade pública. Veja-se Pedrógão, onde ainda na noite do incêndio, o Presidente da República disse que “o que se fez foi o máximo que se podia fazer” para, mais tarde, e quando se apercebeu do quanto a dimensão da tragédia o poderia afectar, decidiu falar com conhecimento de causa. Ou quando fechou os olhos ao ajuste de contas do PS à então Procuradora Joana Marques Vidal. Ou quando nada se percebeu do que verdadeiramente se passou em Tancos. Ou quando, enquanto Comandante Supremo das Forças Armadas, Marcelo recebeu em júbilo a selecção portuguesa vencedora do Euro 2016 pouco depois de três militares da Força Área terem morrido num acidente no Montijo. Ou quando nada disse sobre o cidadão ucraniano morto às mãos do Estado português. Ou quando justificou essa sua falta com argumentos que não teve em consideração noutras situações em que lhe foi conveniente agir de forma diferente.

Por alguma razão, António Costa lhe segurou o guarda-chuva em Paris. Por algum motivo, a sua recandidatura foi lançada pelo próprio Primeiro-Ministro numa visita dos dois à Autoeuropa.

Marcelo Rebelo de Sousa aguentou tudo isto como político astuto e paciente que é. Cedo colou-se a este PS para colher os frutos da governação anterior. Também ele foi parte integrante da geringonça. O casamento foi de conveniência, mas, ao contrário do que poderia suceder nestes casos, não se fez em nome de um projecto, mas de uma pessoa: dele próprio. Como referi em cima e tive oportunidade de mencionar em Junho de 2019, é bem possível que Marcelo desvirtue o sistema que continua novo e não devidamente consolidado. Até lá, ficaremos mais pobres e viveremos com menos perspectivas. Num permanente Inverno marcelista. Infelizmente, em Portugal as mudanças, porque demoram, quando surgem são abruptas e de pouco servem. A solução será a que sempre foi: ir embora. Os mais novos não desmerecerão esse fado logo que a pandemia passe. Marcelo pode ser astuto e esperto. Infelizmente, Portugal não tem a sorte dele ser grande também. O preço da vitória de Marcelo vai deixar marcas. O agora Presidente pode sentir-se orgulhoso. Os nossos filhos não. Valha-nos isso.