Yanis Varoufakis fez um bom resumo: “conseguimos combinar a lógica com a ideologia”. E como não podia deixar de ser, a ideologia cedeu à lógica, porque quando uma matéria rígida e outra flexível têm de combinar-se é esta que se molda àquela e não o contrário. A lógica de funcionamento da UE, dos resgates financeiros e da honra dos compromissos assumidos imperou sobre a ideologia e as promessas internas do novo Governo grego.

Mas primeiro o essencial. Independentemente da busca de vencedores e vencidos para o braço-de-ferro político e metodológico das últimas semanas, quem ganhou foi a zona euro. É positivo que o Eurogrupo tenha esboçado um acordo com Atenas (aqui, em inglês). É um acordo de princípio que ainda tem pontos importantes que serão fechados apenas na próxima segunda-feira, quando ficar acordada a lista de medidas que a Grécia tem de implementar para ter financiamento assegurado durante mais quatro meses.

Mas é preciso ter presente que este é o início do caminho e não o seu fim. O acordo alcançado esta sexta-feira não resolve, nem de perto nem de longe, a questão grega. Foi apenas um primeiro “round”, um aquecimento para o verdadeiro embate que vai ocorrer nos próximos meses.

A extensão do programa grego limita-se a comprar tempo até ao final de Junho. Tempo que serve para duas coisas.

Primeiro para esvaziar o balão de incerteza e nervosismo que estava a encher nos mercados e no sistema financeiro. O programa de resgate grego termina oficialmente no próximo dia 28. Este prolongamento por quatro meses evita que o país fique sem financiamento e corra o risco de entrar em bancarrota, colocando verdadeiramente em causa a sua permanência no euro. Isso seria trágico para o sector financeiro helénico, já fragilizado com a fuga de depósitos das últimas semanas, e para todo o funcionamento de uma economia que entraria rapidamente numa quebra generalizada da cadeia de pagamentos.

Esta extensão também é importante para que o país e a União Europeia possam negociar e acordar os passos que se seguem após o final deste segundo programa de resgate grego. É pouco provável que daqui a quatro meses a Grécia consiga financiar-se no mercado a taxas de juro comportáveis, como aconteceu connosco nos últimos meses da assistência financeira.

O que se segue então? Haverá um terceiro programa acordado com a União Europeia? Com que montantes, metas e medidas? Haverá espaço para um acordo entre um governo da esquerda radical e os governos moderados que se sentam ao seu lado nas reuniões em Bruxelas? Daqui a quatro meses voltará a ser a lógica e a absoluta necessidade de dinheiro quem vão falar mais alto ou então será a ideologia a imperar, a mesma que agora foi guardada numa gaveta? Que outros caminhos se podem abrir? A troika vai resistir aos três tiros dados esta semana por Jean-Claude Juncker ou vai morrer? E que outros mecanismos vão ser criados para acorrer a países que se mostrem incapazes de honrar os seus compromissos, como aconteceu com a Grécia, Portugal, Irlanda e Chipre?

São demasiadas as questões que estão em aberto e que começarão a ser respondidas nas próximas semanas. Agora já sem o sufoco do tempo que estava, perigosamente, a esgotar-se.

Este sim, será o embate importante. Se o Syriza representa uma alternativa viável e credível será nessa altura que terá de o demonstrar. Essa será a hora da verdade do Governo grego.

O que se passou nas últimas semanas foi uma delimitação de terreno, a marcação de linhas vermelhas, a experimentação de tácticas que possam servir a estratégia, o processo de iniciação do “new kid on the block” para o confronto político e ideológico que vai marcar a Europa nos próximos tempos.

E, previsivelmente, a Grécia teve de ceder em toda a linha para evitar a bancarrota no virar do mês. Em toda a linha não. Para ser rigoroso, Atenas leva um troféu: aparentemente, vai ser aligeirado o objectivo de saldo orçamental acordado previamente entre Atenas e a troika. Faz sentido e não é nada de que Portugal não tivesse também beneficiado ao longo do seu programa de ajustamento.

De resto, tudo fica como o Eurogrupo definiu no início. Mantém-se o programa de resgate com a sua lógica e mantém-se a troika a negociar e garantir o seu cumprimento. A extensão é de quatro meses e não de seis meses, como Atenas pretendia. Mantém-se a dívida e as suas condições, com a Grécia a reafirmar o seu “compromisso inequívoco” de pagar aos credores na íntegra e nos prazos acordados. Mantêm-se em vigor as medidas tomadas ao abrigo dos acordos com a troika, comprometendo-se Atenas a não avançar com medidas de forma unilateral. Tudo, portanto, ao contrário do que pedia, prometia e ameaçava o Governo grego nos primeiros dias após as eleições.

Nem podia ser de outra maneira. A legitimidade democrática grega não vale menos do que a de outros países. Mas também não pode valer mais. Mal estaríamos se a realização de eleições fosse razão suficiente para qualquer país se sentir legitimado a rasgar compromissos assumidos e a impor a outros 18 Estados novas regras de forma unilateral.

E foi isso que o Governo grego tentou fazer desde a primeira hora: queimar acordos, impor as suas ideias, os seus métodos, os seus objectivos e as suas promessas eleitorais a toda a zona euro.

Varoufakis regressa a Atenas tendo ganho apenas tempo. É uma conquista importante, ainda que conseguida dentro das condições impostas pelos credores, mas que fica muito aquém do caderno de encargos que tem perante a sua opinião pública. Esse é um problema clássico a que estamos habituados. Como se de uma maldição se tratasse, no dia que se segue às eleições a realidade deixa de parecer tão brilhante, generosa e simpática como parecia até ao último dia de campanha eleitoral.

Esse é o choque com a realidade que o Governo está já a experimentar e que vai começar a ser sentido também pelos eleitores quando os jogos de semântica deixarem de ser suficientes para a mascarar.

Honras da casa feitas, o governo do Syriza está agora certamente mais familiarizado com as regras da União e com o que o espera na dura negociação que começa a partir de agora. Citando de novo o ministro das Finanças grego: “hoje foi um momento decisivo, porque a Grécia tem-se sentido muito só, isolada, nas reuniões do Eurogrupo. Hoje quebrámos esse isolamento”. Bem-vindos então ao clube.

Jornalista, pauloferreira1967@gmail.com