António Costa aproveitou a escolha dos lugares cimeiros na União Europeia para fazer propaganda política a pensar nas eleições de Outubro. Começou por aparecer como o grande promotor de uma espécie de geringonça europeia para derrotar o PPE em Bruxelas. Seria uma espécie de repetição do que aconteceu em Portugal em 2015. Deu a entender que teria sido convidado para um dos lugares cimeiros, quando nunca foi considerado. E acabou, de um modo deselegante – que aliás o caracteriza — a atacar Donald Tusk, tentando responsabilizá-lo pelo seu (de Costa) fracasso europeu. Pelo meio, portou-se como um líder socialista, e não como PM português, prejudicando os interesses nacionais e atraiçoando princípios fundamentais da política europeia de Portugal.

O que aconteceu entre Osaka e Bruxelas na última semana? Antes de mais, uma coligação entre Macron e os socialistas acabou com as hipóteses do candidato oficial do PPE, Manfred Weber, chegar a Presidente da Comissão Europeia. Os partidos de direita foram os culpados porque escolheram um candidato sem as qualificações mínimas para o lugar. Não é possível, nem desejável, chegar ao topo da Comissão sem qualquer experiência executiva. Obviamente, Merkel e o PPE não podiam deixar cair Weber sem lutar, e foi isso que fizeram.

A estratégia do PPE foi um exemplo de realpolitik bem sucedido. Depois de deixarem cair Weber, decidiram acabar com as esperanças de Frans Timmermans, o candidato socialista, com uma estratégia que confundiu quase todos. Enquanto, aparentemente, Merkel apoiava Timmermans, o resto do PPE opôs-se ao socialista holandês. Com a sua experiência política, Merkel percebeu que a melhor maneira de travar Timmermans seria simular o apoio. Merkel conhece demasiado bem a política europeia para saber que uma solução como a de Osaka nunca poderia ser aceite pelo Conselho Europeu. Uma espécie de directório europeu reuniu-se nas margens da Cimeira do G20, regressou a Bruxelas e tentou forçar os restantes governos a validarem a escolha dos ‘grandes’. Como foi possível que tanta gente, sobretudo em Portugal, julgasse que isto poderia funcionar? Não aprenderam nada com o que se passou em 2004?

Em 2004, os então Presidente francês, Jacques Chirac, e o Chanceler alemão, Gerard Schroeder, tentaram impor aos outros países Guy Verhofstadt como Presidente da Comissão. Obviamente, os restantes países não aceitaram e, liderados por Blair e Berlusconi, escolheram Durão Barroso para a Comissão. Quem não se esqueceu do que aconteceu há uma década e meia foi Merkel. Na altura, era líder da CDU na oposição e desempenhou um papel central para a escolha de Durão Barroso. Criticou o Chanceler do seu país por tentar obrigar os outros a aceitarem uma solução franco-alemã e insistiu que o Presidente da Comissão deveria ser do grupo mais votado no Parlamento, o PPE, tal como agora.

Passados quinze anos, quando regressava do Japão, Merkel sabia que a maioria dos Estados membros nunca aceitariam a solução de Osaka. A União Europeia não funciona com directórios que decidem em encontros fora da Europa e depois forçam todos os outros a obedecerem em Bruxelas. Na noite de domingo passado a maioria dos Estados membros acabou com a candidatura de Timmermans sem que Merkel fizesse alguma coisa para o impedir. Depois foi uma questão de tempo até os outros membros do grupo de Osaka aceitarem o inevitável.

Macron deixou cair Timmermans para ter Christine Lagarde no BCE. Aliás, ao mesmo tempo que defendia Timmermans, o Presidente francês discutia outras soluções com os alemães, como Lagarde na Comissão e Weidmann no BCE ou, a que acabou por prevalecer, Ursula von der Leyen em Bruxelas e Lagarde em Frankfurt. O PM holandês, Mark Rutte, deixou cair Timmermans para ter um liberal no Conselho Europeu, Charles Michel. E Pedro Sanchez deixou cair o camarada Timmermans para enviar o seu MNE, Josep Borrell, para Bruxelas como Alto Representante. Só António Costa, completamente enamorado da ideia de ser o pai de uma geringonça europeia e apenas preocupado com as eleições de Outubro, é que não percebeu o que se ia passando e ficou no final de tudo abandonado por todos. Todos ganharam alguma coisa, menos Costa. Até Sanchez conseguiu um lugar cimeiro para a Espanha.

Nada disto seria preocupante se Costa não fosse o PM português. A sua função é defender os interesses nacionais e não os desejos dos socialistas. Costa colocou-se completamente contra a Alemanha – veremos agora o preço a pagar quando a nova Presidente da Comissão atribuir a pasta ao Comissário português – juntou-se a Macron e a Sanchez, que o abandonaram quando já não precisaram dele.

Para terminar, resolveu atacar Donald Tusk. Tal como Merkel, e até coordenado com a Chanceler alemã, o Presidente do Conselho Europeu sabia que a solução de Osaka nunca poderia ser aceite pelos restantes países da União Europeia. Mais, Tusk achava que não seria desejável que tal acontecesse, e esteve muito bem. Além disso, Costa deveria saber tudo o que Tusk fez em Julho de 2015 para impedir que a Grécia saísse do Euro. Naquela longa noite do Verão de 2015, foram Tusk e Merkel que ajudaram Tsipras para impedir a saída da Grécia. Mais, Costa sabe o papel positivo e construtivo que Tusk tem desempenhado no processo do Brexit, ajudando a manter a unidade da UE e evitando a radicalização de posições entre Bruxelas e Londres.

Mas o pior de tudo foi a traição de Costa a um princípio elementar da diplomacia portuguesa: a oposição aos directórios dos grandes ou dos ricos. Costa aceitou uma decisão de um pequeno directório de países, grandes e ricos, e onde estava a Espanha. Seguiu-os até ao ponto em que já não havia ninguém para seguir. É o que se chama um desastre de política externa. António Costa não consegue ser mais do que um líder partidário. Nunca será um estadista.