Ninguém escapa aos efeitos desta pandemia. No dia 6 de maio, mais de 227 países reportavam casos de covid-19. Os restantes 13 – nos quais se contam ilhas do pacífico e a Coreia do Norte – registam, de forma misteriosa, zero casos. Resta saber se estes zero casos são fruto da imaginação dos seus líderes – afinal de contas, Kim Jong Un não é particularmente conhecido pela sua transparência.

Na verdade, estas especulações sobre a veracidade dos números norte-coreanos são quase tão fidedignas como a atuação do Presidente Nicolas Maduro a lidar com a covid-19. Relembro que, num inquérito realizado em Abril, 92% dos centros de saúde da Venezuela não tinham sabão e mais de 62% dos profissionais de saúde não tinha quaisquer máscaras de proteção. Mais um sucesso do socialismo na América do Sul.

No entanto, o ‘sucesso’ das políticas de esquerda também se alastra à Rússia, símbolo internacional das forças comunistas. No dia 5 de maio, três médicos russos caíram de uma janela do hospital, em circunstâncias misteriosas. Dois deles vieram a morrer. Curiosamente, um destes médicos tinha gravado um vídeo a chamar a atenção do público para as precárias condições dos profissionais de saúde russos nesta pandemia. Mais um caso para Vladimir Putin explicar.

Perante estes casos, reflexo de uma determinada ideologia a ser posta em prática numa autêntica crise humanitária, seria de esperar que vivêssemos um momento de reflexão sobre a mesma e posterior repúdio, face à sua falta de capacidade para lidar com uma pandemia. No entanto, não parece ser o caso – são as repercussões da cegueira ideológica. Para compreender esta cegueira cabe, em primeiro lugar, perceber qual é a utilidade das ideologias.

As ideologias servem, em termos simplistas, para encontrar uma resposta para os problemas da sociedade, sugerindo diferentes sistemas de organização do poder político. Com o passar dos anos, as ideologias vão-se moldando, de forma a estarem mais próximas do ‘Santo Graal’– a solução para a sociedade perfeita, em que o trabalho é recompensado de forma proporcional aos nossos esforços, em que ninguém morre de pobreza e fome, em que não há guerra. Um mundo de paz e prosperidade.

Até aos dias de hoje, ninguém conseguiu encontrar esta solução perfeita. Ninguém teve ‘a razão’. Houve apenas quem esteve mais próximo de encontrar a solução. Fomos presenteados com a democracia em que vivemos na sequência de um processo de reflexão exaustivo que vem desde a democracia ateniense. Foi preciso passar por autênticos banhos de sangue, desde a Guerra dos Trinta Anos, que terminou com a Paz de Vestefália, até ao mais recente holocausto protagonizado pela Alemanha nazi, para atingir este grau de maturidade das democracias.

No entanto, não nos devemos enganar e pensar que atingimos o sistema perfeito. Penso que o cenário de pandemia, no meio de tanto mal que traz, é o cenário ideal para tomarmos consciência de que não vivemos num sistema perfeito e dificilmente surgirá um no decurso das nossas vidas. Mas não é por esta baixa probabilidade de sucesso que devemos deixar de trabalhar para encontrar o ‘Santo Graal’ a que me referi anteriormente.

Este trabalho já começou a ser feito por pessoas de todo o mundo, desde analistas políticos, que preconizam rumores fatalistas do fim da democracia como a conhecemos, a “técnicos de bancada” que dizem que nada vai mudar – e vice-versa. Porém, não posso deixar de ficar incrédulo quando vejo pessoas a sugerir como solução algo que faz parte do problema.

Esta incredulidade traduz-se nos momentos que tenho vindo a presenciar em diversas redes sociais. Entre forças políticas, jovens e adultos ativistas, todos se juntam a defender que, perante os efeitos desta pandemia, a solução só pode ser uma: mais intervenção do Estado. Mais intervenção do Estado na economia, na saúde, em todos os aspetos das nossas vidas. Justificam esta solução com a necessidade de um sistema nacional de saúde forte – o seu maior trunfo, protagonizando um ato repudiável de aproveitamento político numa crise, da maior desonestidade intelectual.

Não posso deixar de ficar perplexo com este clubismo, que só pode ser fruto de uma autêntica lavagem cerebral e de desinformação. Como é que caberá na cabeça de alguém defender um Estado forte – um autêntico regime comunista, porque é disso que se trata um regime em que o Estado tudo controla – perante os falhanços monumentais de países como a Venezuela e a Rússia, que referi no início do texto?

Estes ‘ativistas estadistas’, a esquerda desta geração, tanto é capaz de repudiar os atos anti-humanitários da ditadura norte-coreana como se inspiram na sua forma de organização política. Esquecem-se, no entanto, que ao contrário do país de Kim Jong Un, nós vivemos do lado de fora da cortina vermelha e por essa razão vivemos no mundo da informação livre, em que todos temos acesso aos dados estatísticos, aos ‘números’. No final, cabe a cada um fazer as contas certas e evitar repetir os erros de cálculo do exterior.