Um aspeto curioso da natureza humana é o egocentrismo. Por exemplo, se perguntarmos para cada pessoa de um casal o quanto essa pessoa contribui para as tarefas domesticas, a resposta será que cada um realiza cerca de 60% do trabalho, o que não pode ser verdade pois a soma não pode ser maior que 100%. Um outro exemplo é dos meus alunos. Quando eu pergunto quem acha que vai tirar nota acima da média da turma, praticamente todos levantam a mão, o que não pode ser verdade pois pelo menos alguns alunos deverão ficar com nota abaixo da média.

Mas talvez a manifestação mais perversa do egocentrismo é a ilusão de conhecimento. Psicólogos têm mostrado que as pessoas pensam ter conhecimento muito mais avançado das coisas do que realmente possuem. Por exemplo, num estudo realizado com pessoas que andam frequentemente de bicicleta, os entrevistados reportaram saber perfeitamente como funciona uma bicicleta. Mas quando solicitados explicar como funciona uma bicicleta, as pessoas percebem que não sabem muito do seu funcionamento.

Num outro estudo, Philip Fernbach da Universidade do Colorado e colegas perguntaram para as pessoas numa escala de 1 a 7 se elas são a favor (1) ou contra (7) questões de políticas públicas como aumentar os subsídios da segurança social ou aumentar os impostos. Como previsto, as opiniões das pessoas foram polarizadas com muitos selecionando as opções extremas da escala e poucos no meio. Os pesquisadores pediram então para os entrevistados explicarem as suas opiniões e, logo após, responder novamente a pergunta. Boa parte dos entrevistados revisou as suas opiniões e tornaram-se menos extremistas.

Como o leitor deve ter notado pelo meu discurso, sou brasileiro. E uma das coisas que me impressiona em Portugal é a opinião fervorosa das pessoas sobre por exemplo o EURO ou o FMI. Caminhando pela rua, seguidamente vejo cartazes com dizeres fora EURO ou FMI. Acredito que as pessoas que escrevem esses cartazes muitas vezes nem sabem qual o papel que o EURO ou FMI desempenham e o efeito dessas instituições. Nem mesmo académicos que estudam o assunto sabem. Pois como pode as pessoas terem opiniões tão extremistas? Provavelmente essa é mais uma manifestação da ilusão de conhecimento.

Muitas pessoas que não sabem, não querem aprender. Num estudo recente, Dan Kahan da Universidade Yale apresentou fatos aos entrevistados sobre o aquecimento global. O pesquisador então observou que após lerem os fatos as pessoas de esquerda passaram a acreditar mais no aquecimento global e pessoas de direita passaram a acreditar menos. Por si só esse achado é surpreendente. Ele mostra que pessoas com diferentes ideologias políticas derivam diferentes conclusões do mesmo fato! Mas o mais interessante é que o pesquisador também mediu a capacidade cognitiva dos entrevistados. A hipótese é que pessoas mais inteligentes iriam convergir para a mesma opinião. O resultado foi exatamente o oposto. Quanto mais inteligentes as pessoas eram, mais polarizadas ficaram as suas opiniões após lerem os fatos. Isso mostra que muitas vezes usamos a nossa cognição não para aprender, mas para interpretar os fatos como sendo suporte para as nossas convicções.

A ilusão de conhecimento implica em alguns desafios para mim como professor. Algumas vezes, eu julgo ter conhecimento suficiente sobre determinado assunto e minha falta de compreensão é tornada evidente na incapacidade de responder algumas perguntas dos alunos e ter que responder apenas na aula seguinte após consulta dos livros e artigos. Outras vezes, os alunos julgam precocemente ter conhecimento suficiente sobre determinado tema tornando difícil o aprofundamento sobre determinadas questões. A noção de que não sabemos muito sobre muitas coisas nos torna mais abertos a novos pontos de vista e a descobertas.

Professor Auxiliar na católica Lisbon School of Business & Economics