Recentemente, uma colega de trabalho partilhou comigo que estava a pensar tirar um mestrado. Quando lhe perguntei qual, ela disse: “Ainda não sei. Estou em dúvida entre dois. Tenho de pensar no que quero estar a fazer quando tiver 60 anos e estiver perto da reforma.” Ela tem 25 anos.

Esta pressão, para tomar a decisão certa no nosso caminho profissional, soa familiar?

Da minha experiência, não começamos a senti-la só aos 25 anos, mas sim por volta dos 15, quando temos de decidir que área queremos seguir no ensino secundário e nos fazem crer que essa é a decisão mais importante da nossa vida. Depois vem a faculdade e a escolha do curso que substitui a anterior como a decisão que vai definir para sempre o nosso percurso. Depois disso o primeiro emprego, o mestrado, a primeira mudança de emprego e por aí em diante. Mas será realmente assim? Serão estas decisões assim tão determinantes?

Depois de ter trabalhado em mais de 6 áreas diferentes, nos meus curtos 8 anos de percurso profissional, posso dizer com segurança que tomar uma decisão deste tipo a pensar nos próximos 35, 40 ou 50 anos é pouco produtivo. Certamente já terá ouvido a frase “a única constante na vida é a mudança” e, ainda que tente evitar frases feitas, ao olhar em volta, é fácil verificar que é verdade. Actualmente, o mundo muda e evolui a uma velocidade nunca antes vivida, muito pelo contributo da tecnologia e do acesso a quantidades enormes de informação que a massificação da internet permitiu. Um exemplo óbvio são as novas profissões para as quais tivemos de criar vocabulário, como Gestor/a de Redes Sociais, Data Scientist, Youtuber, Influencer, entre muitas outras.

Voltemo-nos agora para dentro. É hoje a mesma pessoa que era quando tinha 15 anos? Tem os mesmos interesses, pontos forte e fracos, paixões e objetivos? Eu não sou, e tenho a certeza que não serei daqui a outros 15. A mudança não acontece só exteriormente. Estarmos atentos aos sinais dessa evolução e ao permitirmos que ela aconteça gradualmente, em vez de nos tentarmos encaixar em percursos e vidas idealizadas por outros ou por nós próprios no passado, ajudar-nos-á a evitar crises de insatisfação ao olharmos para trás sem nos identificarmos com o caminho que fizemos até então.

Neste contexto, externo e interno, volto à pergunta inicial: será alimentar esta obsessão com a “decisão certa” o melhor caminho a seguir? Proponho uma abordagem diferente, que a nossa atenção seja redirecionada para outro lado: a tomada de decisão como uma oportunidade para aprender, sobre nós, sobre o nosso trabalho e sobre o mundo.

Temos de substituir o medo por curiosidade ao tomar uma decisão. Sei que esta mudança de paradigma não é fácil, mas é possível. O mundo, interno e externo, exige que enfrentemos o desconforto da novidade e do erro, em vez de fugirmos dele. Para isso, temos de fazer um esforço ativo para refletirmos constantemente sobre as nossas experiências profissionais e pessoais, boas e más, de forma a treinarmos o músculo mental que nos permitirá retirar aprendizagens sobre as mesmas. Só assim, vamos saber qual é a melhor decisão a tomar, neste momento, nesta situação, para a pessoa que somos agora.

Ao longo dos últimos 8 anos, ainda que, na maior parte do tempo, de forma inconsciente, tenho vivido a realidade que proponho. Hoje, sinto-me uma pessoa e profissional cada vez mais capaz, pronta para enfrentar qualquer desafio, sempre com curiosidade e atenção ao que estes me podem ensinar. Acima de tudo, sinto que ainda há muito para aprender e isso é o que mais me entusiasma.

Após vários anos de busca, Sara Ramos encontrou a sua paixão na constante exploração de novas possibilidades para a forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos com os outros. Sara Ramos é hoje Learning Designer e Facilitadora freelancer e host do podcast Learning Day (em Inglês), onde convida os ouvintes a explorar o mindset necessário para estarmos constantemente a abraçar novas competências, possibilidades e desafios, integrando a aprendizagem no nosso dia-a-dia.

O Observador associa-se à comunidade Portuguese Women in Tech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.