Muitas vezes é difícil perceber as escolhas do Comité Norueguês do Nobel. Este ano, no entanto, o Prémio Nobel da Paz é simbolicamente muito importante. Foram premiados Maria Ressa, que conduz o grupo de media Rappler, nas Filipinas, e Demitry Muratov, editor da Novaya Gazeta, na Rússia. Todos sabemos que ser jornalista nos regimes de Duterte e Putin é uma profissão de alto risco e o Comité quis reconhecer a coragem de todos os repórteres que, apesar de condições muitíssimo adversas – incluindo o risco das suas próprias vidas –, continuam a tentar contar a verdade que regimes autoritários gostariam de ver silenciada.

O comunicado coloca como razão primeira “os esforços [dos laureados] para salvaguardar a liberdade de expressão, uma precondição para a continuidade da democracia e da paz duradora”. Prossegue explicando que os premiados merecem a distinção pelos seus esforços neste sentido, sendo também uma espécie de representantes de todos os jornalistas que mantêm aceso o ideal da liberdade de expressão e usam o jornalismo como arma de denúncia de abusos de poder, corrupção, violência, prisões arbitrárias e outros males que afligem regimes autoritários.

Ao ler a nota dei por mim a perguntar-me: onde é que está este tipo de jornalismo no Ocidente? A resposta está no mais recente livro de Vasco Rato, De Mao a Xi, que, na introdução, escreve assim: “A comunicação social tradicional, que durante décadas assumiu essa filtragem [entre notícias reais e fake], mergulhou numa crise profunda porque, em parte, sucumbiu ao facilitismo da correção política, ao sensacionalismo, ao click bait e, em muito casos, à politização. Este flagelo é evidenciado por jornais de referência como o New York Times e o Washington Post, convertidos em veículos de cruzadas ideológicas e culturais. […] Ano após ano, os índices de desconfiança quanto à veracidade da comunicação social não deixam de aumentar”.

A tendência é muito forte nos Estados Unidos devido ao chamado efeito “Fox News”. Cada vez mais indivíduos escolhem ver/ler apenas notícias que confirmam os seus pontos de vista, o que transformou significativamente o negócio da comunicação social. Na Europa as coisas não estão muito melhores, ainda que sejam, neste aspeto, menos transparentes. A imprensa ocidental, a que, por maioria de razão, devia ser a mais livre, esqueceu-se dos princípios básicos que deveriam nortear a sua intervenção social. Por exemplo:

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