Desde que, há um bom par de anos, ouvi alguém queixar-se de falta de “espaço temporal” para fazer já não me lembro o quê, comecei a interessar-me pelo modo como a palavra “espaço” passou a ocupar um lugar de relevo na linguagem contemporânea. Em França, por exemplo, as farmácias são “o seu espaço de saúde”, e, até há pouco, havia perto de minha casa uma loja de roupa interior feminina que era, é claro, um “espaço de intimidade”. Há muitos, muitos, casos assim, e surpreende-me que a coisa não tenha chegado ainda à política. Nada mais natural do que ver um cartaz do Bloco em que Catarina anunciasse: “Bloco, o seu espaço de Esquerda”.

O interesse, infelizmente, não me permitiu alcançar nenhuma conclusão teórica sólida. E isso não por falta de hipóteses. A mais elementar é a de que as pessoas gostam de complicar e isso as faz sentir mais inteligentes, mesmo quando o exercício tende para o grotesco (“espaço temporal”). Depois, há a tentação lírica, que não se deve nunca subestimar e que os jornais televisivos, para nossa grande desgraça, ilustram na perfeição. Na televisão não se resiste a um “espaço de liberdade” ou a um “espaço de poesia”. “Espaço” compete dignamente aqui com “imaginário”. Do mesmo modo que ninguém que se preze prescinde do seu “imaginário”, que guarda muitas coisinhas sortidas, o espaço é igualmente indispensável. Aliás, o “imaginário” é um “espaço” – um “espaço-outro” que se encontra fora do tempo. Há ainda uma outra hipótese plausível. A palavra “espaço” parece gozar de um prestígio protector de que o seu parente pobre, o tempo, não usufrui. O tempo é notoriamente algo de vago, impreciso, misterioso e proverbialmente angustiante. Lá no fundo está a morte. Ameaça. O espaço, pelo menos o espaço domesticado, não. Protege. No fundo, todo o “espaço” é um “espaço de saúde”.

Enfim, nada disto vale grande coisa como explicação, mas a relação com o tempo possui talvez um niquinho de poder elucidativo. É que se o espaço salta assim para a boca de cena, o tempo, pelo contrário, retrocede para o fundo do palco. Ou, se se quiser, é ocultado, recalcado, através de um sem número de processos, sendo a linguagem, a regimentação da linguagem, o mais óbvio de todos. Tudo, ou quase tudo, o que na linguagem sugira modos de pensar antigos, encontra-se sob estrita vigilância. O tempo passado deve ser expulso do tempo presente, as passadas palavras devem imperativamente ser abolidas. Elas contaminam a pureza da linguagem contemporaneamente aceite. E quem as use, por inadvertência, arrisca-se, mais cedo ou mais tarde, a ter de pedir desculpas pelo facto. O chamado “politicamente correcto” vive desse policiamento permanente do tempo na linguagem.

Mas o policiamento da linguagem não é certamente o único modo como o tempo é reprimido. A vigilância das imagens também, se necessário através da falsificação delas, como o cigarro que desaparece da boca de Malraux ou da do cowboy Lucky Luke, ou da sua destruição, como os brasões da Praça do Império. Em qualquer dos casos, o tempo passado, por motivos higiénicos ou ideológicos (e há uma zona em que ambos se confundem), é destruído pelo tempo presente. O tempo presente e o tempo futuro não se encontram já presentes no tempo passado, e não o albergam ainda, como algo a preservar. Pelo contrário. Não precisamos de cuidar do passado. Ao invés: temos de o transformar numa possibilidade que nunca, graças a Deus, se tivesse realizado.

Este curioso idealismo conduz-nos direitinho a uma perda do sentimento e da percepção do valor das coisas. Porque o valor das coisas obtém-se através da experiência do tempo. Pesa-se o que se ganhou e o que se perdeu, e o que se perdeu não é menos importante do que o que se ganhou e o que se ganhou só se percebe bem pela presença, na memória materializada em palavras ou imagens, do que se perdeu. Disse “idealismo”, e é idealismo mesmo. O recalcamento do tempo através da regimentação das palavras e das imagens vive da ilusão de que palavras e imagens são as próprias coisas. Abolindo-as, aboliríamos a realidade que contemporaneamente rejeitamos. Mas as palavras e as imagens, coitadas, não são obviamente as próprias coisas. São apenas vestígios simbolizados delas, vestígios que nos servem para pensar, e sobretudo até para pensar a distância que nos separa das coisas simbolizadas.

Com tanto recalcamento do tempo, da nossa experiência do tempo construída na relação viva ao passado, a linguagem, naturalmente, enche-se de “espaços”. “Espaços” disto e daquilo, de tudo o que vier à cabeça. Por mim, tirando um ao outro caso mais teratológico, já me habituei. O tempo dos “espaços” acabará um dia ou outro e não me custa demais, com um olho posto nessa possibilidade futura, adoptar os costumes presentes. Por isso, não tenho passado o tempo a ver os Jogos Olímpicos. Não, que horror! Tenho feito uma coisa muito diferente. Tenho ocupado o meu “espaço temporal” em frente à televisão sentado no meu “espaço olímpico”, o sofá. E assim vou continuar até ao espaço do dia vinte e um.