Depois do extraordinário sucesso do Notre-Dame de Paris, que tornou Victor Hugo o escritor mais célebre da Europa, milhares de turistas acorriam à Île de la Cité para ver a catedral. A acreditar no seu biógrafo Graham Robb, a catedral em si não entusiasmava a maioria, mas um guia costumava apontar para uma janela junto à torre mais próxima do Sena, dizendo a quem o seguia (uma vez, consta, o próprio Victor Hugo) que tinha sido ali que Victor Hugo havia escrito Notre-Dame de Paris.

Não sei em que estado ficou, depois do fogo desta segunda-feira, o compartimento em que imaginariamente Hugo teria escrito o romance, mas de uma coisa tenho a certeza: a catedral interessa a muito mais gente agora do que no tempo de Hugo. Por muitas razões, sem dúvida, fora as religiosas. De todas essas razões, só me ocupa uma: a catedral transformou-se em algo perfeitamente identificável para toda a gente. Dito de outra maneira: num indivíduo que todos conhecemos. E o fogo confrontou-nos com a possibilidade de assistir em directo à sua morte. Por isso, mais do que tudo, o horror e a incredulidade com que muitos viveram o acontecimento. Havia, é claro, toda a percepção dos séculos e da história e a conscência do desfile dos tempos que ela testemunhava. Mas essa percepção tinha-se a partir de algo como um conhecimento directo da catedral, mesmo por parte de quem nunca a tivesse visto em carne e osso. Não era, para muita gente, uma obra de arte ou um símbolo religioso, ou só era isso acessoriamente: antes de tudo, era um indivíduo.

Todas as obras de arte são indivíduos, num sentido profundo. E as cidades nas quais, em museus ou nas ruas, elas se encontram são indivíduos também, indivíduos, criações humanas, dentro dos quais vivemos. E dentro desses grandes indivíduos há indivíduos que são mais salientes do que outros. Acabam por nos acompanhar mais do que os outros, na realidade ou na imaginação. A extraordinária beleza de Notre-Dame e do lugar onde se encontra faz dela um indivíduo assim, à mão de toda a memória, seja da memória da experiência real (por mim, passei mais de sete anos a cruzá-la quase diariamente), seja da memória cultural genérica. Esta última, de resto, chega perfeitamente para reconhecer os indivíduos e para desejar que continuem a existir.

Tudo isto para dizer que a comoção com o incêndio de Notre-Dame tem uma muito mais funda razão de ser do que o seu valor religioso ou simbólico, qualquer que seja o simbolismo que nela se quiser encontrar, e há vários à nossa disposição: a Europa (a verdadeira, não a do ligeiramente obsceno jargão contemporâneo), a nossa civilização… Para o comum dos mortais que assistiu ao incêndio na televisão, nem a religião nem o simbolismo contavam muito. Contava sim, maciçamente, o facto de se tratar de um indivíduo conhecido, cuja memória desde muito cedo lhes pertenceu.

Este artigo é exclusivo para os nossos assinantes: assine agora e beneficie de leitura ilimitada e outras vantagens. Caso já seja assinante inicie aqui a sua sessão. Se pensa que esta mensagem está em erro, contacte o nosso apoio a cliente.