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1 Os revolucionários de ontem são os conservadores de hoje e os reacionários de amanhã — é uma daquelas frases batidas que não tem de ser uma verdade absoluta. Mas, atendendo que a esquerda indígena costuma conjugar uma política de dois pesos e duas medidas com a inteligente tática de imitar uma avestruz que enterra a cabeça na areia, podemos dizer que aquela frase é cada vez mais rigorosa para descrever a extrema-esquerda e uma parte do PS.

O último exemplo disso mesmo foi dado através de um magnífico “manifesto às televisões generalistas” assinado por um conjunto variado de cidadãos conotados como o PS, PCP e Bloco de Esquerda. Entre a censura do “tom agressivo, quase inquisitorial”, do “estilo acusatório com que os jornalistas se insurgem contra governantes”, da “obsessão opinativa” e dos “libelos acusatórios contra responsáveis do Governo e da DGS”, passando pela “ladainha dos números de infetados e mortos”, as “pseudnotícias” sobre o “caos nos hospitais” e a “rutura” sempre anunciada” e as “imagens, repetidas até à náusea, de agulhas a serem espetadas em braços, ventiladores, filas de ambulâncias, médicos, enfermeiros e auxiliares em salas de hospitais.”

A cereja no topo do bolo foi o facto de os 41 signatários terem considerado “inaceitável a agenda política dos diversos canais televisivos generalistas, sobretudo no Serviço Público de Televisão”. Na prática, acusaram indiscriminadamente a RTP, a SIC e a TVI de seguirem interesses políticos que não especificam. A direção de informação da RTP liderada por António José Teixeira respondeu-lhes, e bem, aqui.

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É bom enfatizar para início de conversa de que o jornalismo pode, deve e tem de ser criticado e escrutinado pelos leitores e pelos visados das notícias. Convém é que o seja de forma fundamentada e honesta — o que não foi manifestamente o caso.

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Ora, basta recordar o que se passou em março, abril, maio e durante boa parte do anos de 2020 para concluirmos que os jornalistas, nomeadamente os da TV, foram fundamentais para dar à população informação útil sobre o mundo desconhecido da Covid-19. Na fase do infantil “vai ficar tudo bem” não eram necessários manifestos porque o jornalismo privilegiou a sua vertente pedagógica para contribuir para a unidade.

Os manifestos só são necessários quando há vozes incómodas que, perante os maus resultados no combate à pandemia, começam a fazer perguntas — e já sabemos como fazer perguntas pode ser chato.

Onde estiveram estes democratas, tão preocupados em construir uma verdade unidimensional sobre a crise pandémica, quando José Sócrates tentou (e conseguiu em parte) controlar a comunicação social com a sua forma autoritária de ver o mundo e o jornalismo para se eternizar no poder? Alguns deles estavam satisfeitos a recolher os louros de serem cronistas pagos para darem provas da sua sapiência intelectual — lá está a tal “obsessão opinativa”.

Onde estão estes revolucionários de ontem quando a transparência e o acesso a informação pública vai diminuindo de ano para ano, com sucessivas revisões da lei de acesso aos documentos administrativos aprovada por PS e por PSD? Onde estão eles quando a comunicação social está em crise de modelo de negócio desde há quase 20 anos? Eu digo-vos: sobre a transparência nada dizem (porque são ignorantes sobre a matéria), enquanto que a crise é uma velha desculpa para voltarmos ao tempo em que o Governo (de preferência do PS) nomeava as direções editoriais do DN, JN, A Capital e tantos outros jornais que pertencial ao Estado depois de terem sido nacionalizados durante o processo revolucionário.

3 A democracia é um diálogo de diversas verdades. Não é a imposição de uma verdade face às restantes. É por isso que o jornalismo, o melhor exemplo de uma actividade que depende integralmente da democracia para ter oxigénio suficiente para viver, deve ser plural — e não unidimensional.

Para os subscritores daquele pobre manifesto, não podem existir diferentes leituras sobre os mesmos factos. O que existe naquelas cabeças é uma espécie de jornalismo cientifico, imune ao erro e ao pluralismo que só pode ter uma e só visão (de preferência a autorizada pelo Governo) sobre o mundo. Para esta gente, a definição de jornalismo “sem agenda política” é o jornal “Avante!” ou o moderno esquerda.net. Dois jornais partidários (um do PCP e o outro do BE) que certamente têm a visão pura (e de bem!) sobre a sociedade que os signatários gostariam que todos os jornalistas tivessem — de preferência com carteira de militante.

Ora, tal jornalismo cientifico não existe. O que existe é um jornalismo feito por pessoas que necessariamente pensam de forma diferente pelas influências que receberam ao longo da sua vida e que deve espelhar as diversas correntes de pensamento que existem na sociedade.

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Com os 50 anos do 25 de abril de 1974 a serem comemorados em 2024, o regime democrático já ultrapassou a longevidade da ditadura. E, por isso mesmo, é suposto os pergaminhos democráticos serem mais sólidos e mais robustos do que aquilo que este tipo de manifestos aparenta.

Mas o que vemos são comportamentos da esquerda cada vez mais parecidos aos da brigada do reumático do início dos anos 70. Um hiper conservadorismo sobre toda e qualquer crítica face ao poder instituído e uma necessidade de colocar restrições à liberdade de expressão e de imprensa. Não só com estes apelos ridículos à auto-censura mas também com as restrições crescentes que são impostas aos jornalistas para a realização do seu trabalho.

Uma ironia (trágica): a prova da cristalização do conservadorismo reside em Vasco Lourenço. Porquê? Porque Lourenço passou a ter como profissão “capitão de Abril”.

Confesso-vos que tenho um grande respeito pelos capitães de Abril (incluindo Vasco Lourenço) que arriscaram a sua vida para fazerem um golpe de Estado que abriu caminho à democracia. Mas esse, como o capitão dos capitães chamado Salgueiro Maia provou, é um ato que não é suposto gerar honrarias permanentes.

Recentemente participei por videoconferência numa conversa alargada com académicos de uma faculdade de direito sobre o perigo das redes sociais para o jornalismo. Como é costume nestas coisas, uma das juristas defendeu, e bem, a educação das crianças do pré-escolar e da escola primária através de material didático sobre jornalismo para aumentar a literacia mediática e jornalística. Eu arriscaria dizer que, nem mesmo com um kit educacional próprio, os subscritores daquele manifesto aprenderiam para que serve o jornalismo em democracia.

Porquê? Precisamente porque os revolucionários de ontem transformaram-se nos conservadores de hoje. Resta saber se irão abrir o caminho para a reação pura e dura.

Texto alterado às 9h18m