Como se assinalou na altura, a primeira edição do Charlie Hebdo após o atentado à sua sede tinha sobre os ombros a responsabilidade de afirmar a identidade do jornal. Os editores cumpriram as expectativas, até porque não tinham outra hipótese: a representação de Maomé na capa era obrigatória e foi a expressão simbólica de que os cartoonistas não cederiam ao medo e ao terror. E, nesse gesto, nós celebrámos a defesa da liberdade de expressão, disseminando milhões de exemplares dessa edição pelo mundo.

Foi, se assim se pode chamar, uma vitória. Mas na sua raiz estava também uma ilusão: a de que, hoje, a nossa liberdade não está diminuída. Mas ela está, e muito.

O terrorismo islâmico impôs sobre as sociedades ocidentais uma espécie de batalha entre o medo e a defesa firme dos princípios que caracterizam o nosso Estado de Direito. Ora, nós confiamos em publicações como o Charlie Hebdo para servirem de porta-vozes contra o medo e contra as cedências – da mesma forma que os tentaram calar, nós fazemos questão que eles se façam ouvir. Por isso, defendemos (e bem) a sua natureza polemista (embora alguns o façam a contragosto). E, ao fazê-lo, obtemos uma confortável sensação colectiva de liberdade – resumida pelo slogan je suis charlie. A questão é: isso chega?

Não, não chega. É que, ao mesmo tempo, esquecemos que, enquanto sociedades livres, a nossa resistência às cedências e ao medo não se mede pelo Charlie Hebdo, mas pelo discurso político. E esquecemos que é mais fácil para uma publicação assumidamente satírica enfrentar polémicas do que nós próprios fazê-lo no nosso quotidiano. O desafio está aí: a defesa dos nossos princípios contra o terrorismo islâmico não depende (só) das publicações que esticam ao máximo os limites da liberdade de expressão, mas sobretudo da permanente afirmação política desses valores.

Ora, o problema é que isso não sucede. Terminadas as marchas unânimes e dispersadas as manifestações solidárias, o politicamente correcto (nascido do receio de ferir as susceptibilidades das comunidades islâmicas a viver no Ocidente) adensou-se. E continua a condicionar não somente a forma do que é dito mas, também, a própria mensagem.

Primeiro, através da linguagem e da opção pelos eufemismos – poucas coisas são politicamente mais reveladoras do que a linguagem. Assim, para evitar desagradar às comunidades muçulmanas, as referências ao carácter religioso do terrorismo islâmico começaram a ser abolidas. Por exemplo, o Estado Islâmico passou a ser designado em alguns países (casos da França e dos EUA) enquanto Daesh, o seu nome em árabe. E note-se que a preocupação nem é nova. A administração Obama há muito que gere com pinças orwellianas a terminologia utilizada e, hoje, refere-se ao terrorismo islâmico por “extremismo violento”.

Segundo, tolerando às comunidades muçulmanas a viver no Ocidente aquilo que não se tolera aos ocidentais. Há bairros em Inglaterra, França e Holanda onde se vive como na Arábia Saudita. Há comunidades onde se perseguem os homossexuais, onde as mulheres são avassaladas, onde a autoridade do Estado foi substituída pela do imã. Tudo isto permitido e, em algumas situações, até defendido em nome de uma utopia multiculturalista. Exemplo? Há pouco mais de um ano, permitiu-se a realização de um seminário sobre o Islão na Queen Mary University (Londres) que implicou a segregação das mulheres na assistência (que acederam ao evento por um corredor onde não se cruzaram com homens e, ao contrário destes, não se puderam dirigir directamente ao conferencista).

Ora, a incoerência é gritante. Charlie Hebdo desenha um Maomé na capa, e nós sentimo-nos representados na nossa liberdade. Mas quando somos incapazes de nomear o Estado Islâmico, quando nos refugiamos em eufemismos e quando abolimos os nossos valores para não ferir os das comunidades muçulmanas, temos mesmo razões para nos sentirmos livres?

Não se trata de hostilizar o Islão. Ou de confundir a religião com os extremismos que violam a sua mensagem. É óbvio o que demarca a religião e o que demarca as comunidades muçulmanas em relação ao terrorismo islâmico. Sobre isso, não há dúvidas ou confusões. Mas, sobre o resto, também não: a nossa tolerância multicultural ao que é intolerável em sociedades abertas é uma expressão política do nosso medo. Do medo de ofender, do medo de afirmar os valores, do medo de sermos alvo de represálias. E esse medo diz muito. Afinal, somos muito menos livres do que os cartoons do Charlie Hebdo nos levaram a crer.