Integrado no Movimento 5.7 criado há meses na data simbólica da celebração da Fundação da Aliança Democrática (AD – 1979), foi apresentado no não menos significativo 25 de Novembro o livro Linhas Direitas – Cultura e Política à Direita. Momento e livro atestam – finalmente! – a entrada da direita intelectual e cultural portuguesa, sem pedir licença, na Terceira República.

Os coordenadores do projeto, Miguel Morgado e Rui Ramos, e o editor, Duarte Bárbara, merecem uma forte saudação por terem concretizado uma tentativa sólida de reverter a atomização do pensamento da direita que, em política, acaba por ser ineficaz numa época dominada por uma esquerda coletivista.

Levo adiantada a leitura dos 104 (+1) textos que constituem o livro. Trata-se de uma amostra de 84 autores, portanto uma base empírica relevante do lado subjetivo da condição humana, a complexidade do pensamento, no caso da direita portuguesa, construída a partir de uma metodologia fidedigna (discursos em associação livre próximos da metodologia freudiana, uma vez que cada autor desenvolveu argumentos como quis), assim como permite explorar a vantagem de se tratar de reflexões sucintas (3 a 4 páginas), o que forçou os autores a investirem no essencial.

Dispomos agora de uma obra facilmente acessível e manuseável (399 páginas), o que permite aos interessados elaborarem por si mesmos uma radiografia mental da direita portuguesa pela sua própria voz. Recomendo vivamente o desafio aos leitores, exercício ao qual darei resposta num próximo artigo, adiantando desde já que existe matéria-prima para que a direita converse entre si dispensando a vulgaridade intelectual e cultural em que a esquerda se transformou.

Neste artigo deixarei meras impressões da maternidade da direita portuguesa renovada, o espaço público onde decorreu a primeira apresentação pública do livro, o salão da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa, na Baixa de Lisboa. Não contabilizei o número de presentes, mas as largas dezenas de lugares sentados ficaram muito aquém da procura. Helena Matos, uma das convidadas do debate de apresentação, referiu ser a terceira vez que, em 2019, participava em eventos da área política em causa naquele espaço e o número de participantes foi crescendo.

Esses indicadores perderam o tom radioso quando abandonei o local. Chovia e, desprevenido, tive de comprar um guarda-chuva de emergência ao comerciante asiático da loja em frente, na rua das Portas de Santo Antão. Tinha de caminhar a pé até ao Cais do Sodré para apanhar o barco de regresso à Margem Sul, àquela hora tão concorrido quanto o salão de onde vinha, porém com aparências sociais bem distintas, um outro Portugal.

No salão da Baixa havia olhado em redor sem especial atenção, todavia o caminho de regresso a casa confrontou-me com uma tentação que me deixou duas impressões. Descontadas as diferenças homem/mulher e etárias num leque de duas ou três gerações, não devo andar longe do real se registar que, no salão, estávamos relativamente confinados a uma classe média e alta e, de algum modo, a uma mistura entre académicos e políticos.

Se tais impressões permitem inferir a pulsão totalitária da esquerda que esterilizou, quase por completo, a diversidade de manifestações intelectuais e culturais fora do seu espaço ideológico e, desse modo, a homogeneização grupal do salão espelha um foco de resistência ao poder possessivo de uma qualquer força tutelar, tal virtude uterina transfigura-se no seu contrário quando o grupo não se complexifica a partir do momento que sai da maternidade para as ruas.

As mais graves fragilidades institucionais nascem em salões

Recomeço, no entanto, pela simbiose no salão entre académicos e políticos. Ela deixou latente a hipótese de se reproduzir, agora pela direita, de um vírus civilizacional massificado pela esquerda que há décadas corrompe os fundamentos milenares que justificaram o nascimento das instituições, nos primórdios surgidas nos campos mágico-religioso, da caça ou da guerra. As sociedades sempre geraram instituições enquanto campos autónomos que funcionam habitualmente com agentes próprios iniciados, isto é, a instituição faz sentido se se isolar da vida social como um todo.

O propósito-chave de cada instituição é o de cumprir uma função social específica cujo exercício monopoliza em nome do bem dos seus membros, mas acima de tudo em nome do bem coletivo (tutela da família/lar, justiça/tribunais, saúde/hospitais, ensino/escolas-universidades, segurança/polícias, defesa/exército, religião/igrejas, economia/empresas, imprensa/jornais-rádios-tv’s-etc., artes/cinema-literatura-teatro-etc., desporto/clubes, por aí adiante).

As sociedades contemporâneas saudáveis são as que conseguem articular, sem atropelos, a valorização da abertura do espaço social aos indivíduos sem restrições (inclusão e liberdade) e, ao mesmo tempo, a valorização do respeito cívico pelo fechamento dos espaços institucionais em torno da sua função e agentes específicos (seletividade e regulação de comportamentos). É a amplitude da oscilação funcional entre a abertura e o fechamento que gera sociedades contemporâneas viáveis, justas, livres, férteis e prósperas precisamente porque apenas dessa forma as suas instituições são sólidas.

Acontece que a afirmação intelectual, cultural e social da esquerda se transformou no expoente máximo do ideal do poder do povo o que, na prática, instiga a possibilidade sempre latente do poder das instituições cair na rua ou estar recorrentemente exposto à rua, isto é, a interferências externas. É o resultado da radicalização, pela esquerda, da politização das mais variadas instituições, o que foi diluindo com severidade as fronteiras entre elas e quebrou-lhes a autonomia, dos seus agentes e funcional.

Noutros termos, a esquerda e os seus ideais estão hoje por todo o lado, em especial onde não deveriam estar, nas instituições fora do campo político, incluindo a Santa Sé.

A recuperação da viabilidade do destino coletivo pressupõe, por isso, a existência de um movimento intelectual e cultural que, a começar pelo seu próprio exemplo, restabeleça fronteiras claras entre, por um lado, o seu próprio espaço institucional e cívico e, por outro lado, os outros espaços institucionais e cívicos, muito em particular o espaço do poder político. Não haverá renovação sem que se restaurem, antes de todas as outras, as fronteiras entre o mundo académico e o mundo político, entre a universidade e o partido. Num tempo em que o conhecimento é a pedra angular que move as sociedades, são aqueles dois mundos que modelam as demais fronteiras institucionais como, por exemplo, entre o poder político e o poder económico ou entre o poder político e o poder judicial.

É por isso que não é possível enfrentar desafios e ameaças do nosso tempo sem restaurar alguns muros simbólicos (entre instituições no interior das sociedades) e físicos (entre os Estados territoriais nacionais ou supranacionais). Sublinho que a ideia de instituição vai da família ao Estado, e vice-versa, sendo que qualquer delas não resiste à falta de fronteiras claras, e são estas que permitam universalizar a autorresponsabilidade enquanto princípio moral e civilizacional da porta de casa de cada um de nós às fronteiras do Estado territorial.

Se não for para caminhar nesse sentido, a direita não fará sentido. É por isso que o salão onde a direita intelectual e cultural portuguesa reconquistou simbolicamente o seu lugar ao sol deixou a impressão de ser o oposto do que a sociedade portuguesa necessita, e que deve começar pela autonomia entre a instituição académica e a instituição política.

Encontro com idiotas úteis

Sobre a homogeneidade social de um salão aparentemente limitado a classes médias e altas, pelo menos em contraste com a sala de embarque do cacilheiro, suponho que João Miguel Tavares, presente na mesma fila da plateia onde eu estava, torça o nariz, como outros. Clarifico, por isso, que me reporto ao que os presentes me pareceram e não ao seu percurso na vida, até porque admito o pressuposto de as condições de elitização da sociedade portuguesa serem bem mais excecionais quando comparadas com as das sociedades ocidentais mais prósperas.

Acrescento ainda que serei o último a defender quotas, e nunca a partir de argumentos identitários, uma vez que a moral social é tanto mais válida quanto mais remeter para princípios universais identificáveis com a unidade do género humano.

Uma homogeneidade social voluntariamente agregada num evento público daquela natureza não deixa de ser, nos dias que correm, um sintoma seguro de fechamento grupal e, desse modo, um desafio à capacidade da direita em sair daquela redoma social e avançar para um espaço público atravessado por extremos sociais, de pobres a ricos. A observação jamais pretende ser uma crítica a uns ou outros, uma vez que só na cabeça de um marxista as barreiras sociais são da responsabilidade apenas de um dos lados.

O que afirmo é que a coesão social tem de ser a ambição de qualquer campo político, sobretudo no caso da direita portuguesa que carrega aos ombros o dever de compensar o falhanço clamoroso da orientação moral, intelectual e cívica da esquerda, sendo que os mais sacrificados estão a ser os que mais necessitam.

Todavia, tal caminho está armadilhado mercê da colaboração de grande parte da direita bem pensante seguramente bem representada naquele salão da Baixa de Lisboa. A armadilha está no terror de ser vítima dos rótulos «populista» ou «extremista» aplicáveis pela esquerda a todo e qualquer movimento ou partido da direita capazes de pôr os pés na rua para se identificarem com as pessoas comuns, isto é, para partilharem os seus desafios existenciais tal como se manifestam no quotidiano.

Foi essa barreira que a Nova Direita Europeia começou a quebrar – e bem! – desde os anos noventa na Europa de Leste e Central, e que Donald Trump ou Jair Bolsonaro alastraram às Américas. Em Portugal, a direita resiste a rasgos de razão, lucidez e coragem para ousar deixar de olhar para o seu umbigo. Honra seja feita a André Ventura (passou fugazmente pelo evento), o mais resistente a uma comunicação social que estupidifica a opinião pública trocando o essencial pelo acessório.

Não é possível a direita querer condicionar o destino da sociedade portuguesa ao mesmo tempo que parte significativa dessa mesma direita todos os dias desempenha e, pior, alimenta socialmente o papel do idiota útil, o escudo protetor do poder social esterilizante da esquerda. À direita, por vezes, bastaria rejeitar categoricamente certos termos como «populista», «neoliberal» ou «extrema-direita».

Espero que o conteúdo do livro, ao qual voltarei, se transforme no suporte que faltava para a direita portuguesa se assumir sem ambiguidades e para aprender a crescer liberta de fantasmas do passado mais do que exorcizados, ao contrário dos fantasmas da esquerda.

Autor de Um século de escombros – Pensar o futuro com os valores morais da Direita.